EFE
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Na Bahia, Dilma ataca oposição, pede proteção ao Senhor do Bonfim e se diz 'meio pardinha'

Presidente aproveita falas de FHC para tentar semear rejeição à candidatura de Aécio Neves - o Nordeste foi responsável pelas maiores vantagens da petista sobre os adversários no primeiro turno

Tiago Décimo, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2014 | 17h20

SALVADOR - A agenda não condizia com o semblante cansado e a voz rouca, mas a presidente e candidata à reeleição Dilma Rousseff (PT) cumpriu pelo menos a maior parte da programação prevista para a visita a Salvador, na manhã desta quinta-feira, 9.

Ela não fez a caminhada de um quilômetro entre o Largo de Roma, na Cidade Baixa, e a Colina Sagrada, onde fica a famosa Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, sob o sol do meio-dia, como estava previsto. Por outro lado, deu entrevista a rádios locais, participou de um encontro com prefeitos e lideranças petistas na Bahia, acompanhou uma celebração na Igreja do Bonfim e visitou o Santuário de Irmã Dulce. Depois, ainda embarcou para compromissos em Sergipe e Alagoas.


Em todos os eventos na capital baiana, dominaram a pauta as declarações do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) - que, em entrevista ao portal UOL, disse que o PT cresce com os votos "dos menos informados", de eleitores "dos grotões" do Brasil. A fala virou combustível para o já bastante utilizado discurso antielitista da campanha de Dilma.

A presidente aproveitou as falas de FHC para tentar semear, na região, a rejeição à candidatura de seu do adversário, Aécio Neves (PSDB) - o Nordeste foi responsável pelas maiores vantagens de Dilma sobre os adversários no primeiro turno. "É muito grave quando querem atribuir minha votação, meu primeiro lugar nas eleições, porque as pessoas não são qualificadas, porque não são informadas, porque não sabem o que estão fazendo, essa é uma conversa velha", rebateu Dilma, em discurso para prefeitos e lideranças do partido na Bahia. 

"Eu não só agradeço como respeito profundamente esses cidadãos e cidadãs que votaram em mim", comentou. "Esse voto me orgulha. Tenho muito orgulho do projeto que represento. Eles nunca tiveram um projeto para o Nordeste, nunca olharam para cá. Deixaram esta região anos a fio sem investimentos, usaram e abusaram da indústria da seca."

A presidente também aproveitou para tentar desqualificar o ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga - já apontado pelo candidato tucano Aécio Neves como seu ministro da Fazenda, caso eleito -, em um tema sensível à população nordestina: o salário mínimo. 

"Uma coisa muito grave é quando eles implicam com o salário mínimo - e implicar com o salário mínimo é a maior característica desse senhor que foi presidente do Banco Central e agora aparece como um eventual futuro ministro da Fazenda, mas que não vai ser", disse Dilma. "Eles acham que, para resolver os problemas do Brasil, têm de diminuir o salário mínimo, dizem que o salário mínimo está recessivo. Isso é um escândalo. Essa é a típica proposta que fez com que este país quebrasse três vezes."

Preconceito e medo. Indiretamente, Dilma também tentou qualificar as declarações de FHC como preconceituosas. "Nosso país é continental e uma de suas maiores forças é sua diversidade", afirmou. "Somos uma sociedade diferente das outras, somos índios, negros, brancos, somos uma sociedade multicultural, um povo vocacionado para ter menos preconceito. Somos uma nação respeitosa, tolerante, que detesta discriminação." 

Pouco antes, em entrevista a rádios de Salvador, a presidente havia se declarado "meio pardinha", ao pedir uma vaga na percussão do Olodum, mais conhecido bloco afro de Salvador. "Já falei que, quando deixar de ser presidente, vou pedir um espaçozinho para tocar lá", brincou.

O governador baiano, Jaques Wagner (PT), fez coro às declarações da presidente e disse estar "com medo" da "destilaria de ódio" que a oposição estaria promovendo na campanha. "Estou com medo, porque este país é respeitado lá fora por não ter briga religiosa, não ter briga regional, não ter brigas internas como a gente vê em outros países e eu me preocupo muito quando alguém, no desespero para ganhar uma eleição, tenta destruir o valor da paz interna deste país", alegou. 

"Primeiro, destilaram ódio contra o meu partido, agora, transferiram o ódio para os nordestinos, querendo dizer que quem vota no PT é mal informado", disse. "No tempo deles, (o nordestino) era mal informado, porque aqui, hoje, tem universidades e escolas técnicas. Qual será o próximo objeto do ódio deles? Acho que, antes de tudo, temos de preservar a democracia. Não vale tudo em uma eleição." 

Carona para eleitor. Wagner se comprometeu a ajudar para que Dilma tenha 4 milhões de votos de vantagem sobre Aécio na Bahia, Estado que tem 10 milhões de eleitores cadastrados. "Em 2010, a Bahia deu 2,8 milhões de votos de vantagem para Dilma, a maior frente para o adversário no Brasil. Este ano vamos trabalhar para ter 4 milhões de vantagem, e isso é possível", discursou. "Dos 417 municípios do Estado, a presidente já venceu o primeiro turno em 416. Vou lá ao único município que ela não venceu na semana que vem porque eu quero que ela ganhe em todos os municípios." A cidade baiana que deu vitória a Aécio Neves no último dia 5 foi Buerarema, de 20 mil habitantes, no sul do Estado.

Para chegar ao objetivo, o governador eleito Rui Costa (PT) também instruiu as lideranças regionais a "registrar mais carros" para levar eleitores às zonas de votação e, assim, tentar "diminuir as abstenções" no segundo turno - que chegou a 23,2% no primeiro turno. "Naqueles (municípios) onde não dá mais para aumentar o porcentual (obtido por Dilma no primeiro turno), vamos diminuir a abstenção, vamos registrar mais carros junto à Justiça Eleitoral para facilitar a ida do povo para votar", explicou.

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