Dida Sampaio/ Estadão
Dida Sampaio/ Estadão

Militares recebem com alívio eleição de Bolsonaro

Ministro do GSI diz que Haddad faltou com educação ao não telefonar imediatamente para futuro presidente

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2018 | 11h43

BRASÍLIA - A área militar recebeu com alívio a eleição neste domingo, 28, de Jair Bolsonaro, ex-capitão do Exército, para a Presidência da República. O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Sérgio Etchegoyen, resumiu o sentimento dos militares em relação à divisão que se impôs no País nos últimos tempos, trazendo enormes prejuízos a todos.

“As fake news (notícias falsas) não contavam com a fortaleza das true news (notícias verdadeiras)”, declarou o ministro ao Estado. Etchegoyen acompanhou ao lado do presidente Michel Temer, no Palácio Alvorada, as apurações e a manifestação dos candidatos eleitos e derrotados. Depois de votar ontem, ele disse que "somos um povo pacífico e confiamos no modelo democrático."

Oficiais ouvidos pela reportagem ressaltam que Bolsonaro enfrentará dificuldades para governar. A avaliação corrente é de que um revés ou erros do próximo governo, que tem dois militares reformados à frente – além do capitão Bolsonaro, o vice-presidente eleito é o general de Exército Hamilton Mourão –, poderia gerar um ônus à imagem das Forças Armadas. Os militares salientam que o deputado do PSL era a única opção viável e agora pregam esforços para ajudar o seu governo a dar certo. Isso, no entanto, não passa por qualquer tipo de intromissão das Forças Armadas no governo, e vice-versa.

A cúpula militar criticou ainda o fato de o candidato do PT, Fernando Haddad, que perdeu nas urnas, não ter telefonado para Bolsonaro para cumprimentá-lo logo após o anúncio do resultado. Haddad, visto por eles como líder da oposição, só o fez nesta segunda-feira.

“É lamentável, é muito ruim. No mínimo é falta de educação e falta de respeito com os 55 milhões de eleitores que votaram em Bolsonaro”, desabafou o ministro-chefe do GSI, também resumindo discurso de vários oficiais-generais ouvidos pelo Estado. “Não podemos esquecer que o Brasil escolheu um para governar e outro para liderar a fiscalização, o que compromete ambos com os eleitores e com o futuro do país”, declarou ele, acrescentando que neste momento, “todos têm de trabalhar pela prosperidade, pelo bem comum, pela pacificação e pensarem no Brasil”.

Outros generais destacaram que o ato de Haddad mostra espírito antidemocrático. Lembram ainda que, em qualquer lugar do mundo, o perdedor, em um gesto tradicional da democracia, liga para o vencedor para cumprimentá-lo.

“Ele teve 45% dos votos. Como uma pessoa com esse tipo de sentimento quer liderar a oposição, sem ter um gesto de grandeza? Não sabe perder”, comentou um general quatro estrelas. “Com isso, Haddad vai alimentar o ódio entre as pessoas que votaram nele, o que não é correto.”

Foi sugerido a Bolsonaro que ele, em seu discurso da vitória, dirigisse a palavra ao seu opositor, em um gesto pela pacificação. O presidente eleito, no entanto, não aceitou o conselho e não citou Haddad ou o PT. Preferiu usar seu discurso lembrando a imagem do Duque de Caxias, o patrono do Exército, como pacificador do Brasil.

Fala de filho de Bolsonaro sobre STF e fake news influenciaram resultado, avaliam militares

Apesar de o placar das urnas (55% a 45%) ter sido inferior ao esperado inicialmente na caserna, a avaliação é de que o resultado foi fruto dos últimos acontecimentos. Para os militares, contribuíram decisivamente para a perda de votos os últimos dias a pressão das notícias falsas, o discurso radical de Bolsonaro no domingo passado para os apoiadores que estavam na Paulista prometendo varrer a oposição do País, além da divulgação da fala do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente eleito, de que bastavam um soldado e um cabo para fechar o Supremo Tribunal Federal (STF).

Um militar ouvido pela reportagem salientou que embora a votação tenha sido “expressiva” e não deixe dúvida sobre a rejeição do País ao PT neste momento, se não tivessem perdido estes votos, Bolsonaro chegaria ainda mais forte ao governo e enfraqueceria ainda mais a oposição.

Os militares não preveem que haja confrontos nos próximos dias, apesar de manifestações previstas por opositores.

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