Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Municípios agrícolas elegem prefeitos ligados ao campo

Apoio de lideranças como Blairo Maggi (PP), no entanto, não foi decisivo

Clarice Couto, Camila Turtelli, José Roberto Gomes, Letícia Pakulski e Tania Rabello, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2016 | 17h55

SÃO PAULO -  Municípios brasileiros com forte vocação agrícola elegeram neste domingo candidatos com trajetória ligada ao agronegócio, muitos deles pertencentes a partidos da base aliada do governo federal, o que pode vir a facilitar o diálogo e a apresentação de demandas relacionadas ao campo. O apoio de lideranças do setor, no entanto, não necessariamente se converteu em vitória.

Foi o que aconteceu em Sorriso, município de Mato Grosso que lidera a produção de grãos no País. Lá, o apoio do atual ministro da Agricultura, Blairo Maggi (PP), não se refletiu nas urnas. O vencedor foi o produtor Ari Lafin (PSDB), com 54,14% dos votos, enquanto Maggi apoiou o atual prefeito do município, Dilceu Rossato (PSB), que ficou em segundo lugar, com 45,23%. Em Sinop, quem recebeu o apoio do ministro foi Dalton Martini (PP), terceiro colocado na disputa, com 26,48% dos votos. A vencedora foi Rosana Martinelli (PR), vice do atual prefeito, Juarez Costa (PMDB), eleita com 39,55% dos votos. Natural de Palotina (PR), Rosana se mudou para Sinop com os pais agricultores quando ainda era criança e, mesmo após ter entrado para a política, manteve atuação no setor, sendo secretária da Associação dos Criadores do Norte de Mato Grosso (Acrinorte).

Outros importantes municípios do Estado que também elegeram candidatos ligados à agropecuária foram Nova Mutum, cujo vencedor foi o produtor Adriano Pivetta, atual prefeito e reeleito com 100% dos votos válidos por não ter tido adversários na disputa. Em Lucas do Rio Verde, o gaúcho de Campinas do Sul, produtor e empresário Fiori Binotti (PSD) derrotou o atual prefeito do município, Otaviano Pivetta (PSB), por apenas 242 votos (14.408 votos no total). Binotti controla a Binotti Armazéns Gerais (grãos e sementes), localizada no km 709 da BR-163, e contava com o apoio do vice-governador Carlos Favaro (PSD). Pelos dados oficiais do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE/MT), contudo, Binotti recebeu 100% dos votos válidos, após o órgão ter cassado, no sábado (1), o registro da candidatura à reeleição de Pivetta. Condenado em 2012 por irregularidades na compra de um veículo para servir como unidade móvel de saúde, Pivetta teve o nome incluído em uma lista de 206 políticos do Estado considerados inelegíveis pelo Tribunal de Contas da União (TCU).

Exceção entre os grandes municípios agrícolas mato-grossenses, Rondonópolis elegeu um candidato sem ligação com o agronegócio, Zé Carlos do Pátio (SD - Solidariedade), que recebeu 36,22% dos votos válidos. Formado em Engenharia Civil, Matemática e Inglês, é oficial do Exército Brasileiro e também professor da Universidade Estadual de Mato Grosso (Unemat).

MS. Em Mato Grosso do Sul, candidatos com ligações com o agronegócio também conquistaram as prefeituras dos municípios de Dourados e Três Lagoas. No primeiro, a vereadora Délia Razuk (PR) venceu com 39,82% o deputado federal Geraldo Resende (PSDB), que recebeu 36,96% dos votos. A trajetória de Délia não tem ligação direta com o setor, mas seu vice, Marisvaldo Zeuli (PPS), já foi presidente do Sindicato Rural de Dourados duas vezes, vice-presidente da Comissão de Assuntos Fundiários da OAB e hoje é suplente do Conselho fiscal do Senar MS (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural de Mato Grosso do Sul). Em Três Lagoas venceu Angelo Guerreiro (PSDB), com 59,11%, filho de agricultores e que trabalhou, antes de ingressar na política, como proprietário de uma selaria (fabricante de selas e artigos para montaria).

No município de Rio Verde, em Goiás, o candidato Paulo do Vale (PMDB), ex-secretário de saúde na gestão do atual prefeito Juraci Martins (PPS), venceu a disputa com 49,33% dos votos com o apoio do senador Ronaldo Caiado (DEM), de família de produtores rurais e ex-presidente da União Democrática Ruralista. O segundo colocado foi Heuler (PSD), que recebeu 27,76% dos votos válidos.

Além do Centro-Oeste. Fora do Centro-Oeste, eleitores de municípios com vocação agrícola também deram preferência a candidatos ligados ao setor e integrantes da base aliada do governo federal. No Estado de São Paulo, ao menos dois presidentes licenciados de sindicatos rurais foram eleitos ontem para cargos executivos. O produtor rural e agrônomo José Eduardo Coscrato Lélis, que dirigia o Sindicato Rural de Guaíra (SP) e era diretor da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), foi eleito prefeito do município paulista pelo PSDB com 13.640 votos, ou 63,65% dos válidos. Já o citricultor e empresário Frauzo Sanches (PV) é o vice-prefeito eleito de Ibitinga (SP). Ele foi presidente do sindicato local e compôs a chapa de Cristina Arantes (PSB), a primeira prefeita eleita na história do município da região de Araraquara (SP). Ela obteve 17.127 votos, 57,88% dos válidos.

No Pará, São Félix do Xingu escolheu a pecuarista Minervina Maria de Barros Silva (PDT), que recebeu 62,12% dos votos no município. Na Bahia, os eleitores do município Luís Eduardo Magalhães escolheram Oziel Oliveira (PDT), que já foi prefeito de LEM em outras ocasiões e diretor da Agência Estadual de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab) antes de concorrer à prefeitura. Nos municípios de Uberlândia e Uberaba, em Minas Gerais, que têm forte atuação não somente na produção de grãos como também na pecuária, não foi diferente. Uberaba reelegeu o engenheiro agrônomo, produtor rural e pesquisador Paulo Piau (PMDB), com 55,30% dos votos. Em Uberlândia, venceu Odelmo Leão (PP), ex-presidente do Sindicato Rural de Uberlândia e ex-secretário de Estado de Agricultura na gestão de Aécio Neves como governador, entre 2003 e 2004. Leão recebeu 72,05% dos votos.

Sul na contramão. Já no Paraná, tradicionais municípios agrícolas escolheram candidatos a prefeitura sem ligação com o setor agropecuário. Em Maringá, o engenheiro civil Silvio Barros (PP) recebeu 39,69% dos votos válidos e disputará o segundo turno com o advogado Ulisses Maia (PDT), que conquistou 28,87% dos votos. Barros foi prefeito de 2004 a 2012 e Maia é ex-presidente da Câmara de Maringá. Em Ponta Grossa, os dois candidatos que disputarão o segundo turno não têm relações estreitas com o agronegócio. O atual prefeito Marcelo Rangel (PPS) angariou 47,68% dos votos no primeiro turno e disputará o segundo turno com Aliel Machado, da Rede, que conquistou 28,15% dos votos. Rangel é radialista e foi deputado federal entre 2007 e 2012. Machado tem apenas 27 anos, foi vereador entre 2012 e 2014 e trocou o PCdoB pela Rede em 2015.

Em Guarapuava (PR), o atual prefeito e advogado Cesar Silvestri Filho (PPS), da base de Temer, se reelegeu com 60,07% dos votos. Seu vice é o ex-secretário de Agricultura do município, Itacir Vezzaro (PDT) (que não é da base aliada do governo) e conhecido por sua atuação na Emater. Os dois receberam no fim do mês passado uma carta de reivindicações do agronegócio guarapuavano, dentre elas a manutenção e recuperação das estradas rurais.

Em Santa Catarina, a cidade de Chapecó, que se destaca pela produção suínos e aves, também reelegeu um candidato sem vínculos com o agronegócio. Luciano Buligon (PSB), que conquistou 61,74% dos votos válidos, é formado em Direito pela Universidade da Região da Campanha e pós-graduado em direito constitucional pela Faculdade Exponencial. Já foi procurador das Câmaras de Vereadores de Chapecó, Quilombo e Cordilheira Alta. Seu vice é o empresário Élio Cella, também sem vínculos com o agronegócio. 

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