Monobloco

Normalmente governos governam e oposição faz campanha para vir a governar.

DORA KRAMER, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2013 | 02h02

Por aqui é diferente: o governo faz campanha e a oposição, em sua extrema delicadeza, ajuda a governar. De vez em quando leva umas pancadas - na última foi acusada de traição à pátria -, mas nem assim fica esperta.

Por campanha eleitoral entenda-se não só o tom do pronunciamento em que a presidente Dilma Rousseff anunciou a redução das tarifas de energia elétrica, mas todo o gestual do ex-presidente Lula, do PT e da assessoria palaciana.

Fala-se na reeleição de Dilma como se o pleito fosse depois de amanhã. Fala-se em desentendimentos entre ela e Lula como se fossem adversários ou houvesse a mais pálida hipótese de virem a ser. Fala-se que o governador Eduardo Campos não será candidato a presidente como quem tem a posse do destino alheio. Fala-se que Aécio Neves só disputará o Planalto para valer em 2018, como quem se dá o direito de traçar o destino do vizinho.

Nada do que se diz, no entanto, tem a menor relevância porque as nuvens da política estão hoje de um jeito, amanhã de outro e daqui a dois anos sabe-se lá como estarão.

O que existe de concreto é só um jogo de ocupação de espaço e geração de uma atmosfera de continuidade inevitável, a fim de evitar que os ventos da expectativa de poder tomem outra direção: seja de Eduardo Campos, Aécio Neves, Marina Silva ou de quem quer que se apresente como alternativa.

A reafirmação contundente da candidatura de Dilma em 2014 cumpre o objetivo de impedir o esvaziamento político do mandato daqui até lá. A insinuação de que Lula pode vir a ser candidato no lugar dela ou até mesmo em 2018 tem a finalidade de sinalizar impossibilidade de alternância.

Já as supostas divergências entre o ex-presidente e a sucessora são apenas suposições. Eles podem até pensar diferente nessa ou naquela questão, mas o projeto tem um arquiteto chefe em cujas mãos estão a régua e o compasso.

Há o "lulismo", mas não há o "dilmismo". A não ser como expressão de um desejo - inútil, note-se - de separar criador e criatura. Dilma e o PT farão o que Lula disser que deve ser feito e certeza sobre o que fazer só haverá quando 2013 chegar ao fim e disser a que veio.

Por enquanto o que existe é uma governante com direito a concorrer à reeleição - o que só não acontecerá em situação excepcional - e o líder de um partido em seu mais confortável papel. Como ex-presidente Lula transita em toda parte, é reverenciado, gera fatos, continua como protagonista, distribui ordens e é obedecido. Tudo isso sem precisar disputar eleição nem correr o risco de perder.

Ou pior: ganhar e pôr em jogo o patrimônio conquistado em dois mandatos que o levaram ao topo.

Efeito colateral. O governo dá sorte para o azar quando faz da redução do preço da energia uma bandeira política. Desenha cenário feliz de preços mais baixos, sem se preocupar com o possível aumento do consumo que amanhã ou depois pode obrigá-lo a pedir moderação aos consumidores.

Dois senhores. Até outro dia mesmo ouvia-se no PSDB que o partido só aguardava a oficialização da entrega de um ministério ao PSD para formalizar o rompimento com o ex-prefeito Gilberto Kassab.

Mantida a decisão, vai se configurar uma situação inusitada, caso se confirme a indicação de Guilherme Afif Domingos para a pasta e, ainda assim, ele permaneça como vice-governador do tucano Geraldo Alckmin. Ou o PSDB recua ou convence Afif a renunciar ou se submete à esquisitice dessa dupla militância em nome dos acertos eleitorais para 2014.

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