Twitter/Jair Bolsonaro
Twitter/Jair Bolsonaro

Na ONU, Bolsonaro já é motivo de debate

Referência às propostas do candidato gerou discussão entre ONGs brasileiras e o governo de Michel Temer em Genebra

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2018 | 15h16

GENEBRA - O candidato Jair Bolsonaro (PSL) já é motivo de um debate em plena sede da ONU, em Genebra. Nesta semana, a sociedade civil, governos e empresas negociam nas salas das Nações Unidas um tratado sobre empresas multinacionais e seu papel social e ambiental. Mas, nesta quinta-feira, foi uma referência às propostas de Bolsonaro que acabou gerando um debate entre ONGs brasileiras e o próprio governo de Michel Temer, que insistiu à secretaria das negociações do tratado que o processo eleitoral brasileiro e "acusações políticas" não tinham lugar naquele fórum.

O primeiro a falar foi o secretário-executivo do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), Cleber Buzatto. Ao final de um discurso em que pedia a adoção de critérios humanitários em negócios que envolvam a exportação de commodities agrícolas, ele acabou pedindo a "ajuda internacional" diante das propostas de Bolsonaro.

Com o apoio dos grandes conglomerados empresariais do agronegócio, mineração, financeiro e outras empresas, o candidato da extrema-direita à Presidência do Brasil afirmou que irá por fim a toda forma de ativismo no País", disse Buzatto. "Pedimos o apoio e a solidariedade da comunidade internacional", declarou o ativista, sendo aplaudido por alguns que estavam na sala.

O CIMI se referia a uma declaração assinada por outras 3 mil entidades e que "repudiava" a fala do candidato em relação a ativistas de direitos humanos e pedia um apoio de movimentos pelo mundo.

"Por meio de nota, organizações não-governamentais, coletivos e movimentos sociais nacionais e internacionais repudiaram a afirmação do candidato Jair Bolsonaro de que, se eleito, vai "botar um ponto final em todos os ativismos no Brasil", aponta a declaração, liderada pela Conectas Direitos Humanos.

"Organizações e movimentos são atores estratégicos na contribuição para a formulação de políticas públicas, na elaboração de leis importantes para o País", afirma o documento ao citar leis conquistadas por meio de pressão de organizações ativistas, como as que criminalizam o racismo e a violência contra a mulher. E conclui: "calar a sociedade civil, como anuncia Jair Bolsonaro, é prática recorrente em regimes autoritários. Não podemos aceitar que passe a ser no Brasil."

Mas a fala do CIMI foi rebatido pelo Itamaraty. A embaixadora do Brasil na ONU, Maria Nazareth Farani Azevedo, pediu um direito de resposta diante do discurso do CIMI e fez questão de questionar a referência de Buzatto ao candidato do PSL.

Segundo ela, a referência a Bolsonaro estava desviando a atenção das negociações. "Este não é o momento e nem o local para tratar das instituições brasileiras ou do processo eleitoral", disse a embaixadora. "O Brasil considera que tais declarações desviavam nossa atenção da negociação substantiva de um instrumento internacional sobre empresas e direitos humanos e não contribuem para a compreensão dos assuntos sob consideração".

Para a embaixadora, ao tratar desses outros temas, o tempo para negociação sobre o tratado é desperdiçado. "Gostaria de indicar que o Brasil não é um assunto dessas consultas", disse. Ela ainda pediu que a secretaria das negociações oriente delegações a não usar o tempo de discursos para fazer "acusações políticas de assuntos que não estão no mandato" do grupo negociador.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.