Na fase final do 'serviço', nem vaga para estacionar

Relatório de 1986 revela um SNI composto de aposentados, onde se brigava por plano de saúde e salário-refeição

BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

11 de março de 2012 | 03h05

Um relatório da Divisão de Psicologia da Escola Nacional de Informações (EsNI) encaminhado em 11 de novembro de 1986 - quatro dias antes da eleição da Assembleia Constituinte - ao ministro-chefe do SNI, general Ivan de Souza Mendes, descreve sinais da crise que corroía a instituição. Elaborado por psicólogos que visitaram agências regionais do Serviço, o texto mostra que o órgão já sofria os problemas que atingiam outras áreas do governo Sarney, como falta de dinheiro e saída de funcionários. Alguns documentos perderam páginas ou são fotocópias com partes cobertas por papel, para ocultar informações. Tudo foi transferido pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para o Arquivo Nacional em 2005.

Curiosamente, os especialistas apontam nos seus servidores um "clima acentuado de insatisfação", "em grande parte decorrente dos baixos salários". "A evasão de servidores qualificados é significativa, bem como a perspectiva de novas evasões, face ao mercado estar oferecendo empregos com melhores salários", diz o texto.

"Na Agência São Paulo a evasão é crítica", advertiam os autores, "principalmente na área de Operações, pois as grandes empresas estão recrutando agentes formados pela EsNI para criar seus serviços de segurança."

Segundo os chefes do SNI, "a reposição de pessoal qualificado torna-se difícil, quer seja pelos baixos salários oferecidos pelo Serviço, quer seja pela falta de interesse em ingressar num órgão de informações". Para preencher as vagas abertas eram recrutados aposentados e requisitados, o que contribuía para a "admissão de servidores de faixa etária elevada". Ou seja, pouco antes de ser extinto por Fernando Collor em 1990, ele era um órgão em crise de pessoal e verbas.

O historiador Carlos Fico, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, explica que o Serviço foi atingido pela crise geral acentuada após a decretação da moratória da dívida externa, em fevereiro de1987. Mas alerta contra avaliações de que estivesse decadente: "É preciso cuidado com essa palavra. O SNI era um órgão superpoderoso. Tinha agentes que falavam diversos idiomas e operava equipamentos sofisticados. E municiava o presidente com informações estratégicas."

Outro documento, o sumário de um texto de encaminhado em 1989 pelo chefe da Agência São Paulo, com partes censuradas, expõe problemas que vão da falta de vagas para estacionamento às crescentes dificuldades de pessoal. De acordo com o relatório, "a situação da maioria dos servidores da ASP é de perplexidade". Acrescenta ainda que os outros órgãos de informações das Forças Armadas não mais colaboravam com o Serviço.

Em setembro de 1988, em ofício enviado à Agência Central, o chefe da ASP, Arnaldo Bastos Braga, apresenta reivindicações trabalhistas dos funcionários: concessão de auxílio-moradia, pagamento de periculosidade, planos de saúde médica e odontológica e reajuste do vale-refeição. Outro relatório aponta problemas como "equipamento em estado precário e bastante antiquado", "efetivo reduzido", "material em quantidade insuficiente".

Por fim, um relatório de 1989 fala em "perda de qualidade operacional dos agentes da DV-3" e outro texto recomenda a mudança na sistemática da divulgação de normas e ordens, visto que "o baixo nível de escolaridade de alguns dificulta, também, o entendimento". / W. T.

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