Marighella recebe anistia 'post mortem'

O guerrilheiro Carlos Marighella (1911-1969) recebeu anistia "post mortem". Em decisão publicada na edição de ontem do Diário Oficial da União, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, reconheceu que Marighella, morto numa operação policial na Alameda Casa Branca, em São Paulo, no auge da repressão política, sofreu perseguição do Estado brasileiro. A família do guerrilheiro não pediu reparação econômica.

LEONENCIO NOSSA / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2012 | 02h06

Em 1996, o Estado brasileiro já havia reconhecido a morte do guerrilheiro, acatando decisão da Justiça. Desde 2008, a viúva de Marighella, a ativista social Clara Charf, recebe pensão de R$ 2,5 mil do governo pela morte do marido. O processo que resultou na anistia "post mortem" de Marighella começou em dezembro do ano passado, num encontro da Comissão de Anistia em Salvador, onde o guerrilheiro nasceu e iniciou sua militância política.

Um dos comunistas mais influentes do País no século 20, Marighella foi deputado constituinte em 1946 e fundou, após um racha do PCB, a Ação Libertadora Nacional (ALN), em 1969, movimento de luta armada que atuou nos grandes centros. Ele vivia na clandestinidade quando sofreu uma emboscada de agentes do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).

Nesta semana, foi publicada a biografia Marighella, o Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo, do jornalista Mario Magalhães.

Emboscada. Na noite de 4 de novembro de 1969, uma equipe do DOPS surpreendeu Marighella num Fusca na Alameda Casa Branca, zona oeste de São Paulo. Os agentes monitoravam há dias os passos do guerrilheiro. Um tiroteio foi simulado para encobrir a execução do líder da ALN.

Na biografia do guerrilheiro, o jornalista e escritor Mário Magalhães revelou que ele estava desarmado. A versão de que portava um revólver foi apresentada três semanas depois da morte. A CIA, central de inteligência americana, também tinha um agente infiltrado no grupo de Marighella, que repassava informações sobre ele.

Ainda no final dos anos 1950, Marighella integrava o grupo dos comunistas descontentes com o comando do PCB. O partido liderado por Luiz Carlos Prestes decidiu se afastar da ideia de luta armada como estratégia de chegar ao poder. A saída de Marighella da legenda foi traumática. Ele estava no partido desde os 18 anos, tempo de estudante em Salvador.

Sequestro. Fora do PCB, Marighella fundou uma organização própria, a ALN. Ele dizia acreditar que a luta armada poderia vingar na área rural. Mas foi nos centros urbanos que a ALN se destacou.

Uma das ações armadas de maior repercussão do grupo de Marighella foi o sequestro do embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969, numa parceria com o MR-8, outra organização guerrilheira. Em troca da libertação de Elbrick, a ALN e o MR-8 conseguiram que a ditadura tirasse da prisão 15 presos políticos, que foram expulsos do País.

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