'Não aguento mais ficar em casa', avisa Lula

Forçado a interromper atividade política para tratar câncer na laringe, ex-presidente dá sinais de inquietação e fala em voltar ao Instituto Cidadania

O Estado de S.Paulo

04 de novembro de 2011 | 03h06

Apenas três dias após ter sido submetido à primeira sessão de quimioterapia para combater um tumor na laringe, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstra confiança na recuperação e se diz ansioso para sair de seu apartamento em São Bernardo do Campo.

Os planos dele incluem a volta ao trabalho já na semana que vem, no Instituto Cidadania. Foi o que o ex-presidente contou ontem cedo, ao telefone, na conversa com a senadora Marta Suplicy (PT-SP), em que ela o avisou de que desistira de disputar a Prefeitura paulistana em 2012.

"Olha, não aguento mais ficar em casa", disse o presidente, segundo relato de Marta. "Na semana que vem vou para o instituto." Pelo que ouviu, a avaliação da senadora petista é de que Lula "está ótimo, com voz ótima, falando com força". Tanto que discordou no ato de sua sugestão de fazer-lhe uma visita no ABC: "Não, vamos marcar um almoço", contrapôs.

Foram cinco dias, desde que o tumor na laringe foi descoberto e noticiado. Nesse intervalo, ele se recolheu à casa, seguiu as ordens médicas, saiu só para fazer a quimioterapia no Sírio-Libanês na segunda-feira... e chega. Como um leão impaciente, ele se contorce para sair da jaula.

E não é só por causa dos passos adiante, ou atrás, de Marta ou do ministro Fernando Haddad. Lula não só ficou sabendo no ato como ficou "iradíssimo", no dizer do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, com o estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), que deixou o Brasil em 84.º lugar no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). E enquanto o velho amigo dava conta, no Planalto, de sua sugestão de que o governo "precisa reagir" a tal tratamento, a assessoria do ex-presidente informava que uma reunião entre o Instituto Lula, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) está marcada para o dia 16, sobre investimentos brasileiros na África. A presença do ex-presidente no encontro dependerá de suas condições de saúde.

A reclamação contundente do ex-presidente, observou Carvalho, revela como ele segue acompanhando tudo o que ocorre no País. "E é uma prova de que ele está muito bem de saúde." Presente em um seminário sobre cooperação entre Brasil e Itália, no anexo do Planalto, Carvalho deu mais detalhes sobre a reação aos dados do Pnud - desta vez, do próprio governo. A primeira, que "os números das instituições brasileiras não foram utilizados" para se chegar ao IDH nacional. Ele avisa que não quer abrir polêmica, mas entende que "vale a pena uma discussão em torno da metodologia".

Na África. Uma das razões de Lula para retomar logo o ritmo, por certo, é o acerto com empresários ligados à Fiesp e à Febraban sobre os próximos passos nos investimentos dirigidos à África. Lá devem estar embaixadores de países africanos, alguns organismos internacionais, técnicos e acadêmicos. Figurões como Bobby Pittman, vice-presidente para Infraestrutura do Banco Africano de Desenvolvimento, e Jay Naidoo, da Global Alliance for Improved Nutrition (Aliança Global para Melhor Nutrição), além do presidente do BNDES, Luciano Coutinho. Lula cancelou a agenda de viagens até janeiro, mas não está longe dos debates internacionais.

Como lembra a diretora do Instituto, Clara Ant, depois de deixar a Presidência da República, Lula já foi à África três vezes. Na última delas, foi convidado de honra da cúpula da União Africana. Ao longo deste ano, vários chefes de Estado e delegações africanas visitaram o instituto, que acolheu também estudiosos como Luís Felipe d'Alencastro e Alberto Costa e Silva. / GABRIEL MANZANO, JULIA DUAILIBI e TÂNIA MONTEIRO

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