Não falo mal da Marina, diz governador do PT no Acre

Amigo da ex-ministra, Tião Viana se nega a seguir a linha do partido de ataques a candidata, mas garante empenho pela campanha de Dilma no Estado

Fábio Fabrini, enviado especial, O Estado de S. Paulo

04 de setembro de 2014 | 11h52

Rio Branco - Principal aliado da presidente Dilma Rousseff na terra de Marina Silva, o governador do Acre, Tião Viana (PT), candidato à reeleição, se nega a seguir a receita de seu partido para desidratar a candidata do PSB, favorita para vencer as eleições num eventual segundo turno. Ele diz que não vai criticar a ex-ministra na campanha e apontar eventuais contradições de seu discurso, embora reconheça, segundo sondagens da própria legenda, que ela já tomou a dianteira das pesquisas no Estado.

"Não falo mal da Marina", avisa, acrescentando que isso não lhe faria bem. Amigo da ex-ministra, Tião tem o apoio dela e do PSB no Estado. Um confronto poderia ainda prejudicá-lo nas eleições locais. Ele garante, no entanto, empenho por Dilma. Veja a seguir os principais trechos da entrevista que ele concedeu ao Broadcast Político, na capital acreana.

Como frear a ascensão de Marina?

Não estamos freando. A Marina nasceu aqui, cresceu aqui e ela tem uma relação de amizade com a gente. É uma pessoa que respeitamos. O Eduardo Campos, em vida, declarou publicamente apoio ao nosso projeto. A Rede não lançou candidato (no Acre). O esposo dela (Fábio Vaz de Lima, ex-secretário adjunto que deixou o governo para ajudar na campanha da presidenciável) faz a campanha para mim. Temos essa questão de coerência e de respeito. Agora, nossa luta intensa é pela eleição da presidenta Dilma.

A vinda do ex-presidente Lula ao Acre ajudaria a puxar voto para Dilma?

Vai despertar alguma reflexão. A Marina está ganhando um espaço de votação expressivo aqui. Ela está na faixa de 44% e a presidenta Dilma, na faixa de 34% (segundo pesquisa diária feita pelo PT, concluída anteontem). O Aécio tem 17%.

A que o senhor atribui isso? Na última eleição, Marina ficou em terceiro aqui.

A Marina, quando senadora, apresentou uma agenda ambiental para a Amazônia, para o Brasil, para o mundo. Ela se distanciou do cotidiano das políticas do Acre. Ao se distanciar, perdeu a referência. Tem agora uma onda nacional, um fenômeno eleitoral que trouxe, da comoção com a morte do Eduardo Campos, a uma lembrança do que ela representou na última eleição. Dilma faz uma ação de governo altamente eficaz. Mas são decisões que não estão compartilhadas na sua construção e no acompanhamento por representantes setoriais. Isso gera uma ideia de que não está acontecendo. Um pouco mais de diálogo teria reduzido essa sensação de orfandade do eleitor.

O que o senhor chama de orfandade?

Ele (o eleitor) quer algo mais perto dele. Talvez o PT tenha se distanciado disso. Seria dialogar mais, ouvir mais as periferias das cidades, do Brasil, onde as pessoas querem ver mais o que está acontecendo. (O governo) Ficou muito preso ao "tarefismo", demandas de gestão muito fortes, a burocracia é terrível neste País. O Lula conseguia pular o muro da burocracia e chegar perto das regiões.

Marina está com o senhor e, ao mesmo tempo, o senhor não está com ela? Não é difícil para o eleitor entender isso?

Não, porque na outra vez já foi assim e porque nós já lutamos pela Marina muito quando ela estava conosco. Não falamos mal dela, não a criticamos, mas eu não vou abrir mão da gratidão que tenho ao Lula e a Dilma para viver um oportunismo agora, porque tem uma onda pró-Marina.

A opção, então, é não criticá-la?

Não seria honesto eu fazer uma crítica a Marina. Tenho a defesa de tudo o que eu posso fazer pela Dilma e que eu acredito nela, mas eu não preciso criticá-la. Não me faria bem.

O PT não espera do senhor uma postura mais ácida?

Nunca me cobraram. Não vou fazer isso. Não preciso fazer política diminuindo ninguém.

Esse suposto distanciamento entre a Marina e o Acre não vai ser explorado agora na campanha?

Não falo mal da Marina. É uma pessoa que tem uma importância grande para o Acre, nasceu aqui, tem uma bela história de vida, e que o destino deu a ela o que merece.

Como o senhor vê um eventual governo Marina: vai ser de incerteza ou turbulência, como diz o PT?

Prefiro não comentar.

Lula deveria sair candidato para salvar a eleição?

A candidata é a Dilma. Não temos de pensar nisso. Se perder, perde-se com Dilma; se ganhar, ganha-se com ela. O povo não ia entender isso (a troca). O Lula não ia fazer isso com a Dilma e a Dilma não ia fazer isso com ela.

Se Marina vencer, o PT deveria considerar apoiá-la?

Trabalho só com a hipótese de a presidenta Dilma vencer.

Seus adversários o criticam por defender presos na Operação G-7, da Polícia Federal (que apurou suposto esquema de cartel para fraudar contratos do Estado), e manter um deles no governo. O senhor não está sendo complacente?

A operação foi uma tentativa de golpe institucional de pessoas infiltradas dentro do Judiciário e da Polícia Federal. Queriam me atingir e atingiram inocentes. Há 37 meses começou essa investigação, e até hoje não há denúncia do Ministério Público. Prenderam as pessoas sem nenhuma prova.

O que, concretamente, indica que é uma perseguição política?

A PF fez uma investigação. O Juiz federal negou provimento a ela. A PF vai para um desembargador e o desembargador estadual dá provimento numa investigação federal? Já mostra uma contradição enorme. As informações que chegam falam de toda uma questão passional envolvida aí.

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