Na fuga da tragédia, a porta para os haitianos

Por Tabatinga, grupos de 20 a 30 pessoas chegam a Manaus duas vezes por semana

O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h03

Além de transformar o País em sonho de empregos para europeus e asiáticos, que chegam ao Brasil com o status de imigrante, a recuperação da economia nacional atrai também vítimas de tragédias. É o caso dos cidadãos do Haiti, país caribenho devastado em janeiro de 2010 por um terremoto. O volume de haitianos que migram à procura de ajuda humanitária é crescente nos últimos meses. Eles estão em uma categoria especial de migração, a dos refugiados. Embora não estejam enquadrados nas premissas básicas dos refugiados - a da ameaça política, que justifica o pedido legal de refúgio -, os haitianos recebem atenção diferenciada e autorização para trabalhar.

A principal porta de entrada dessa população, que até o primeiro semestre era principalmente de homens jovens, tem sido a fronteira amazônica de Tabatinga, divisa com Peru e Colômbia. E agora estão chegando com mulheres e filhos. De acordo com o secretário nacional de Justiça, Paulo Abrão, a questão dos haitianos é extraordinária.

"O Conselho Nacional já tomou uma deliberação e nós já regularizamos mais de 500 haitianos", explica o secretário. Segundo ele, "a demanda é alta e a capacidade operativa do Estado brasileiro nem sempre está preparada" para o atendimento. "Mas a atitude tomada nos primeiros 500 casos mostra qual tem sido a diretriz. O Brasil tem responsabilidades com a situação do Haiti."

Os haitianos chegam a Manaus duas vezes por semana, em grupos de 20 a 30 pessoas, embarcados em Tabatinga. Do porto, vão direto para a Paróquia São Geraldo, no centro da capital, em busca de ajuda para sobreviver na nova pátria. Nos últimos dias, o fluxo de pedidos de permanência aumentou e o perfil dos viajantes mudou. Os padres já têm mais de 2.500 cadastrados que buscam auxílio de moradia e alimentação e passaram a receber mulheres e crianças.

"Já registramos 480 grupos de 4 ou 5 pessoas", afirma o padre Valdecir Molinari, um dos religiosos que lidam todos os dias com uma diáspora que só cresce nos últimos meses. "A situação está muito difícil", afirmou o religioso, pelo telefone, na quinta-feira, lembrando que as levas de haitianos chegam duas vezes por semana, terças-feiras e sábados, nos barcos que partem de Tabatinga.

Desamparo. "O Haiti é um país bem pobre, e lidei com muita tristeza nos anos que trabalhei lá, mas os que estão aqui estão numa condição bem pior dos que aqueles encontrados lá: estão acuados e deprimidos, tendo de pedir abrigo", conta a religiosa Santina Perin.

A maior parte dos imigrantes chega pelo Peru. Eles alugam casas em Tabatinga, onde permanecem à espera da documentação provisória, válida por 90 dias, concedida pelo governo brasileiro, em processos administrados pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), do Ministério da Justiça.

Precisando de ajuda diária para sobreviver, os haitianos procuram a Igreja. "Distribuímos aqui 160 kg de feijão, 160 kg de açúcar, 600 kg de arroz, 300 kg de macarrão e 160 latas de óleo", explica o padre Valdecir. Segundo a religiosa Arceolídia de Souza, que trabalha com essa comunidade de migrantes, 90% deles são homens na faixa de 24 a 28 anos.

O fluxo em busca de auxílio brasileiro se intensificou no segundo semestre do ano passado, mas agora, um ano depois, é praticamente constante. A média de entrada, no mês de outubro, foi de 9 haitianos por dia. Em setembro eram 7,5 por dia e em agosto, 6,8.

O número de atendimentos no posto brasileiro de fronteira em 2010 foi de 456 haitianos. A procura pelo menos quadruplicou em 2011. Até o dia 11, 1.605 pessoas pediram documentos e há uma lista de 685 à espera de atendimento na fronteira. / PABLO PEREIRA

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