Metade das doações de empresas a legendas foram de empreiteiras

Setor de construção priorizou legendas, e não candidatos ou comitês, na hora de destinar seus recursos

ESTADÃO DADOS, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2012 | 02h02

As empreiteiras concentraram suas doações eleitorais nas direções partidárias em 2012. Em vez de pulverizar recursos entre candidatos e comitês de campanha, as empresas de construção optaram por centrar seus esforços nas cúpulas dos partidos. Acabaram responsáveis por 49% de tudo o que as agremiações partidárias receberam de pessoas jurídicas na eleição.

Essa dependência dos partidos de dinheiro de empresas que realizam obras públicas pode provocar conflitos de interesse na hora de os prefeitos eleitos abrirem licitações e concessões.

Na prática, a estratégia das empreiteiras de doar a partidos facilita o surgimento de eventuais "caixas pretas" - pois torna difícil saber qual candidato, em que cidade, recebeu recursos. São as chamadas doações ocultas.

Os dados que mostram a concentração das doações de empreiteiras nas receitas obtidas pelos partidos nas eleições de 2012 fazem parte de uma nova parcial da prestação de contas, publicada na terça-feira (27) pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Eles não incluem receitas e despesas dos cem candidatos que disputaram o segundo turno. Além disso, faltam dados de candidatos, comitês ou diretórios partidários que extrapolaram o prazo de entrega da prestação de contas para o tribunal.

Em dinheiro, as empreiteiras doaram R$ 270 milhões às direções estaduais e nacionais dos partidos. Apesar de cerca de 250 empresas do setor terem aberto seus cofres para os políticos, a concentração é brutal: as cinco maiores doadoras foram responsáveis por quase metade do dinheiro doado pela área.

Apenas uma delas, a Construtora Andrade Gutierrez Ltda, deu R$ 1,00 de cada R$ 5,00 que as direções partidárias receberam das empreiteiras nestas eleições. Foram R$ 53,2 milhões para os caciques redistribuírem entre candidatos do partido. A cúpula mais aquinhoada foi a do PMDB. PSDB, PSB e PSD também receberam altas somas. A construtora também doou altas somas para o PT, mas os dados ainda não constam na base de dados divulgada pelo TSE.

A Construtora Queiroz Galvão S/A, com R$ 30,8 milhões doados, e a Construtora OAS Ltda, com outros R$ 22,5 milhões, ficaram com a segunda e a terceira colocações no ranking das empresas que mais contribuíram para os cofres dos partidos nestas eleições. Das "top 10" mais generosas com os partidos, seis foram empreiteiras. Além de Andrade Gutierrez, Queiroz Galvão e OAS, estão no topo do ranking a Camargo Corrêa, a Norberto Odebrecht e a Carioca-Christiani Nielsen. Em todos os casos, a maior parte das doações foi de tipo oculta. A outra metade das doações de empresas para as direções partidárias veio principalmente de cinco setores: alimentos e bebidas (10%), financeiro (9%), empreendimentos imobiliários (4%), mineração (4%) e saúde/farmacêutica (3%).

Procurada pelo Estado, a Construtora Andrade Gutierrez afirmou que sua participação no processo eleitoral "é realizada de forma oficial, de acordo com as regras da legislação brasileira e do TSE". A Odebrecht informou que "respeita rigorosamente os limites e condições impostas pela legislação eleitoral". Queiroz Galvão disse que não comentaria o assunto e OAS, Galvão Engenharia, UTC Engenharia, Camargo Corrêa e Carioca-Christiani Nielsen não se pronunciaram até o fechamento da edição./JOSÉ ROBERTO DE TOLEDO, AMANDA ROSSI, DANIEL BRAMATTI, DIEGO RABATONE e LUIZA VIEIRA, ESPECIAL PARA O ESTADO.

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