'Não é adequado comparar anistias'

Estudioso das ditaduras latino-americanas afirma que, em comum, regimes de esquerda ou direita pouco fizeram pelo povo

Entrevista com

GABRIEL MANZANO, O Estado de S.Paulo

01 de abril de 2012 | 03h05

Intrigado com "os fantasmas que continuam por aí" - a atração pelo autoritarismo que ainda resiste na América Latina, apesar do fracasso de tantas ditaduras nos últimos dois séculos - o jornalista e escritor Carlos Taquari decidiu mergulhar no assunto e estudou a longa fila de caudilhos, oligarcas, generais e oportunistas que infelicitaram o continente. Das lições que trouxe, a primeira foi que "nenhum desses regimes, fosse de esquerda ou de direita, melhorou a vida do povo". A segunda foi que a comparação entre as anistias de vários países "não leva em conta que os autoritarismos foram parecidos, mas as democracias que vieram depois seguiram caminhos bem diferentes".

Essa "viagem" por dezenas de ditaduras desembocou no livro Tiranos e Tiranetes (Ed. Civilização Brasileira). É um desfile de abusos, crueldades e doses de grotesco que "pode ser lido como tragédia ou comédia".

Qual foi seu objetivo ao estudar as ditaduras latino-americanas?

Ficava intrigado ao perceber, em meu trabalho como jornalista, que apesar do fracasso de tantas ditaduras por 200 anos, seus fantasmas continuam vivos. Elas deixaram como herança um continente atrasado, mas continuamos assistindo a avanços do autoritarismo, ao cerco contra a imprensa, ao empenho de alguns pela perpetuação no poder. Queria entender melhor e escrever sobre isso.

E quais lições aprendeu?

Uma delas foi que nenhum desses regimes melhorou a vida do povo. Todas deixaram pobreza, analfabetismo e atraso. A Venezuela detém o recorde de tempo sob controle de caudilhos, mais de um século. A Argentina destacou-se pelo enorme número de mortos na repressão, o Chile viveu uma violência traumática, Cuba atravessou 50 anos com um só governante. E tem gente que apoia os modelos autoritários.

De que gente o sr. fala?

Por exemplo, dos que ainda recorrem à censura contra a imprensa. Na Argentina o governo controla o papel da imprensa. Venezuela e Equador cobram multas de jornais e TVs da oposição para quebrá-los. E no Brasil, se um jornal como o Estado sofre censura judicial, imagine o que não se faz em lugares distantes. Outra marca desses tiranos é o total descompromisso com o povo. Na Bolívia do século 19, o general Mariano Melgarejo tomava porres e saía dando tiros pelo palácio.

O que levou ao fim desse ciclo de ditaduras?

Boa parte apodreceu. O mundo se abriu, a sociedade se tornou mais crítica e a saída seria aumentar a repressão, o que não dava mais. No Brasil, Ernesto Geisel, disse: "Nosso mal foi ter durado tanto tempo".

Como vê as cobranças de hoje contra os antigos generais?

O fim desse ciclo militar teve processos diferentes. Os militares da Argentina foram embora humilhados pela derrota nas Malvinas. No Uruguai, o processo foi lento, uma constituição foi rechaçada em plebiscito, uma lei libertou presos políticos, outra perdoou militares e no ano passado foi revogada. No Chile, Pinochet deixou o poder mas manteve forte influência entre militares. Foi preciso o governo dos EUA aprovar a Lei do Ato Patriótico, em reação ao 11 de setembro, para que a Justiça de lá autorizasse a quebra de sigilos bancários de ex-governantes estrangeiros. Revelaram-se então os bens de Pinochet e ele ficou acuado.

Como vê o caso brasileiro nesse conjunto?

Aqui a Lei de Anistia nasceu de um acordo entre generais no poder e a sociedade. Exilados voltaram ao País e à política, a redemocratização foi pacífica. Uma nova Constituição referendou a Lei de Anistia nove anos depois. Por isso, comparações não se aplicam. E temos um Supremo Tribunal Federal autônomo, que até aqui tem rejeitado tentativas de alterar esse compromisso.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.