Helcio Nagamine/Estadão - 20/11/2021
Helcio Nagamine/Estadão - 20/11/2021

Moro diz que já 'conversa' com outros nomes da terceira via por união nas eleições

Em congresso do MBL, ex-juiz e pré-candidato a presidente em 2022 afirmou ainda não se arrepender de ter sido ministro do governo Bolsonaro; evento do grupo foi realizado em local 'alternativo' e teve foco na 'geração Z'

Davi Medeiros, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2021 | 20h34
Atualizado 21 de novembro de 2021 | 15h14

O ex-juiz Sérgio Moro afirmou neste sábado, 20, que mantém diálogo com outros presidenciáveis da chamada "terceira via" em busca de união. "Eu tenho conversado com todos os nomes, acho que a união deve ser feita em cima de um projeto consistente para o País", disse, ao participar do Congresso do Movimento Brasil Livre (MBL), em São Paulo. Além disso, ele também afirmou não se arrepender de ter feito parte do governo de Jair Bolsonaro, do qual foi ministro da Justiça entre janeiro de 2019 e abril de 2020.

"Queremos aglutinar, trazer outras pessoas, somar e evitar extremos", afirmou, após ser apresentado à plateia como "próximo presidente do Brasil", contrariando o tom adotado pelos organizadores, no dia anterior, ao promover um debate com os pré-candidatos Eduardo Leite (PSDB), Luiz Henrique Mandetta (DEM) e Luiz Felipe d'Avila (Novo).

Na sexta-feira, o deputado Kim Kataguiri (DEM), um dos líderes do MBL, hesitou em cravar um nome ao ser questionado sobre quem o movimento apoiaria em 2022. Momentos antes, ele havia dito que o grupo - um dos principais articuladores dos atos de rua em defesa do impeachment de Dilma Roussef - "tem de ser ambicioso e eleger o próximo presidente da República".

Neste sábado, porém, o apoio do movimento ao ex-juiz foi evidente. Moro foi apresentado por Adelaide Oliveira como o "próximo presidente do Brasil", e sua entrada no palco do evento foi ovacionada pelos presentes.

O MBL projeta também um palanque para o deputado estadual Arthur do Val (Patriota), que pretende disputar o governo de São Paulo no ano que vem. Ao final do evento, Adelaide chamou o parlamentar ao palco e, ao lado de Moro, disse que ali estavam os futuros presidente da República e governador paulista.

Moro foi entrevistado durante o evento pelo apresentador Danilo Gentili. Ao ser questionado se de fato seria candidato, a plateia irrompeu em gritos de "sim!" e "Moro presidente". Em resposta, o ex-juiz repetiu que está "pronto para liderar o projeto" e defendeu uma agenda anticorrupção para o País, fazendo críticas ao PT.

Recém-filiado ao Podemos, o ex-juiz disse que não se arrepende de ter sido ministro do governo Bolsonaro porque, segundo ele, "havia uma chance de as coisas darem certo". À época, segundo ele, seu entendimento foi de que era seu dever aceitar o convite do presidente eleito. 

"No decorrer do tempo, vi que meu projeto não tinha como prosperar", disse, acrescentando que Bolsonaro fez o exato oposto do que prometia no combate à corrupção. O ex-ministro deixou o governo em abril de 2020, em meio à interferência do chefe do Executivo na Polícia Federal. "Saí, sofri vários ataques, mas fiz a coisa certa".

Ele citou seu histórico nos processos da Operação Lava Jato como um fator que pesa a seu favor nas eleições e disse não se ressentir com o Supremo Tribunal Federal (STF) por ter sido considerado parcial no julgamento do ex-presidente Lula, embora tenha feito críticas à Corte e destacado sua suspeição como um erro.

"O STF tem grandes méritos, mas os fatos estão documentados. Há uma tentativa de revisionismo histórico, mas a verdade é que a Petrobras foi saqueada como nunca antes na história desse País (durante os governos petistas)", afirmou.

O ex-ministro procurou focar sua fala no combate à corrupção, seu principal ativo político. O jurista sustentou que deseja que o País "retorne à época em que havia esperança de que a impunidade não fosse regra".

Moro também defendeu acabar com o "nós contra eles", reforçando seu nome como alternativa à polarização Lula x Bolsonaro. Ele afirmou que seu projeto não será fundamentado na "agressão", como classifica o de seus dois principais adversários. "Existe hoje uma atmosfera de intimidação nas redes sociais, as pessoas têm medo de dizer o que pensam. Isso é muito ruim para o País."

'Descolado'

"Quem aqui tem menos de 18 anos?", perguntou o deputado estadual Arthur do Val assim que assumiu o microfone na 6ª edição do Congresso Nacional do MBL na sexta-feira, 19. Entre os presentes, grande parte levantou a mão. Em um dos cantos, um garoto de 12 anos vestido de Homem-Aranha chamava a atenção dos palestrantes no palco.

A "geração Z" – uma definição para pessoas nascidas entre a segunda metade dos anos 1990 até a primeira década dos anos 2000 – representava boa parte do público do evento que reuniu diversos representantes dos postulantes à Presidência que integram o centro político.

Engajar a parcela mais jovem da militância nas pautas do movimento é um dos objetivos do evento, realizado nos dois últimos dias em São Paulo. No início do ano, o grupo lançou a plataforma "Academia MBL", na qual oferece cursos relacionados ao ativismo político. "Tem de haver renovação", disse o deputado federal Kim Kataguiri. "Temos o dever de forjar novos mandatários que carreguem o 'método MBL' e honrem o voto de cada um de vocês que estão aqui", afirmou o vereador de São Paulo Rubinho Nunes (PSL).

O grupo também lança mão de outras estratégias para se vender como "descolado" para os adolescentes. O evento foi realizado em um lugar "alternativo" e pouco usual para debates políticos, nos trilhos da Mooca. Parte da agenda são aulas ministradas no interior dos trens desativados que há no local. Espalhados pelo espaço do congresso, também há food-trucks, puffs coloridos, bandeirolas de "Atenas" e "Sparta" – como os alunos são divididos na Academia. Uma "balada" encerrou o evento. A programação tem, ainda, "campeonatos de debate" e um "Parlamento simulado", onde os presentes podem "brincar" de política. 

O gaúcho Rafael Ghida, de 12 anos, viajou com o pai de Porto Alegre para participar do congresso. Ele afirma que está na militância por acreditar num "futuro em que todas as pessoas sejam livres para serem o que quiserem", e que, quando tiver idade para votar, pretende apoiar ideais, e não necessariamente nomes que estejam no palanque do MBL.

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