MST lança barco ao mar e disputa regata no NE

Movimento concorre com dez jangadas numa competição em junho, em praia de Maceió

LEONENCIO NOSSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2012 | 03h05

Atrofiado no meio rural pelos nove anos de governo petista, o Movimento dos Sem Terra (MST) expõe a bandeira até nas jangadas do Ceará para se manter no jogo político. Entre 29 de junho e 1.º de julho, o MST organizará, com pescadores da praia do Maceió, em Itapipoca, a 198 quilômetros de Fortaleza, uma regata de paquetes - uma pequena jangada de tábuas -, num protesto contra a especulação imobiliária no litoral nordestino.

É a segunda vez que o MST e a Associação dos Cultivadores e Cultivadoras de Alga do Maceió (Acalma) organizam a regata, que deve atrair, segundo os organizadores, quatro mil visitantes. No ano passado, concorreram 104 paquetes - dez deles com a vela nas cores vermelha, branca e verde do MST. A previsão é que, neste ano, 140 paquetes participem da competição, orçada em R$ 20 mil. O Banco do Nordeste, uma autarquia federal, repassou R$ 4 mil, no ano passado, para a regata.

Flávio Barbosa, dirigente do MST do Ceará, lembra que o movimento começou a atuar no Nordeste em 1989, partindo do Sertão Central. Desde 1996 ele trabalha com as comunidades pesqueiras de Itapipoca, onde a agricultura familiar é forte até na área litorânea.

"Não é só o MST que está no litoral, mas o capital nacional, as empresas de fora e as eólicas, que ameaçam as comunidades tradicionais", diz ele. "A direção nacional (do MST) não entendeu que tinha de ir para onde estavam os pescadores. Havia uma demanda de pescadores para se defender do turismo predatório."

Disputa. Por trás da parceria entre MST e jangadeiros cearenses há uma disputa jurídica que vem de 1986, quando o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) desapropriou 5 alqueires de terra para cerca de 3,5 mil famílias de pescadores e pequenos agricultores. As dunas entre a área desapropriada e o mar ficaram sob domínio da União.

O português naturalizado brasileiro Antônio de Jesus Trindade, adquiriu a faixa de terra entre o assentamento e o mar. A partir daí, começou uma disputa entre ele e os pescadores, que esquentou porque seus herdeiros - ele morreu no ano passado - querem agora construir uma pousada na área.

O pescador Francisco Gaspar, dirigente da Acalma, afirma que a parceria com os sem-terra ajudou na disputa com os herdeiros.: "Agora, temos vários advogados de graça".

"O MST pode fazer o que quiser. Só acho que tem aproveitamento político", defende-se Rodolphe Gaspar, filho de Antonio de Jesus. "Nossa intenção nunca foi colocar prédio na praia. Eu e meu pai sempre abominamos isso. Queríamos que as pessoas pudessem aproveitar o lugar, uma parceria com a comunidade".

Ele diz que, por enquanto, não pretende tocar a obra. A área, de 500 hectares, foi transformada em duas reservas particulares do patrimônio natural.

O prefeito de Itapipoca, o tucano João Barroso, defende o projeto do empresário na praia, mas não quer briga com o MST. "O projeto iria trazer emprego para o município. E eu não sou contra a comunidade, porque é importante que ela não seja prejudicada. Aqui, o MST é tranquilo", afirma. "Cada um fica até o limite de seu espaço."

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