Na Raposa Serra do Sol, índios agora têm criação comunitária de gado

Programa iniciado com ajuda da Igreja espalha bois por área demarcada em Roraima; arrozais estão abandonados

LOIDE GOMES / BOA VISTA , ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2013 | 14h40

A reserva Raposa Serra do Sol, com seu 1,7 milhão de hectares a nordeste de Roraima, vem aos poucos se tornando produtiva nas mãos dos indígenas, que em 2009 conquistaram o direito de uso exclusivo da terra no Supremo Tribunal Federal. O processo de desocupação foi concluído em agosto daquele ano, cinco meses após o julgamento da Petição 3388, de iniciativa do então senador Augusto Botelho, que contestava a demarcação contínua.

A pecuária é a principal atividade econômica. O rebanho atual chega a 70 mil cabeças, o dobro do que havia antes da decisão do Supremo, sob administração de fazendeiros, A exploração da criação de gado no local, pelos índios, é fruto de uma iniciativa introduzida há anos pela Diocese de Roraima. Os padres financiavam cinquenta fêmeas e dois machos para as comunidades, que se comprometiam a repassar a mesma quantidade para outras aldeias, após cinco anos, mantendo consigo o excedente.

O projeto ganhou autonomia e hoje é gerenciado pelos índios. Eles gostaram tanto da ideia que muitos formaram seu próprio rebanho, além do comunitário.

Plantações. A agricultura também vem se expandindo nas aldeias. Os investimentos nas tradicionais lavouras de mandioca, feijão e milho aumentaram, segundo a Fundação Nacional do Índio, embora ainda não seja possível quantificar o tamanho da área produzida.

A novidade é a cultura de hortaliças. Há plantações de chuchu, rabanete, couve, cebolinha. Para diversificar e melhorar a qualidade das lavouras, os índios contam com a assistência prestada por 26 técnicos agrícolas indígenas contratados pelo governo do Estado de Roraima.

"Eles são os primeiros profissionais indígenas do Brasil e trabalham dentro da dinâmica da organização dos povos indígenas e do conhecimento das culturas tradicionais das aldeias", afirma o secretário adjunto de Agricultura, Rodolfo Pereira.

Uma parceria com o Ministério do Desenvolvimento Agrário pretende ampliar o número de aldeias produtivas. Segundo a delegada da pasta federal em Roraima, Célia Souza, ainda este ano serão construídas três unidades demonstrativas de produção e conservação de sementes tradicionais da agricultura indígena, no valor de R$ 1,6 milhão. "O nosso objetivo é garantir a segurança alimentar dos índios, a comercialização do excedente e a produção de sementes para atender as 240 comunidades da reserva", diz.

A piscicultura é outra iniciativa que aos poucos se consolida na reserva. No imenso Lago Caracaranã, que antes da demarcação era um dos principais pontos turísticos de Roraima, foram instalados tanques-redes para a criação de tambaqui, um peixe regional muito apreciado. No ano passado, o lago foi reaberto ao público, que pode apreciar a beleza do local durante o dia, ao preço de R$ 5 por pessoa.

As antigas fazendas de arroz irrigado, no entanto, continuam improdutivas e assim devem permanecer. A monocultura em larga escala não está nos planos, segundo a Funai, principalmente pelos altos custos que tal empreendimento exige. A Fazenda Providência, que era ocupada pelo deputado federal Paulo Quartiero, o maior rizicultor do Estado, foi transformada em centro regional, onde os indígenas fazem cursos e treinamentos.

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