JF Diorio/Estadão
JF Diorio/Estadão

Na passeata, a busca de soluções coletivas

Na última semana, movimento pelo transporte despertou a luta por objetivos comuns

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

23 Junho 2013 | 02h15

O Brasil acordou. Essa foi a frase mais ouvida pelo repórter do Estado, em entrevistas com 93 manifestantes na última semana em São Paulo. Depois de duas décadas de silêncio - desde o movimento pela destituição de Fernando Collor, em 1992 -, a classe média saiu às ruas, em busca de soluções coletivas para os problemas que até aqui tentou resolver individualmente, e também votando em políticos e partidos que a desiludiram. Nesse sentido, parece simbólico que o transporte público tenha desencadeado o movimento: nas grandes cidades, tem ficado evidente que, se todos compram carro, o resultado não é a mobilidade.

A relação entre passagens caras e transporte precário ganhou facilmente uma analogia com impostos altos e serviços de saúde, educação e segurança ruins. De longe, a pauta parece extensa e vaga. Para os manifestantes - pessoas de todas as idades, predominantemente com ensino superior ou médio, no caso dos adolescentes -, parece lógica e viável, embora a luta seja longa. "Estou aqui pensando nos meus filhos, daqui a 20 ou 30 anos", disse Victor Monteiro, de 15 anos, que faz o segundo ano do ensino médio. As pessoas ouvidas aleatoriamente pelo Estado não pertencem a partidos, deploram a violência e têm na ponta da língua o que as levou às ruas.

Na primeira grande manifestação, na segunda-feira, que reuniu 65 mil pessoas na zona oeste da cidade, a maioria protestava pela primeira vez, movida pela violência da polícia contra os manifestantes, na semana anterior. Foi quando o movimento cresceu e o governo do Estado aceitou o fato de que as grandes vias seriam ocupadas. Na quarta-feira, no centro, já eram 100 mil; na quinta, na Avenida Paulista, 200 mil.

"Esperei minha vida inteira por esse momento", dizia um cartaz escrito por Fabrício Sakashita, de 32 anos, massagista, formado em Educação Física. Ele explicou que o que esperava era a união das pessoas para lutar por objetivos comuns.

"Eu achava que estava sozinho contra o sistema, mas vi que só estávamos separados", constatou Danilo Cardoso, de 26 anos, que trabalha como auxiliar administrativo, e estuda Administração de Empresas. "A gente conseguiu o que diziam que era impossível - baixar a tarifa. Por que não mudar o País?" Ele desenhou um cartaz com um jovem caracterizado como hippie, em 1968, e o lema "abaixo a ditadura". Ao lado, em 2013, o mesmo homem, agora de terno, trazia uma pauta bem mais extensa: "abaixo a corrupção, a violência, a educação ruim, a saúde precária".

"Tentei resolver meus problemas individualmente e me frustrei", confessou Cristine Xavier, de 52 anos, que trabalha com artes visuais. "Com esse movimento, senti que estava na hora de sair de casa. Sozinho, ninguém faz nada."

"Os problemas sociais sempre me incomodaram, mas uma pessoa sozinha não consegue resolvê-los", constatou Isabela Venceslau, de 18 anos, que faz cursinho preparatório para o vestibular e dá aulas de culinária para crianças e idosos desamparados.

"Agora acredito no meu povo", declarou o publicitário Eduardo Moreira, de 22 anos. Ele mora em São Mateus, zona leste, e leva 1h40 em dois ônibus e um metrô até chegar ao trabalho no Paraíso, zona sul. "Sempre fui indignado com ônibus e metrô cheios. A gente sofre mais no transporte do que trabalhando."

"Nossa indignação ficava muito restrita às redes sociais", observa a advogada Mariana Ferrari, de 28 anos. "Saiam da internet e venham para as ruas", convocou o estilista Maurício Stefano, de 25 anos, que trazia um cartaz com os dizeres: "Estamos apenas começando. Juntos, somos mais fortes." Bruno Shida, de 25 anos, que trabalha com logística, espera que isso seja verdade: "Tomara que não seja fogo de palha." Ele diz que se "inspirou" em seu pai, que lutou contra a ditadura quando era estudante de Economia, e viu colegas desaparecerem. "Vamos ver se falo para meu filho e neto que eu estava lá."

"Eu me surpreendi com esses protestos, porque nossa juventude era muito conformista", disse Giovana Paiva, de 17 anos, que estuda no Colégio Santa Cruz, considerado de elite. Ela anda de ônibus e participou das manifestações desde o início, há duas semanas. "Estou aderindo pela liberdade de manifestação", contou seu pai, Ricardo Paiva, de 53 anos, professor de Biologia no ensino médio, que participou dos protestos contra a ditadura e contra Collor. Como ele, muitos pais acompanham seus filhos nas manifestações.

"Já fiz Diretas e agora estou aqui, contra a corrupção", disse a dona de casa Marilene Borges, de 48 anos, formada em Gastronomia. "A gente conseguiu as eleições. Esses jovens têm de continuar isso." Sua filha de 22 anos, estudante da Escola Politécnica da USP, viu os colegas serem "arrastados pela polícia", e ficou "desesperada". "Ela nunca passou por isso", disse Marilene. "Eu já fugi muito da polícia."

"Vim emocionada pelos meus filhos, pelo idealismo deles, de querer voltar a ser como deveria ter sido quando participei das Diretas-Já", declarou a personal trainer Fernanda Monteiro, de 42 anos, mãe de Victor. "Eu me acomodei e fui aceitando a situação."

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