Na cabeça de Marina, a gênese do plano C

Foram 32 horas de reuniões e conversas: ideia de aderir ao PSB de Campos partiu da ex-ministra

ISADORA PERON, PEDRO VENCESLAU , O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h10

Assim que a presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Cármen Lúcia, proferiu no dia 3 o voto que sepultou o sonho da Rede Sustentabilidade de disputar as eleições de 2014, Marina Silva e seus aliados se abraçaram e choraram. Ninguém sabia o que fazer. Não havia plano B.

Na saída do tribunal, Marina orientou seu grupo a ir ao apartamento de uma amiga. Começou então a contagem regressiva das 32 horas que culminaram no mais surpreendente lance do processo eleitoral de 2014. Até agora.

Por volta das 23h, um grupo de 40 pessoas começou um tenso e longo debate. Marina mais ouviu do que falou. Os "sonháticos" foram intransigentes com a hipótese de Marina se filiar a uma sigla só para disputar o Planalto. Quando essa posição se mostrou majoritária, um irritado Alfredo Sirkis (RJ) deixou a reunião. Ele defendia a filiação a um partido. Ninguém nem sequer havia mencionado a opção PSB.

Às 3h de sexta-feira, Marina decidiu dispersar o grupo. Pediu que só ficassem parentes, assessores e o núcleo político da Rede. Segundo relatos de presentes, foi a esse público reservado de 15 pessoas que ela fez a intervenção surpreendente: "Está na hora de tomar uma decisão. Nós já temos o plano A. O registro da Rede é questão de tempo. Quero propor o plano C, C de Campos". Perplexidade geral.

Naquele momento, Marina não sabia ao certo quais seriam as consequências e a viabilidade da eventual aproximação, mas bancou solitariamente a proposta. Os presentes se dividiram entre o entusiasmo e o ceticismo. Terminada a reunião, o deputado Walter Feldman foi escalado para prospectar a ideia com políticos do PSB.

Depois de dormir duas horas, Feldman entrou em contato com o deputado Márcio França, presidente da sigla em São Paulo. O líder do PSB na Câmara, Beto Albuquerque (RS), foi o segundo procurado. Ambos deram o aval para o prosseguimento das conversas. A articulação só evoluiu, porém, quando o líder do PSB no Senado, Rodrigo Rollemberg (DF), ligou para Marina para prestar solidariedade e foi surpreendido pela notícia. Ficou combinado que ele e Feldman almoçariam juntos e ligariam para Campos. Por volta das 15h, o governador ouviu pela primeira vez, por telefone, a proposta da Rede. Campos se entusiasmou, mas disse que não poderia ir a Brasília naquela noite. Também deixou claro que não abriria mão de sua candidatura e sondou se não haveria constrangimentos numa conversa com Marina. "Eduardo, você precisa vir. Marina quer muito falar com você. Tem que ser agora, já. Não se preocupe, não vamos colocar nada que seja difícil para você. Podemos fazer um momento histórico", teria dito o interlocutor da Rede. O governador então concordou e disse que só chegaria a Brasília às 19h30. Em seguida, ligou para a deputada Luiza Erundina (SP) e pediu que fosse a Brasília. A parlamentar estava na Paraíba.

Ao mesmo tempo, dirigentes do PPS foram informados de que Marina gostaria de recebê-los na manhã de sábado. O vereador Raul Jungmann deixou Recife com a roupa do corpo. E o vereador paulistano Ricardo Young, aliado de Marina, embarcou com a missão de representar o PPS. A movimentação despertou forte rumores de que esse seria o destino dos "marineiros".

Enquanto Campos não chegava, Marina convocou uma entrevista. Com duas horas de atraso, disse que não havia definição.

Eram 19h45 quando Campos aterrissou em Brasília sob chuva torrencial. Quinze minutos depois, ele e Marina se encontraram no apartamento de uma assessora de Feldman, para despistar os jornalistas. Até então, não tinha ficado claro para o governador o plano C de Marina. "Queremos uma coligação. Queremos a Rede dentro do PSB. Se você concordar com nossas propostas, nos filiamos e apoiamos sua candidatura", disse Marina. Campos não acreditava no que ouvia. Colocou as mãos na cabeça: "Meu Deus do céu... É claro que estamos juntos". "Vai mexer com o Brasil", profetizou Marina.

Às 23h de sexta-feira, Marina informava ao resto da Rede a decisão já tomada. Às 9h de sábado, comunicou à cúpula do PPS que iria para o PSB. Enquanto isso, Campos e Beto Albuquerque faziam uma caminhada de 4 km em um parque da capital para aliviar a tensão. "Nenhum de nós dormiu", conta o deputado. Marina e Campos se reuniram novamente antes de anunciarem o acordo, às 16h30. A ex-ministra fez questão de esperar por Erundina, que se atrasou, para abonar sua ficha. As urnas em 2014 não podem exibir o nome da Rede. O de Marina, sim.

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