Sergio Castro/Estadão
Sergio Castro/Estadão

Motociclistas abastecem de graça em cidade maranhense que recebeu comícios de Lobão Filho

Aliada de candidato no Maranhão dá gasolina a eleitores

Leonencio Nossa, enviado especial a Conceição do Lago Açu (MA), e Fabio Brandt, enviado especial a São Luís (MA), O Estado de S. Paulo

03 de outubro de 2014 | 03h00

Perdida numa região de planície baixa e terras alagadas boa parte do ano, a cidade de Conceição do Lago Açu, a 365 quilômetros de São Luís, viu nestas eleições o voto ganhar novo valor. Com poucas estradas pavimentadas, mas uma frota de motocicletas que, em pouco tempo, aposentou jegues e carroças, o município é testemunha da troca das tradicionais “quentinhas” por garrafas PET com gasolina no vale-tudo da disputa política. 

A prática da compra de votos é o que não mudou na realidade da Baixada Maranhense. Na tarde da última quarta-feira, 1, o Estado presenciou a campanha de Edison Lobão Filho (PMDB) ao governo do Maranhão trocar gasolina pelo apoio de eleitores.


Numa sequência fotográfica, a reportagem registrou, durante três horas, os organizadores da visita do candidato à cidade encherem garrafas de combustível e distribuírem o combustível para mais de 400 proprietários de motocicletas. Em troca, eles estamparam adesivos do peemedebista e da candidata do partido a deputada estadual Andrea Murad na lataria, acompanharam os políticos numa carreata e fizeram um buzinaço que se estendeu até a noite pelas ruas do centro do município de 14 mil moradores, sendo nove mil com direito a voto. 

‘Do meu bolso’. O combustível foi distribuído num sítio a poucos quilômetros do centro da cidade. Um caminhão contratado pela prefeita Marly Sousa (PSD), do grupo de Ricardo Murad, secretário estadual de Saúde e pai de Andrea, estacionou no lugar com dois tanques de gasolina. Os motoqueiros fizeram uma fila para ganhar uma garrafa de 2,5 litros de gasolina ou encher o tanque do veículo. Marly disse que organizou o evento com recursos próprios. “Gastei R$ 15 mil, incluindo a cerveja e o refrigerante”, relatou a prefeita ao Estado. Ela protege Lobão Filho. “Tudo do meu bolso. O candidato é do meu grupo, não gastou um centavo com a gasolina.”

A campanha de Edison Lobão Filho respondeu, por meio de sua assessoria, que “não reconhece” os aliados que distribuem combustível e notas que funcionam como vouchers. “A campanha não tem controle sobre ações de pessoas que, eventualmente, participam de carreatas”, afirmou a assessoria.

Ex-pescadora, Marly ainda pagou cinco ônibus para recrutar “amigos” nos povoados de Matinha e Olho D’água. A irmã dela, Lindalva, que preside a Colônia de Pescadores, convocou os associados. São 2.400 que recebem o benefício do defeso, diz orgulhosa Marly. A carreata foi puxada por dezenas de Hilux e três carros de som trazidos de São Luís pela campanha de Lobão Filho. Os motoqueiros e mototaxistas vieram atrás, fazendo buzinaço, como ficou acordado na distribuição de gasolina.

Boas-vindas. Logo depois, no começo da noite, em Lago Verde, cidade de 15 mil habitantes, a 50 quilômetros, Lobão Filho foi recepcionado por 300 motoqueiros e mototaxistas que o aguardavam no sítio do finado Chico Lera, o ex-vereador Francisco Ferreira Lima, um ex-chefe político do interior do município. A organização do evento foi feita pelo neto dele, Eduardo Lima Camelo, de 31 anos, que pretende disputar a eleição para vereador. “Quem está ajudando o meu povo é o Alex Almeida, filho do prefeito Raimundo Almeida (PP)”, conta, com naturalidade. “Eu apresentei um cadastro com o nome de 300 pessoas que puderam abastecer a moto no posto da cidade. A maioria é mototaxista.” 

Notas fiscais. O Estado teve acesso a duas notas fiscais do Auto Posto Liderança Ltda., situado na cidade de Imperatriz, que teriam sido dadas a eleitores para que eles trocassem por combustível no posto de gasolina. Esse método, também foi empregado na campanha em São Luís, segundo cabos eleitorais da campanha de Lobão Filho. Um cabo eleitoral no comitê de Andrea Murad, que não quis ser identificado, relatou que a distribuição de notas havia sido interrompida e que, naquele momento, a gasolina só era paga “pela amizade ou quando vai fazer as carreatas”, mas que em outro comitê de Lobão Filho a benesse poderia ser obtida.

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