SEVERINO SILVA / ESTADÃO
SEVERINO SILVA / ESTADÃO

Martha Rocha: ‘Nossos ideais serão maiores que nossa dificuldade de se organizar’

Candidata do PDT à prefeitura do Rio conta com ‘voto útil’ dos partidos de esquerda caso chegue ao segundo turno da disputa

Entrevista com

Martha Rocha, candidata do PDT à prefeitura do Rio

Caio Sartori, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2020 | 16h39

RIO – Uma das principais apostas de Ciro Gomes e do PDT nas capitais em 2020, a deputada estadual Martha Rocha tenta ultrapassar o prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) nas pesquisas de intenção de voto e disputar o segundo turno na eleição carioca contra Eduardo Paes (DEM), que lidera os levantamentos. Para isso, conta com um possível ‘voto útil’ do campo progressista – e, uma vez diante do ex-prefeito, com a união dos partidos de esquerda. “Nossos ideais serão maiores que nossa dificuldade de se organizar”, diz em entrevista ao Estadão. No primeiro turno, dirige ataques a Paes, com quem disputa parcelas do eleitorado.

Primeira e única mulher a chefiar a Polícia Civil do Rio até hoje, Martha optou por inserir “Delegada” no nome de urna, de modo a se associar a seu histórico na corporação. Para a pedetista, que começou na polícia em 1983 e teve que reivindicar a criação de um banheiro feminino, a escolha foi natural, já que é mais conhecida pela atuação como delegada do que como deputada, cargo em que está no segundo mandato. Descarta, nesse contexto, a comparação com o governador afastado Wilson Witzel (PSC), que se apresentou em 2018 como juiz. 

Martha refuta a ideia de que sua candidatura e a de Benedita da Silva (PT) são meros reflexos do jogo político nacional – como forma do ex-ministro Ciro Gomes e do ex-presidente Lula se posicionarem para 2022. E tenta diferenciar os dois caciques.

“Acho que tem uma diferença aí. O Ciro é um cidadão carioca, morou na cidade por 17 anos, viveu aqui, conhece a cidade”, aponta. “É diferente vir à cidade e assistir ao desfile das escola de samba de estar no dia a dia por 17 anos. Se o Ciro vier aqui e quiser caminhar comigo, vou ficar muito feliz.”

Por causa da pandemia, a máscara de proteção da deputada foi tirada apenas para a entrevista e para os retratos. Confira abaixo os principais trechos da conversa com o Estadão.

Qual deve ser a prioridade da Prefeitura na pandemia? Como lidar, por exemplo, com a questão das escolas?

Quem acompanhou a minha atuação como deputada durante a pandemia deve ter ouvido várias vezes eu repetir que o gestor tem que acompanhar a ciência. Não tem achismo nessa solução. Entendo que teremos que, no dia 1º de janeiro, ter um plano de retomada das aulas para quando a ciência assim permitir e apresentar aos pesquisadores, à área da Saúde, aos profissionais de Educação e aos pais – tomar essa decisão em conjunto. Me incomoda muito quando o gestor municipal ou estadual decide sempre com uma segunda frase, dizendo que “a última decisão é dos pais”. Para mim, isso é transferência de culpa, de responsabilidade.

Como seria a relação da senhora, se prefeita, com o presidente Jair Bolsonaro?

O Rio de Janeiro é o local onde o presidente Jair Bolsonaro e os filhos criaram sua carreira política. É no Rio que o presidente mora, morou boa parte de sua vida, criou os filhos. O presidente da Câmara dos Deputados é do Rio. Para nossa felicidade, o presidente do Supremo Tribunal Federal também é. Minha relação é sempre republicana. Tenho a absoluta certeza que essas autoridades entenderão que não pode ser bom para o Brasil sem ser bom para o Rio. E tenho absoluta certeza que o povo carioca estará atento a esse comportamento. Tenho muitas críticas ao governo Bolsonaro, isso é óbvio. Mas o carioca pode contar com uma prefeita que vai lembrar às autoridades a importância do Rio em suas vidas. Manterei o diálogo e defenderei que o Rio seja respeitado pela sua importância. 

No Estado, a relação com a União ficou complicada quando Wilson Witzel virou adversário político do presidente...

Acho que não me compete opinar sobre o movimento do governador, mas ele não pode esquecer que foi eleito no contexto em que o apoio da família Bolsonaro estava ali. A única preocupação que ele deveria ter deveria governar o Rio de Janeiro e tirá-lo da grave crise econômica em que ainda se encontra. Vencida essa etapa, óbvio que é legítimo aspirar ao que quisesse, mas ele deixou de cumprir seu primeiro dever de casa. 

A senhora focou em criticar Eduardo Paes no debate da Band, mas o PDT apoiou o então prefeito e o MDB, partido ao qual ele pertencia, em mais de uma eleição. Como acreditar que a sua candidatura é de fato diferente daquele projeto de cidade?

É preciso que se diga como o Eduardo deixou o caixa da Prefeitura. Ele recebeu, na cidade, seis grandes eventos, dois deles com investimento de toda natureza: público e privado. Foi, como eu gosto de dizer, um ‘Rio’ de dinheiro. Mas, apesar de tudo isso, ele contraiu dívidas para a Prefeitura e deixou a cidade com um rombo de R$ 320 milhões. Então essa gestão também apresenta equívocos, não é apenas a gestão do atual prefeito. Naquele momento, o PDT apoiou o Eduardo Paes, mas acho que o partido hoje é a via diferenciada que existe entre o atual e o ex-prefeito. Somos uma via viável para conduzir a cidade.

Crivella não tem uma marca clara, e a de Eduardo foram as obras e os grandes eventos. Qual seria a marca do PDT?

A marca dos grandes eventos que o Eduardo teve o obrigaria, ao final de seu mandato, a ter entregado essa cidade como referência na educação e na saúde. Ninguém teve o momento de prosperidade que ele teve, e acho que nos próximos cem anos ninguém terá. Foi um momento ímpar. Na educação, o PDT tem o históricos dos CIEPs (escolas de tempo integral implementadas no Estado pelo ex-governador Leonel Brizola). É preciso ter a retomada do conceito dos CIEPS, com a integração da cultura e do esporte. Na saúde, tem que ter o fortalecimento da atenção básica. Esse é o programa pedetista. O médico da família foi instituído pela primeira vez no Brasil no governo do prefeito Jorge Roberto em Niterói, na década de 1980. Esse é o estilo de governar pedetista, trabalhista.

A senhora defende o fim da administração de hospitais por meio de organizações sociais (OSs)?

Não posso dizer que toda organização social é corrupta, mas posso dizer que onde tem um ato de corrupção eu encontro uma organização social. Hoje a OS é um retrato da má qualidade do atendimento, da má gestão e da corrupção. O instituto Iabas, que é o mesmo dos hospitais de campanha do Estado (ponto central das investigações contra Witzel), esteve nos dois últimos governos municipais, recebeu R$ 4 bilhões e nunca prestou contas desse dinheiro. Eu defendo a transição.

Como seria a transição?

Você não pode sair cortando as OSs, mas eu defendo uma transição. Para esse momento, vamos estabelecer um comitê de monitoramento ligado ao gabinete da prefeita, que vai monitorar gastos e a qualidade no atendimento. E nós temos o interesse de fazer uma central única de compras, que vai baratear as aquisições. E também dar transparência: nosso desejo é fazer o que se chama de governo aberto, ou seja, que o cidadão, o pesquisador, o jornalista, possa identificar com o que a Prefeitura está investindo, quem está contratando, qual o retorno.

Por que fracassou a união dos partidos de esquerda? É possível no segundo turno?

Eu não quero mais falar sobre isso, juro que não. Acho que nós temos hoje várias campanhas individuais, campanhas progressistas, e lá na frente, havendo segundo turno com a presença de uma dessas campanhas, nossos ideais serão maiores que nossa dificuldade de se organizar. 

Chamaria o Marcelo Freixo para conversar, considerando que foi o principal nome da esquerda nas últimas eleições e que teve atritos com a senhora recentemente? 

Eu convivi com o Freixo como chefe da Polícia Civil e ele presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj. Ele fez a CPI das armas, e eu abri o paiol da (Polícia) Civil. Acompanhou de perto várias investigações, como a do Caso Amarildo. Lamento não termos encontrado o corpo, mas as pessoas estão presas até hoje. Na Assembleia, ele foi meu presidente – eu tenho assento na comissão dos direitos humanos com a Renata Souza (deputada e candidata do PSOL à Prefeitura). Fui vice-presidente de uma CPI presidida pela Renata; a (deputada psolista) Mônica Francisco foi vice de uma CPI presidida por mim, a do Feminicídio. Na comissão da covid, contei com a presença da Mônica. Tenho uma interlocução muito boa com a (deputada petista) Zeidan, que foi relatora de duas CPIs que presidi; tenho relação boa com o (deputado petista) Waldeck, votei no (deputado petista) André Ceciliano para a Presidência da Alerj. Neste momento, não foi possível a união, mas temos que entender que nossos ideais serão maiores do que outras coisas.

Sua candidatura e a da Benedita representam também as pretensões presidenciais de Ciro Gomes e Lula. São um mero reflexo desse jogo nacional?

Isso não. Eu não estou nacionalizando a campanha e também acho que tem uma diferença aí que quero colocar. O Ciro é um cidadão carioca, morou na cidade por 17 anos, viveu aqui, conhece a cidade. 

O Lula não conhece?

É diferente vir à cidade e assistir ao desfile das escola de samba de estar no dia a dia por 17 anos. Se o Ciro vier aqui e quiser caminhar comigo, vou ficar muito feliz. E volto a dizer: não estou nacionalizando a campanha, estou fazendo a minha. Mas, se ele vier aqui, ficarei muito feliz. 

Tem essa previsão de que ele venha?

Acho que pode acontecer. Não tem nada acertado. Já fiz quatro lives com o Ciro não só em período pré-eleitoral. Fui conhecer a experiência de Sobral, no Ceará, entendendo bem a diferença paro o Rio de Janeiro, mas conhecendo o propósito. Fiz uma live, para você ter uma ideia do nosso olhar mais amplo, que tinha Ciro, (o governador do Maranhão) Flávio Dino, do PCdoB, e Brizola Neto. Quero colocar que, na hora, o bom senso e nossos ideais serão maiores do que nossa dificuldade de se articular.

O Sérgio Cabral, mesmo preso, criou um perfil no Instagram e publicou fotos ao lado da senhora. Com sua experiência de três anos à frente da Civil, não acha que teve uma cegueira de todos os órgãos para o que acontecia no governo?

Vamos responder isso com muita tranquilidade. Primeiro, todas as fotos são profissionais, em alguma agenda vinculada ao exercício do cargo de chefe da Polícia Civil. Quando assumi, era uma profissional de carreira, com 28 anos na polícia, 21 como delegada. Isso foi a continuidade da minha função enquanto delegada. Tinha exercício quase todos os cargos. A Inteligência não estava na Polícia Civil,; estava na Secretaria de Segurança, que era comandada por um delegado da Polícia Federal, e a Subsecretaria de Inteligência também. Essas questões têm que estar esclarecidas. E eu tenho muita tranquilidade: não saí do País para trabalhar fora, não tenho medo de (ser acordada às) 6 horas da manhã (pela Polícia Federal), de noticiário. Tenho muita tranquilidade com o meu trabalho na Civil.

Tanto que colocou ‘delegada’ no seu nome de urna. Por que essa escolha?

Porque a figura da Martha está intimamente ligada ao exercício da função de delegada. Ouso dizer que a delegada é maior que a deputada. A identificação com a delegada é muito maior. E não me ofendo com isso, não. Porque isso é meu, é legítimo. É fruto de uma trajetória de quem foi a primeira e única chefe da Polícia Civil do Rio. Que entrou em 1983 e teve que lutar por um banheiro; que cresceu numa instituição machista; que fortaleceu a Delegacia de Mulheres. É meu patrimônio e é legítimo usar isso. 

Acha que tem um certo preconceito do campo progressista em relação a isso?

Nenhum. Acho que é só visitarem minha administração como chefe. Foi na minha administração que teve o nome social, que coloquei a motivação da homofobia, que se usou o nome “homicídio provocado por intervenção policial”. Foi na minha administração, a partir do episódio envolvendo o menino Juan em Belford Roxo, que se criou um protocolo de como agir num caso registrado como auto de resistência. Tínhamos uma comissão que debatia a questão da intolerância religiosa, orientação sexual e violência de gênero. Discutíamos a questão racial na Academia de Polícia. Quem olhar para minha administração vai saber que sempre fui uma pessoa comprometida com a questão dos direitos humanos.

Acha que é diferente do Witzel, que usou o cargo de juiz o tempo todo durante a eleição?

Não tenho a menor dúvida disso. Claro que é legítimo: ele foi juiz. Mas é diferente, e uma coisa é certa: não farei nenhuma faixa de prefeita do Rio, como ele fez de governador. Nem vou me lançar à Presidência, nem falar mentiras. Acho até que um gesto soberano do governador, enquanto corre o processo de impeachment, seria voltar para sua casa. Poderia ser um gesto de respeito ao cidadão fluminense. (Witzel continua morando no Palácio Laranjeiras, residência oficial do governador do Rio, mesmo após o afastamento).

Ainda no assunto Polícia Civil, o Eduardo Paes tinha na cabeça números negativos sobre sua gestão durante o debate da Band (aumento nos registros de estupro, por exemplo). Não acha que pode prejudicar sua imagem como gestora?

Não estou preocupada com como ele vai conduzir a campanha dele, estou conduzindo a minha como acho que tem que ser. Tenho indicadores muito bons e vou mostrar isso. Fiz uma coisa que mostra um pouco esse nosso perfil: fizemos seis concursos públicos, reestruturamos as Delegacias de Homicídios. Alguns indicadores podem não ter surtido efeito na minha gestão, mas eu estava preocupada em estruturar a polícia, porque uma gestão é mais do que quatro anos, é a referência que você tem. Entreguei o camarote do Sambódromo, porque a Civil não tem que ter. Não tenho preocupação com quantos jantares eu fiz. Tenho muita tranquilidade de responder a qualquer pergunta. 

 

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