Memes na internet se firmam como arma eleitoral

Imagens e frases bem-humoradas que se espalham na internet ajudam a construir e desconstruir candidaturas nestas eleições municipais

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2016 | 05h00

Em uma campanha curta e com poucos recursos, falou melhor com o eleitor quem soube ser sucinto e afiado. Nada traduz melhor a “ligeireza” dessas eleições do que o “meme” (imagem ou frase bem-humorada que se espalha na internet). Foram eles que ajudaram a construir e desconstruir candidaturas e consolidar percepções sobre esse ou aquele candidato – tanto faz se na resolvida disputa de São Paulo ou no polarizado segundo turno do Rio de Janeiro.

Antes mesmo da eleição começar, um Eduardo Suplicy (PT) sendo carregado por policiais durante um reintegração de posse já se espalhava pela rede. Em São Paulo, logo na primeira semana, um meme de John Travolta (em Pulp Fiction) procurando a candidata Luiza Erundina (PSOL) foi parar até no Horário Eleitoral Gratuito – assim como Flávio Bolsonaro (PSC) passando mal durante o debate na Band inspirou muitas criações no Rio de Janeiro.

“Na década de 1960 ainda não tinha internet, mas a vassoura de Jânio Quadros já cumpria a função do que hoje conhecemos como meme”, lembra o professor de inovação e tecnologia da ESPM-Rio Fabro Steibel. “Trata-se, sem dúvida de uma ferramenta de dissiminação de ideias. Eles são recados pontuais - já que a vida útil de um meme é curtíssima. A maioria ‘vive’ por poucas horas; os muito bons vão ser compartilhados por dois dias; e os fantásticos vão entrar naquelas listas de ‘Os 10 memes que você precisa conhecer...’”, comenta Steibel.

Na eleição para a prefeitura do Rio, com dois candidatos que representam visões opostas de mundo, os memes tendem a reforçar os estereótipos de cada um. Por exemplo, contra Marcelo Freixo (PSOL) sobram montagens abordando a legalização da maconha. Já outros memes ligam Marcelo Crivella (PRB) à prática do dízimo em igrejas evangélicas.

“Sem dúvida, os memes são uma forma de fazer política e de militância. No Brasil, eles funcionam melhor do que em outros países porque o eleitor brasileiro ‘se emociona’ mais fácil, gosta de rir ou chorar. Não tem muito disposição para o debate mais teórico ou aprofundado”, comenta o coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), da universidade Federal do Espírito Santo. “Aliás, os memes são tão relevantes que eles já estão evoluindo. Nessa eleição ainda foram poucos, mas a tendência é que os Gifs (imagens em movimento) se espalhem ainda mais nas próximas disputas”, completa.

Em São Paulo, memes com o futuro prefeito usando uma cashmere sobre os ombros ou devorando uma coxinha definiram um pouco a percepção do eleitor em relação a ele – assim como um suposto logo da cidade de São Paulo feito por Romero Britto confirmaria essa percepção.  Para o coordenador de mídias digitais da campanha do prefeito eleito,  João Doria (PSDB), Daniel Braga, os memes “de oposição” só ajudaram a reforçar a imagem do candidato. “Na verdade, são memes que pregam para eleitores já convertidos. Ninguém mudou de voto porque viu o Doria de cashmere. Ao contrário, esses memes ajudaram a construir e consolidar a imagem do meu candidato”, brincou Braga. 

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