Na curva

O tom com que a presidente Dilma Rousseff rechaçou a interferência de partidos em seu governo na entrevista de balanço do ano dada na sexta-feira passada, não foi bem visto entre seus parceiros de aliança.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2011 | 03h05

Dilma não disse nada demais quando se anunciou disposta a exigir "cada vez mais critérios de governança" para o preenchimento de cargos nem sinalizou concretamente mudança de rumo no funcionamento da coalizão ao afirmar que não permitirá a interferência de "nenhum partido político" em seu governo.

Os integrantes da aliança não se consideraram enquadrados, pois se escoram na distância existente entre o querer e o poder, o falar e o fazer. Portanto, a contrariedade não foi exatamente com as palavras, mas com o modo e o objetivo com que foram ditas.

Excetuado o PT, os partidos aliados enxergaram na atitude de Dilma um jogo para a plateia. Respondeu a perguntas dizendo apenas o que se esperava que dissesse.

Tal seria se resolvesse afirmar o contrário. Fosse Lula, até diria algo parecido em defesa de seu direito de fazer e acontecer, mas Dilma não pode tanto quanto o antecessor e, além do mais, faz publicamente outro tipo.

Até aí, zero problema. A questão dos aliados é o tom de menosprezo, é a ideia de que a presidente posa de Tiradentes com o pescoço alheio. Marca uma boa imagem acentuando a má receptividade dos políticos, construída, diga-se, pelas próprias mãos de suas excelências.

Uma ressalva: se culpa a presidente tem nesse cartório, é apenas de tirar proveito de uma rejeição real, e fundamentada, mas ao mesmo tempo nada fazer para alterar a atual lógica das relações com os aliados e ainda recorrer a eles quando é do interesse do governo.

É nesse ponto que se concentram as reclamações. Em público ninguém se queixa nem vai se queixar enquanto a popularidade da presidente estiver em alta.

Em particular, porém, o pote vai se enchendo de mágoa. O dito é que lá na frente, quando a eleição presidencial vier, e se porventura a maré de aprovação virar, o governo vai precisar da ajuda de todos os partidos. Nesse momento, pode não encontrá-los mais tão amáveis e disponíveis.

Tudo vai depender, dizem, de dois fatores: o rumo da economia e a influência de Lula na armação político-partidária para a eleição de 2014.

Os políticos - aí incluídos petistas - não se cansam de lembrar que são devedores de Lula, mas de Dilma são credores. Pela eleição de 2010.

O raciocínio é o seguinte: todos nadaram nas águas da popularidade do ex-presidente, beneficiaram-se dela. Mas Dilma foi quem se beneficiou da ampla aliança que lhe assegurou vantagens, como tempo de televisão, e impediu que a oposição pudesse contar com elas.

Como precisou deles lá, pode vir a precisar adiante quando, então, sempre poderão dizer que conheceram Dilma no poder e não gostaram.

Algo se move. O PSDB apanha dia sim outro também por causa de seu modo de fazer auto-oposição enquanto deixa de lado a tarefa de se opor ao governo que lhe foi delegada pelos 44 milhões de votos dados ao partido na eleição presidencial.

A crítica é, como algumas obras, baseada em fatos reais. Imprensa, eleitores, correligionários e até dirigentes tucanos concordam que o PSDB é um barco a vagar.

Mas, alguma coisa começa a se mexer dentro do partido. Há sinais de vida.

São eles o avanço da proposta de realização das prévias para escolha do candidato à Prefeitura de São Paulo e a mobilização da ala jovem tucana, em encontro nacional, a exigir prévias também para as próximas presidenciais e cobrar da cúpula que só seja dada legenda para candidatos ficha-limpa.

Foi ali. O presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais, Olavo Machado, sexta-feira pediu para "pensar um pouquinho" antes de responder sobre as palestras que o ministro Fernando Pimentel alega ter feito para a Fiemg, das quais não há registro.

Pelo jeito, o alegado contratante pensou e achou melhor nada falar.

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