Na Inglaterra, Parlamento tem fiscal externo de gasto

Enquanto deputados federais brasileiros tentam atrelar seus aumentos aos do Supremo Tribunal Federal para evitar desgaste público de se conceder reajustes - esse é um dos dispositivos que constam da PEC aprovada na comissão especial da Câmara -, o Parlamento inglês está sujeito, desde 1910, a uma espécie de agência reguladora dos custos legislativos, a Independent Parliamentary Standards Authority (algo como "Autoridade Independente para Padrões Parlamentares").

GABRIEL MANZANO, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2012 | 03h07

Tendo no comando um "cão de guarda" - como o define a mídia -, o advogado setentão sir Ian Kennedy, um pequeno grupo de cinco consultores decide por conta própria quanto deve ganhar cada um dos 646 integrantes da casa. De quebra, estabelece os limites anuais para os demais gastos - com viagens, assessores e outros custos da atividade pública.

Para tristeza dos políticos, sir Ian é uma figura inatacável. Ficou famoso por reestruturar com sucesso o imenso sistema de saúde britânico. Ele não se assusta com pressões. "Nosso cliente é o contribuinte", avisa. E, mais tristeza ainda, ele não para de divulgar números, detalhes e comparações, com as análises da IPSA a respeito das centenas de notas de gastos que recebe dos políticos.

Tanto rigor não significa que os políticos ingleses estejam a pão e água. Para 2011, a IPSA estabeleceu o salário anual dos parlamentares em £ 65.738 (R$ 18.100 por mês). Em gastos adicionais, podem levar mais £ 144.000 por ano (R$ 38 mil por mês). Em 2013, o xerifão admite um modesto aumento de 1%.

No Brasil, um deputado federal ganha R$ 26.723,13, o que já equivale ao salário de um ministro do Supremo Tribunal Federal, atual teto do funcionalismo público do País. Os aumentos, no entanto, não estão ainda atrelados, como prevê a PEC.

Na Inglaterra, muitos políticos chiaram com a súbita chegada do auditor, pouco mais de um ano atrás. Mas sabem que a culpa é deles. Sir Ian desembarcou no Parlamento após uma enxurrada de escândalos e abusos que deixaram enfurecida a opinião pública do país.

"Ele é hoje um dos homens mais poderosos do país", reconheceu no final de 2011 o The Guardian. "Nosso cliente é o contribuinte", explica sir Ian. Em nome desse cliente, ele não para de criar, para os nobres parlamentares, limites e mais limites sobre os gastos do dia a dia.

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