Movimento negro defende secretaria sob novo comando

Luiza Bairros, da Igualdade Racial, perde apoio de ativistas da área, que criticam falta de diálogo e rompimento com gestão passada

ROLDÃO ARRUDA, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2011 | 03h06

A presidente Dilma Rousseff enfrentará reações no movimento negro se forem confirmadas as informações de que pretende extinguir a Secretaria de Políticas da Promoção da Igualdade Racial (Seppir). Militantes de todas as tendências consideram a proposta um retrocesso político. Por outro lado, a presidente ganhará aplausos se, além de manter a secretaria, trocar a atual titular. No movimento negro e até em alguns setores do PT, é cada vez maior o descontentamento com a atuação de Luiza Bairros.

Na avaliação dos críticos da ministra, ela mostra pouca disposição para o diálogo com organizações sociais e ignora demandas petistas. Até circula em Brasília o comentário de que ela nem faz parte da cota do PT na Esplanada dos Ministérios. Na verdade, integraria a cota do governador baiano Jaques Wagner (PT), que, saiu das eleições de 2010 com cacife para indicar dois ministros: Luiza e Afonso Florence (Desenvolvimento Agrário).

Curiosamente, os dois frequentam todas as listas de apostas sobre nomes passíveis de serem substituídos por Dilma na esperada reforma ministerial em janeiro.

Além da indisposição para o diálogo, vista como falta de habilidade política, Bairros é criticada pelo fraco desempenho da Seppir. Desde que assumiu, há mais de dez meses, o feito de maior repercussão da gestão foi uma polêmica com a Caixa Econômica Federal, por causa de um comercial de TV no qual Machado de Assis apareceu mais branco do que era na realidade.

Não houve quem discordasse da reação, mas surgiram críticas à forma pouco diplomática como foi tratada a polêmica entre dois órgãos federais. A questão poderia ter sido resolvida de forma mais discreta, especialmente porque a Caixa é uma tradicional patrocinadora de campanhas em defesa da igualdade racial.

Mal-estar. O descontentamento com Luiza começou logo após sua posse, com a decisão de promover uma ampla mudança no quadro de funcionários da pasta, deixando claro que sua gestão não seria uma simples continuidade da anterior. O mal-estar aumentou quando apresentou à Secretaria de Comunicação da Presidência a ideia de uma campanha com o seguinte mote: Igualdade Racial, Agora É Pra Valer.

Houve quem achasse que estava avançando demais na demarcação de governos, após toda a campanha de Dilma ter defendido a ideia de que seria um governo de continuidade. No final a campanha acabou entrando em cena com o título amaciado para: Igualdade Racial É Pra Valer.

As divergências ficaram restritas ao âmbito dos gabinetes até dias atrás, quando o presidente da Federação Nacional da Tradição e Cultura Afro-brasileira, Walmir Damasceno, manifestou ao líder da bancada do PT na Câmara, Paulo Teixeira (SP), seu descontentamento com Luiza. Na mesma ocasião, ele pediu ao petista que sugerisse a Dilma a destituição da ministra na esperada reforma de janeiro.

Na avaliação de Damasceno, a ministra só ouve alguns poucos assessores - na maioria, ligados a ONGs com as quais ela trabalhava na Bahia antes de ser indicada para o ministério. "Ela precisa ser mais republicana", diz.

Luiza também é criticada por setores do PT. "A ministra age como se a secretaria tivesse começado com ela. Virou as costas para o movimento social e para o PT, partido que teve um papel fundamental nas lutas pela igualdade racial", acusa Claudio Silva, da Secretaria do Combate ao Racismo do PT em São Paulo e membro do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial. "Ela não está ouvindo nem o conselho."

Na mesma medida em que engrossam as críticas à ministra, também aumenta o coro dos que se opõem à extinção da Seppir, que seria incorporada à Secretaria de Direitos Humanos, sob a batuta da ex-deputada e atual ministra Maria do Rosário (PT-RS). "A Seppir é uma conquista histórica do movimento negro na luta contra o racismo", observa Martvs Chagas, diretor de fomento da Fundação Cultura Palmares e membro do diretório nacional do PT.

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