Valéria Gonçalvez/ Estadão
Valéria Gonçalvez/ Estadão

Na eleição das máscaras e do álcool em gel, termômetro apontado para testa vira motivo de discussão

Mas qual o motivo de tantas pessoas não permitirem a aferição com o termômetro apontado para a testa? A resposta é: por culpa de uma fake news

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 17h40

Às 7h da manhã, uma fila considerável já estava formada na frente do colégio Santa Cruz, no Alto de Pinheiros – um dos bairros com maior concentração de idosos segundo dados da Fundação Seade. Minutos antes da abertura dos portões, as pessoas já mostravam a preocupação com as normas e protocolos. “Tenho álcool em gel e trouxe minha própria caneta”, disse o engenheiro Edson Elias, 65 anos. Além dos itens básicos, não faltou quem decidisse pelo uso de luvas. “Você vai apertar um botão que foi usado por milhares de pessoas. Luva deveria ser obrigatório”, comentou Ivone de Arruda, 69, anos. 

Embora o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) não tenha adotado a medição de temperatura como protocolo obrigatório, quem votou no colégio Santa Cruz passava por uma aferição antes de ingressar nas seções eleitorais. O problema é que alguns eleitores, simplesmente, se recusavam a ter o termômetro apontado para a testa. 

“Eu me senti constrangida. Não quero o termômetro na testa. Vão me obrigar a isso? Minha obrigação é votar”, reclamou uma eleitora que pediu para não ser identificada. “Onde está escrito que isso é obrigatório ? Onde?”, perguntava outro eleitor. 

Via de regra, quem não queria saber de termômetro na testa oferecia o pulso para a aferição. Até o momento em que a reportagem permaneceu na entrada da escola, a medição pelo pulso não estava sendo aceita. Para justificar a negativa, os responsáveis mostravam um comunicado da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que informava ser a “região da testa” a mais recomendável para uma aferição precisa da temperatura corporal. Para resolver o impasse, o eleitor era convidado a usar um termômetro à moda antiga (embaixo do braço). 

Mas qual o motivo de tantas pessoas não permitirem a aferição com o termômetro apontado para a testa? 

A resposta é: por culpa de uma fake news. Nos meses que antecederam o pleito, uma fake news bastante difundida dizia que termômetros infravermelhos seriam prejudiciais aos seres humanos, em especial à região da glândula Pineal – que tem a função de produção e regulação de hormônios. A desinformação circulou tanto que a própria Anvisa precisou publicar um comunicado desmentindo a história.

A infectologista Raquel Stucchi afirmou que o “temor do ‘termômetro na testa’ não tem cabimento” é que “essa já foi uma fake news desmentida há muito tempo”. Ainda assim, a infectologista pondera que “se a medição não foi uma obrigação imposta pelo TSE, a exigência da escola criou uma dificuldade desnecessária aos eleitores.”

Outros colégios tradicionais, como o Dante Alighieri, na região da Paulista, não promoveram ações para a aferição de temperatura. Na escola, a oferta de álcool em gel e a política de distanciamento foram suficientes. Nas seções eleitorais, apenas um eleitor permanecia na sala. “Me senti super segura. Votei praticamente sozinha e em um lugar arejado. Não me senti em perigo”, comentou a aposentada Maria Inês Santo, 62 anos. A única pequena aglomeração foi produzida por apoiadores e jornalistas durante o voto do candidato Andrea Matarazzo (PSD).

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O clima eleitoral de eleições passadas não se repetiu na maioria das regiões da cidade. Foi raro ver algum apoiador com bandeiras ou propaganda de candidatos. A impressão de “um domingo como outro qualquer durante a pandemia” foi compartilhada entre muitos eleitores. Mesmo as máscaras com nome e número de candidatos foram artigos raros de se ver neste domingo. 

Outra tradição parece ter perdido força esse ano. Desta vez, quase não se viu crianças em zonas eleitorais e, muito menos, dentro das cabines, na hora do voto.

Foi na zona leste que a reportagem encontrou algum resquício de eleição à moda antiga. Nas imediações da EMEF Luís Washington Vita, a reportagem encontrou cabos eleitorais fazendo boca de urna e muitos, muitos mesmo, santinhos de candidatos espalhados pelo chão. Além disso, alguns eleitores chegavam até a entrada da escola sem máscara – colocando-a apenas para entrar na unidade de ensino. “Essa eleição foi tão desanimada e estranha que ver um santinho no chão foi até emocionante”, brincou o eleitor Francisco Bastos, 49 anos.

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