‘Não estamos escondendo nada’, afirma comandante

Juniti Saito defende trabalho da Aeronáutica e diz que ainda não se sabe por que caixa-preta não contém diálogos

Entrevista com

Juniti Saito, comandante da Aeronáutica

Tânia Monteiro, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2014 | 03h00

O comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, relatou ao Estado o teor das últimas conversas do piloto da aeronave Cessna Citation 560XL que caiu na quarta-feira passada no litoral paulista, matando o candidato à Presidência da República do PSB, Eduardo Campos, e mais seis pessoas.

Segundo Saito, o piloto Marcos Martins, uma das vítimas do acidente, falou com o serviço de rádio em um momento crucial, informando que estava arremetendo por causa da visibilidade ruim. Questionado pelo controlador quais eram suas próximas intenções, respondeu, com tranquilidade, que iria “aguardar a melhoria do tempo”.

Só que, depois disso, o militar tentou, pelo menos, quatro contatos e não conseguiu mais comunicação com o piloto. A conversa foi mantida com o militar do serviço de radiocomunicação da Base Aérea de Santos e é posterior aos diálogos já divulgados que trouxeram informações sobre a aproximação da aeronave. A reconstrução desses detalhes foi possível pelas informações do pessoal de terra em Santos e das gravações da Base Aérea, já que não há qualquer registro das conversas dos pilotos no equipamento que ficava na cabine do avião.

Por que a caixa-preta não contém a conversa do voo que era tão aguardada para ajudar esclarecer o acidente?

Não sabemos o aconteceu. Estamos investigando. Todos estavam ansiosos pelo resultado da avaliação da caixa de voz, sobre o conteúdo da caixa-preta. Só que, lamentavelmente, não tem nenhum diálogo entre os pilotos. Não sei o que aconteceu.

O senhor tem alguma ideia sobre o que pode ter acontecido para a caixa-preta não registrar as conversas na cabine?

Os investigadores vão tentar descobrir. Pode ser uma pane no equipamento. Não sabemos exatamente. Por que alguém iria desligar deliberadamente um equipamento que pode servir de subsídio para trabalhos futuros, que grava tudo que acontece na cabine e pode ajudar as investigações em caso de acidente? Não tem explicação.

Qual foi o último contato do operador de rádio em Santos com o piloto?

O piloto falou com o sistema de rádio de Santos o tempo todo, informando a posição da aeronave e, quando da aproximação do procedimento, ele disse que estava arremetendo por causa da visibilidade ruim. O controlador, que não é um controlador de tráfego, mas um operador do sistema de rádio, perguntou quais as próximas intenções do piloto. E o piloto respondeu que ia aguardar a melhoria do tempo. Só que, depois disso, o piloto não chamou mais.

EDUARDO CAMPOS; ELEIçõES; ACIDENTE DE AVIãO; AERONáUTICA

O controlador chamou o piloto?

O controlador do rádio chamou pelo menos umas quatro vezes o piloto. Foram várias tentativas. E ele não respondeu.

Todos esperavam pela transcrição da caixa-preta, que registra as conversas entre os pilotos dentro da cabine de comando, para saber o que aconteceu.

Não estamos escondendo nada, ao contrário. Gostaria que as pessoas confiassem na seriedade do Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) em buscar a verdade do que ocorreu porque tudo que encontrarmos será importante para evitar que novos acidentes deste tipo ocorram. Nosso trabalho é muito sério e reconhecido mundialmente.

Quando saberemos o que aconteceu?

Não podemos dar prazo. Estamos checando todos os parâmetros e examinando detidamente cada equipamento.

O senhor esteve hoje com a presidente Dilma Rousseff. Ela ficou preocupada com o fato de não existir gravação?

Eu pedi a audiência, já que na quarta-feira ela me designou para ir a Santos com o ministro Aloizio Mercadante e o vice-presidente Michel Temer. Fiz um relato do que vi lá. Apresentei os dados. Expliquei que não sabemos o que aconteceu com a caixa-preta e que não existe conversa dos pilotos em voo. Falei sobre a trajetória do voo e que estamos em um momento de busca de informações e explicações que pudessem ajudar nas investigações.

A Aeronáutica foi criticada por políticos?

Estamos à disposição para prestar esclarecimentos, mas gostaria que acreditassem no nosso trabalho que é muito sério. O nosso sistema de investigação é um dos mais respeitados mundialmente. 

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