Marina declara voto em Aécio e compara compromissos à carta de Lula em 2002

Terceira colocada na disputa diz que decisão teve como base a incorporação pelo tucano de propostas de seu programa de governo relativas a reforma agrária, questões indígenas e meio ambiente e que alternância de poder fará bem ao Brasil

Edgar Maciel, O Estado de S. Paulo

12 de outubro de 2014 | 21h46

Uma semana após ficar em terceiro lugar na eleição presidencial, Marina Silva (PSB) declarou domingo, 12, em São Paulo, apoio no 2.º turno ao candidato do PSDB, Aécio Neves. No pronunciamento, ela afirmou que a decisão teve como base a carta de compromissos anunciada pelo tucano no sábado e que “a alternância de poder fará bem ao Brasil”. Marina comparou o documento à Carta ao Povo Brasileiro de 2002, do então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

“Aécio retoma o fio da meada virtuoso e corretamente manifesta-se na forma de um compromisso forte, a exemplo de Lula em 2002, que assumiu compromissos com a manutenção do Plano Real, abrindo diálogo com os setores produtivos”, discursou Marina, ao lado do vice de sua chapa, Beto Albuquerque (PSB), em um centro de eventos da Vila Madalena, na zona oeste.

Na carta de junho de 2002, Lula assumia compromissos em relação ao rigor fiscal, respeito a contratos e superávit primário “necessário” para o pagamento de juros da dívida. O documento foi divulgado em meio a turbulências no mercado, provocadas pela expectativa de uma então inédita vitória do PT na corrida presidencial.

Apoiada no 1.º turno por mais de 22 milhões de votos (21,3%), Marina disse que ainda não encontrou Aécio pessoalmente após a votação. “Conversei com ele por telefone durante seu almoço em Pernambuco e apenas anunciei que o apoiaria e daria minha posição publicamente neste domingo.”

Marina negou haver incoerência entre o apoio a Aécio e seu discurso nos últimos dois anos, período em que tentou criar a Rede Sustentabilidade para disputar a Presidência e, após o insucesso, filiou-se ao PSB. Em maio, a então pré-candidata a vice de Eduardo Campos, morto em agosto, chegou a dizer em Palmas (TO) que não havia “como chegar a esta compatibilidade” com o PSDB.

“O que nós estamos fazendo é inaugurar, sim, a nova política. Todos estavam imaginando que seria apenas o apoio como sempre é feito. Mas foi feito em base de um programa”, defendeu Marina domingo. “A mudança proposta por Aécio vai ao encontro disso, de forma coerente.”

Para ela, o tucano assumiu uma “carta-compromisso com os brasileiros”, e não com um pedido individual de apoio. “Rejeito qualquer interpretação de que seja dirigida a mim, em busca de apoio”, afirmou.

No texto, Aécio anunciou as propostas de Marina que serão incorporados ao seu programa de governo. Ele se comprometeu com políticas para reforma agrária, questões indígenas e meio ambiente.

Ao citar os compromissos, Marina deixou aberta a possibilidade de criticar o tucano, caso ele seja eleito e não cumpra algum dos itens. “Votarei em Aécio e o apoiarei, votando nesses compromissos, dando um crédito de confiança à sinceridade de propósitos do candidato e de seu partido e, principalmente, entregando à sociedade brasileira a tarefa de exigir que sejam cumpridos.”

Maioridade. Em 2010, quando disputou a Presidência pelo PV e também ficou em terceiro lugar, Marina não apoiou nem Dilma Rousseff (PT) nem José Serra (PSDB). Domingo, disse que fez isso porque os concorrentes não se comprometeram com pontos de seu programa da época. “A presidente Dilma, principalmente, teve a chance durante quatro anos de encaminhar as propostas com as quais ela se comprometeu. Não há porque continuarmos e apoiarmos esse projeto”, justificou.

Um dos pontos listados por Marina que não foi citado por Aécio é a proposta defendida pelo tucano de reduzir a maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos, apresentada pelo candidato a vice do PSDB, Aloysio Nunes Ferreira. Ela é contra essa ideia, mas alegou que isso não era uma cláusula incondicional. “Nós não apresentamos nossa proposta como imposição”, afirmou Marina. “Apresentamos aquilo que era o mais interessante. Ele (Aécio) abriu um espaço para o debate e isso atendeu as minhas expectativas.”

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