Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

Maringoni critica PM e diz que PSOL não é Black Bloc

Candidato defende as manifestações de rua pelo País e a 'legitimidade social' das ocupações dos sem-teto

Ana Fernandes e Roldão Arruda, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2014 | 21h56

O candidato do PSOL ao governo de São Paulo, Gilberto Maringoni, defendeu nesta quarta-feira as manifestações de rua por mudanças no País e a "legitimidade social" das invasões promovidas pelos movimentos de sem-teto, mas condenou os atos de vandalismo cometidos por grupos como os black bloc. Terceiro participante da série Entrevistas Estadão, Maringoni repudiou as suspeitas levantadas no ano passado por autoridades policiais de que seu partido recrutava militantes dos black bloc e foi enfático em suas críticas à ação da Policia Militar de São Paulo, especialmente na periferia das grandes cidades.

"A polícia paulista tem agido com grau exagerado e exacerbado de violência", afirmou o candidato. "Cabe à polícia proteger a área pública, conter excessos, mas tem que agir com mais civilidade."

Em relação aos atos de vandalismo nas manifestações de rua, disse que seu partido defende protestos pacíficos e condena "aquele tipo de vandalismo feito pelo chamado black bloc". Sobre as suspeitas levantadas pela polícia de que seu partido teria arregimentado militantes desse grupo, afirmou: "Eu posso suspeitar de qualquer coisa, mas provar é outra coisa. O PSOL absolutamente não está envolvido com essa tática black bloc".

Legitimidade social. Em diferentes momentos da entrevista, Maringoni defendeu o direito de organização e de manifestações de massa em defesa de mudanças políticas e sociais. Num desses momentos, foi indagado sobre as ações de ocupações de imóveis por integrantes dos movimentos de sem-teto. Respondeu que elas são sintoma da carência de moradia e dos efeitos da especulação imobiliária nas cidades.

Citou uma estatística segunda a qual 25% dos imóveis estão desocupados. E completou: "Em uma situação de desespero, quem sou eu para falar que uma ocupação não é legítima? Tem sua legitimidade social".

Outra questão enfatizada por Maringoni em diversos momentos da entrevista foi a defesa de uma presença maior do Estado nos serviços públicos. Contrariando o posicionamento de partidos mais liberais na economia e favoráveis à privatização desses serviços e às parcerias público-privadas, o candidato do PSOL criticou a presença de empresas particulares no metrô de São Paulo e a venda de parte do capital da Sabesp - que controla os recursos hídricos no Estado de São Paulo e hoje enfrenta problemas para garantir o abastecimento de água.

Na avaliação de Maringoni, os investimentos feitos pela Sabesp não estariam correspondendo às necessidades reais da população porque boa parte dos lucros tem de ser destinada aos acionistas. "Não vou me contrapor ao direito dos acionistas. Mas a parte estatal da Sabesp tem de crescer. O serviço público é incompatível com o lucro privado", disse.

No mesmo diapasão, Maringoni afirmou que a crise enfrentada hoje pela Universidade de São Paulo (USP), com quase todo o orçamento destinado à folha de pagamento, também se deve ao fato de a instituição ser administrada como entidade privada, com “contas algébricas” para cortar custos e não reajustar salários. "A USP custa porque pesquisa custa", disse.

Sobre o passe livre, bandeira defendida pelos grupos que iniciaram as manifestações de rua em junho do ano passado e incluída no programa de governo do PSOL, o candidato observou que não se trata de uma medida imediata. Disse que o transporte público precisa receber mais subsídios, progressivamente, para então se chegar a tarifa zero.

‘Mentira’. Maringoni foi questionado sobre um post no qual disse que a polícia de São Paulo teria mentido ao afirmar que encontrou material explosivo com dois acusados por atos de violência nos protestos de São Paulo - um laudo oficial disse que o professor Fábio Hideki Harano e Rafael Lusvargh não portavam explosivos. "Uma acusação é feita, uma pessoa é presa por 40 dias e depois se prova que a acusação de que a pessoa portava explosivo não existe. O nome disso é mentira."

Para o candidato do PSOL, a polícia paulista está perdendo a confiança da população. "O índice de resoluções dos crimes de roubo e furto em São Paulo é de 2%. Ou seja, 98% dos casos não tem resolução. As pessoas passam a não acreditar na efetividade uma polícia que não consegue resolver esse tipo de problema."

Em relação à descriminalização da maconha, o candidato disse considerar "muito interessante" a experiência do vizinho Uruguai: "É uma liberalização que acaba resultando em um controle maior, reduzindo a criminalidade".

Ao falar sobre aborto, Maringoni disse que se trata de um problema de saúde pública e defendeu o direitos das mulheres decidirem. "Não é o Estado que regulamenta o que ela faz com o seu corpo."

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