Melhores serviços só depois de mais gastos?

Intelectuais e integrante do Movimento Passe Livre discutem os ecos dos protestos pelo País

Roldão Arruda, O Estado de S.Paulo

04 de julho de 2013 | 02h03

Em debate realizado ontem na Universidade de São Paulo (USP) sobre o significado das manifestações de rua que estão ocorrendo no País, questões como gastos públicos, corrupção e mudanças nos partidos acabaram provocando polêmicas entre dois dos principais convidados, os dois ex-funcionários do primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva - o cientista político André Singer, que foi porta-voz da Presidência da República, e o jornalista e professor Eugênio Bucci, que dirigiu a Radiobrás.

Singer, autor de estudos sobre o fenômeno político conhecido como lulismo, sustentou que os protestos abrigam movimentos diferentes. "Alguns são opostos, apontam para direções contrárias", afirmou.

Um dos traços comuns aos diferentes grupos, segundo o cientista político, é a melhora dos serviços públicos. "Isso implicará mais gastos públicos", disse. "Por outro lado, há uma pressão, do chamado mercado, em busca de redução dos gastos públicos. Não sei como vai ser."

Bucci, que ensina na Escola de Comunicação e Artes da USP, rebateu que a melhoria do serviço público não significa necessariamente aumento dos gastos. "A demanda é por qualidade do serviço. Isso requer também administração dos recursos com qualidade. Às vezes significa gastar menos, às vezes, mais", afirmou. "Precisamos qualificar esse debate. Não vejo a qualidade dos serviços atrelada necessariamente a mais gastos."

O debate foi organizado pelo Instituto de Estudos Avançados da USP e reuniu pesquisadores e estudiosos de diferentes áreas acadêmicas. Bucci e Singer eram os debatedores, ao lado de Matheus Preis, estudante de Ciências Sociais que representava o Movimento Passe Livre (MPL) - a organização que pôs em andamento as primeiras marchas de protesto, em São Paulo, há um mês.

Ao tratarem da questão da corrupção, Bucci e Singer também foram polêmicos. "A corrupção está presente em todos os países do mundo, em todas as democracias e é, evidentemente, uma das razões das dificuldades pelas quais elas vêm passando", afirmou o ex-porta-voz. "Precisamos ser realistas. Resolver a corrupção no sentido de eliminá-la não é possível. Mas é possível avançar no sentido de seu controle."

Avanços. Para o cientista político, a reforma política, com mudanças no financiamento das campanhas, pode trazer avanços. "Uma das fontes de corrupção está na fonte de financiamento de campanha. As campanhas se tornaram extraordinariamente caras e demandam recursos que estão vindo das empresas, do poder econômico. É evidente que ele vai cobrar." Ele defendeu a proibição de doações de empresas. "Isso limita a possibilidade de influência do poder econômico."

Ao abordar o tema, Bucci preferiu outro ângulo, de crítica aos partidos que convivem com a corrupção. "O envelhecimento dos partidos políticos no Brasil tem a ver com uma rendição das máquinas partidárias a serem administradoras de métodos mais ou menos corruptos. Aí se transformam em máquinas eficientes dentro de um sistema de agenciamento de interesses indevidos."

Singer defendeu a retomada da bandeira da ética pela esquerda. Mas ressaltou que os protestos contra a corrupção nas ruas constituem sobretudo uma bandeira da classe média.

De maneira geral, os debatedores concordaram em que as instituições tradicionais de representação política foram surpreendidas. "As direções, as lideranças consolidadas, foram todas atropeladas, todas ficaram para trás, todas correram atrás, para mostrar serviço, inclusive as ONGs", disse Bucci.

O representante do MPL destacou a demora do poder público para dar respostas às manifestações em São Paulo: "Isso é uma demonstração de que há algo errado com a representatividade".

Nesse processo, nem os intelectuais foram poupados. "Onde estavam os intelectuais? Por que se ocuparam tanto tempo em proteger o governo?", perguntou Bucci. "A função de problematizar foi negligenciada."

Singer enfatizou que, embora estejam na berlinda, as instituições continuam em vigor. "Eu até diria que não há como a gente ter uma democracia sem as velhas instituições, incluindo os partidos políticos", disse. "O caminho está em revitalizar estas instituições e não em destruí-las."

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