Ministro 'amigo de Lula', que faz ponte social, fica isolado

Gilberto Carvalho, interlocutor dos movimentos, não é assíduo na sala de Dilma; assessores dizem que presidente paga caro por isso

LEONENCIO NOSSA, JOÃO DOMINGOS / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

23 Junho 2013 | 02h17

O temor da presidente Dilma Rousseff com a expansão da influência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no núcleo duro do governo isolou o ministro responsável pelas conversas com os movimentos sociais. Gilberto Carvalho, ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência e amigo pessoal de Lula, não se tornou assíduo no gabinete de Dilma no terceiro andar do Planalto nem mesmo nos últimos dias, quando ocorreram as manifestações políticas nas ruas das cidades - boa parte delas em Brasília -, observaram funcionários do Palácio do Planalto.

Nos oito anos de governo Lula, Carvalho foi chefe do gabinete pessoal do presidente.

Era numa dobradinha com o então ministro Luiz Dulci, seu antecessor no cargo, que Carvalho incluía na agenda do ex-presidente encontros com lideranças de micro, pequenas e grandes entidades da área social. Dulci chegou a elaborar um mapa com 2,5 mil pontos do Brasil onde havia um agente social para ser acionado, 24 horas por dia, especialmente nas viagens do presidente pelo País. A equipe e o mapa deixados numa sala do anexo do Planalto por Dulci permaneceram com a chegada de Dilma ao poder, mas não foram acionados pela presidente.

Em uma rápida conversa com o Estado, Carvalho rejeitou a análise feita por assessores influentes do Planalto de que a presidente pagou caro, nessa onda de protestos, por afastar a Secretaria-Geral do seu gabinete.

"A presidente tem recebido o pessoal (dos movimentos sociais) o tempo todo", disse o ministro. "Eu falo com a presidente na hora que eu quiser", desafiou. "Acho que a gente tem de abrir conversas com mais setores, dá mais trabalho, mas não tem como. Temos de nos dar ao trabalho de ouvir e ter um aprendizado deles e nosso."

Renovação. Em encontros públicos e conversas privadas, o ministro tem ressaltado que o movimento social se renovou, não é realizado mais com carros de som e lideranças.

Com visão de rua, Carvalho faz, quando tem oportunidade, autocríticas e análises das novas formas das manifestações, com a pluralidade de bandeiras e rejeições a toda a classe política. Mas, apesar de manter uma relação cordial e amistosa com a presidente, suas avaliações não têm impacto sobre ela, na avaliação de assessores.

Nesse clima, a interlocução com os movimentos sociais tem registrado fatos curiosos. Durante manifestações de índios contrários à construção de hidrelétricas na Amazônia, o governo optou por enviar aviões - alguns de vigilância nas fronteiras - para transportar os indígenas até Brasília. O correto seria que o ministro se deslocasse até eles, pois o gasto seria menor e o problema não seria levado para a capital. Mas, de acordo com funcionários do Planalto, Carvalho não gosta desse tipo de "aventura", por temer se tornar refém das tribos. Ele se baseia no aprisionamento de funcionários do governo durante missões anteriores nas aldeias.

No governo passado, Luiz Dulci - que ocupava o cargo de Carvalho - participava das reuniões de segunda-feira do presidente com seus principais ministros, o chamado "núcleo duro" do governo. Agora, o seleto grupo de ministros mais assíduos do gabinete presidencial inclui apenas Fernando Pimentel (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior), Aloizio Mercadante (Educação), José Eduardo Cardozo (Justiça) e Giles Azevedo (Gabinete Pessoal), petistas sem ligações diretas com o conjunto dos movimentos sociais.

Ouros movimentos. Com o isolamento de Carvalho, a chegada de novas entidades e lideranças sociais que ganharam força nos últimos três anos, como as dos movimentos dos Sem Teto e do Passe Livre, não foi percebida pelo gabinete presidencial.

Dilma se acomodou com a lista dos antigos interlocutores do governo anterior, que não estão entre os protagonistas da nova onda de protestos. A União Nacional dos Estudantes (UNE) foi um dos interlocutores escolhidos e cooptados na chamada Era Lula. A entidade brilhou na resistência à ditadura, nos anos 1960, no movimento das Diretas Já, em 1983 e 1984, e no impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em 1992.

Durante o governo Dilma surgiram movimentos como as marchas contra a corrupção, o "Esculacho", que pedia a punição de oficiais da ditadura militar, e novas vertentes dos sem teto. Esses grupos têm na sua pauta exigências que vão além da capacidade da Secretaria-Geral e questionam políticas do governo ou os rumos tomados pelo PT - que não defendeu a punição de torturadores, teve de enfrentar o julgamento de seus líderes no Supremo Tribunal Federal (STF) ou não tinha projetos consistentes para diminuir o déficit de moradias.

Mais recentemente, o governo foi surpreendido por uma onda na internet de repúdio à morte do índio Oziel Gabriel, em Mato Grosso do Sul, numa ação de reintegração de posse com a presença da Polícia Federal. Um protesto que ganhou simpatia de militantes do próprio PT.

As manifestações que tomaram as ruas nos últimos dias quase não têm líderes nem uma pauta muito bem definida como as que costumavam ser levadas ao governo. A interlocução, que já era difícil com grupos organizados e conhecidos, tornou-se quase impossível com os atuais, que fazem os protestos nas ruas mas não procuraram as autoridades.

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