'Não abrimos mão de fazer o partido crescer pelo País'

Padrinho de Geraldo Julio no Recife, Campos diz que eleição municipal envolve temas locais, mas que apoiará Dilma em 2014

Entrevista com

LUCIANA NUNES LEAL , ENVIADA ESPECIAL / RECIFE, O Estado de S.Paulo

10 de setembro de 2012 | 03h06

Padrinho da candidatura do ex-secretário Geraldo Julio à prefeitura da capital pernambucana pelo PSB, o governador Eduardo Campos, presidente nacional do partido, entrou na campanha de rua na noite da última terça-feira e, em menos de 24 horas, já tinha feito um comício e duas caminhadas ao lado do afilhado. Presença constante na propaganda da TV, Campos esperou que Geraldo, que foi seu secretário de Planejamento e depois de Desenvolvimento Econômico, assumisse a liderança nas pesquisas antes de partir para o corpo a corpo.

A decisão de lançar candidato próprio do PSB custou a Eduardo Campos o fim do bom relacionamento com o partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na semana passada o presidente nacional do PT, Rui Falcão, disse ao Estado que o governador colocara o rompimento entre as duas legendas em 2014 na ordem do dia.

Com a campanha, o senhor está convencido da impossibilidade de manter a aliança com o PT em Recife?

Com o PT dividido não tinha condição. Eu sempre dizia que a gente devia respeitar a precedência do PT para indicar o candidato, mas era fundamental que o PT construísse sua unidade. Falei como um mantra durante mais de ano. O que aconteceu ampliou os traumas internos, e a gente não podia ver a cidade passando por esse sentimento de descuido. A administração do atual prefeito foi extremamente atrapalhada por essas disputas, ele sofreu muito com isso. A disputa foi tão grave que deixou o prefeito fora da eleição, fez o deputado Maurício Rands, um quadro histórico do PT, renunciar ao mandato, deixar o partido, deixar nosso governo.

O afastamento do PT e do PSB se repetiu em outras capitais. Foi um efeito cascata?

Quem quiser contar uma história ligando todos os pontos talvez possa montar uma, duas, três, quatro histórias. Mas o fato é que eleição municipal envolve circunstâncias locais, muito próprias. Ela divide mais do que a conjuntura estadual e nacional. Há uma tendência natural a disputas mais acirradas. Os partidos querem formar suas bases, montar chapas de vereador, lançar um nome para eleições futuras. A história está cheia desses exemplos.

Ficam ressentimentos que podem se repetir em 2014?

Da nossa parte não. Em 2006 disputei eleição com Humberto (senador Humberto Costa, candidato do PT à prefeitura), e nem por isso deixamos de estar juntos no segundo turno, no governo, na chapa com Humberto candidato a senador em 2010. É próprio da disputa política. Nosso sentimento em relação a todos esses setores do PT é de muito respeito. Em cinco capitais nós apoiamos o PT, em duas o PT nos apoia. Temos que ter muito cuidado para não entrarmos no jogo de muitos que querem fazer da eleição municipal um veredito para nossa relação nas próximas décadas.

A aliança continua em 2014?

O papel que o PSB deve cumprir em 2014 é colocar a presidenta Dilma nas condições de fazer a disputa legítima pela sua reeleição. Agora, somos um partido que tem identidade, tem opinião, tem feito grandes governos. Queremos (fazer) crescer o partido, sim. É um direito do qual não abrimos mão.

O ex-presidente Lula planeja estar no Recife para fazer campanha para o candidato do PT. Isso pode acirrar a disputa?

O presidente Lula já está aqui fazendo campanha em um palanque muito mais poderoso que o tradicional, que é o da televisão. Encaramos a participação dele de maneira natural. Daqui a 30 ou 60 dias termina a eleição, e o Brasil continua precisando das ações dessas forças. A coligação de Geraldo tem 14 partidos, todos da base da presidente.

Em Belo Horizonte, há uma disputa muito séria entre PT e PSB, com ataques mútuos. O senhor credita isso ao fato de lá o PSB estar com o PSDB?

Eleição é sempre acirrada, nem sempre se disputa no campo da razão. Tem dose de emoção, às vezes maior do que deve. Cabe a quem tem responsabilidade, experiência, dosar a emoção e direcionar para as coisas boas na campanha. Fiz campanha desde muito cedo e você nunca vai me ver atacando um adversário. E já fui atacado de dar pena. Já participei de várias atividades de campanha, agora comecei a ir para a rua. Geraldo faz a campanha muito bem, trouxe a eleição a bom patamar antes do horário eleitoral. Agora a meta é chegar em primeiro lugar no primeiro turno. É segurar, ir para a rua.

Qual é o significado da sua reaproximação de Jarbas Vasconcellos, um opositor muito duro de Lula e Dilma?

Quero lembrar que o PMDB de Pernambuco e o conjunto liderado por Jarbas sempre fizeram parte da Frente Popular. Tivemos um afastamento em 1992, houve disputa muito dura. Jarbas não fez ao PT nacional, ao presidente Lula e à presidenta Dilma dez por cento do que fez a mim. O fato é que as pessoas no Recife entenderam perfeitamente essa decisão que Jarbas tomou como um reencontro dele com a velha tradição da Frente Popular.

E o ex-presidente Lula compreendeu?

Eu comuniquei ao presidente Lula que havia conversas, Jarbas me pediu para fazer a ponte para prestar solidariedade e votos de restabelecimento ao presidente Lula. Eu discordo da posição de Jarbas em relação ao presidente Lula e à presidenta Dilma, e ele sabe disso.

A aliança com Jarbas não é mais um motivo de ressentimento do PT em relação ao PSB?

Tem municípios onde o PMDB de Jarbas está com o PT e ninguém fala nada. Jarbas, quando apoia o PT em Paulista e em Abreu Lima, não é uma afronta a Lula. Quando apoia Geraldo é um problema?

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