Mídia latina deve buscar ajuda, diz historiador

Ao debater governos autoritários na SIP, mexicano diz que América Latina 'está só'

GABRIEL MANZANO , ENVIADO ESPECIAL / PUEBLA, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2013 | 02h08

Uma avaliação sobre o autoritarismo na América Latina, feita ontem por dois intelectuais na Reunião de Meio de Ano da Sociedade Interamericana de Imprensa, em Puebla, no México, terminou com uma constatação otimista. "O progresso político da América Latina nos últimos tempos é um dado irreversível. Eu creio em uma América Latina democrática", disse o historiador e editor mexicano Enrique Krause.

Krause e o ex-presidente equatoriano Luís Hurtado analisaram os governos bolivarianos e suas receitas para "controlar o povo sem sair das normas democráticas". Além desse painel, "Mudanças políticas no continente", a reunião teve mais três: um sobre a violência contra jornalistas no México, outro sobre populismos e o último sobre o "casamento" entre novas tecnologias e liberdade de informação. O encontro, que reúne 21 países, termina amanhã, com a leitura e aprovação do documento final sobre a situação da imprensa no continente, pela Comissão de Liberdade de Expressão e de Informação.

Solidão. No retrato que traçou dos regimes políticos do continente, Krause afirmou que "a América Latina está muito só neste momento" e que nela se trava "uma grande guerra cultural". Essa guerra passa, advertiu, pelo desinteresse de tantos cidadãos quanto um presidente viola uma lei. O historiador propôs, para vencer essa guerra, que a imprensa do continente "procure a ajuda de seus colegas da França, Alemanha, Inglaterra, Espanha", para não acabar dominada.

Krause afirmou que "a liberdade de expressão é a mãe de todas as liberdades", mas que os líderes populistas "têm um recurso fundamental, este aqui" - e apontou para o microfone. "O monopólio do microfone é o monopólio da verdade. Com ele é que se engana a multidão".

Hurtado comparou: "O século passado nos ensinou que as armas é que submetiam os povos e os poderes. Pois o novo milênio nos trouxe uma novidade, a de que os civis podem fazer isso por sua conta, e com eleições legítimas". Ele rechaçou a ideia de se definir a democracia só pelo ato eleitoral, lembrando que muitos caudilhos também foram eleitos. Mas cobrou: "Os (Rafael) Correa, (Hugo) Chávez e (Evo) Morales encontraram um sistema político apodrecido, para cujo descrédito contribuiu muito a própria imprensa".

México. A violência contra a imprensa no México, onde a guerra das quadrilhas de drogas contra a polícia e contra jornalistas já matou 83 deles desde 2000, foi tema de outro painel. "Neste país, a melhor proteção é não falar", disse Perla Gomez, catedrática de Direito da Universidade do México. Na análise dos debatedores foi denunciada a "quase inutilidade" das leis que protegem a profissão. Destacou-se que o México é um forte mercado de drogas e que a luta pelos pontos, de norte a sul do país, não é uma questão só de imprensa. O senador Roberto Gil falou do duplo poder - um governo que se democratiza e o país real das cidades distantes, onde muitos juízes fazem o que querem.

No quarto painel, o professor Rafael Gutierrez, da Universidade do México, deu uma polêmica palestra, em que disse achar equivocado definir populismo como autoritarismo, visto que ele "não é uma negação, mas uma instrumentalização" do regime democrático pelos líderes populistas.

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