Marco Maia se rebela contra o Planalto

Após ter sido contrariado em indicação, presidente petista da Câmara diz não ser obrigado a acatar 'opiniões', 'muito menos do governo'

DENISE MADUEÑO, EUGÊNIA LOPES / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2012 | 03h03

Um dia depois de suspender a sessão da Câmara sem votar o projeto que cria o Fundo de Previdência Complementar dos Servidores Públicos Federais (Funpresp), o presidente da Casa, Marco Maia (PT-RS), afirmou ontem não ser obrigado a acatar a pauta de votações proposta pelo governo. Maia entrou em rota de colisão com o Palácio do Planalto depois de o governo se recusar a lhe dar o direito de indicar um nome, a ser escolhido por ele, para um cargo de diretoria no Banco do Brasil (BB).

Irritado, o presidente da Câmara encerrou a sessão com o argumento de que não havia acordo entre os partidos políticos para aprovar o Funpresp. Ele nega ter solicitado o direito à indicação para cargo no governo. Mas o comportamento de Maia foi criticado pelos seus colegas de Câmara. Sem querer se expor, deputados atacaram Maia e o acusaram de estar usando a Câmara em benefício próprio.

Ao mesmo tempo, parlamentares contrários à aprovação do Fundo comemoraram a decisão do presidente da Câmara. "Se ele tomou essa atitude em função de uma nomeação, que ele jamais reconhecerá, isso teve um resultado positivo na medida em que não se votou uma matéria tão polêmica. Ele (Maia) mostrou uma grandeza do Poder Legislativo, mesmo que as razões sejam menores", disse o líder do PSOL, deputado Chico Alencar (RJ).

Maia negou ontem que tenha provocado uma crise com o governo, depois de não ter sido atendido em uma indicação para a diretoria do Banco do Brasil. "Não tenho indicação no governo. Essa notícia não condiz com a realidade. Os diálogos sobre cargos são feitos pelo meu partido, que tem a legitimidade de discutir composição de governo com a presidente. Se tivesse alguma indicação a fazer, o que não é o caso, e que não fiz, apresentaria ao mesmo partido", garantiu.

O apadrinhado político do presidente da Câmara seria Sérgio Ricardo Miranda Nazaré, que até recentemente ocupava a diretoria de Clientes Pessoas Físicas. Funcionário de carreira do Banco do Brasil, Sérgio Ricardo será indicado para outra função no Brasil. Um dos motivos da irritação de Maia com o Planalto seria um eventual rebaixamento de seu suposto apadrinhado político, com o seu deslocamento para Angola. "Ele (Sérgio Ricardo) tem sete anos como diretor do Banco do Brasil. Ele não foi exonerado nem demitido. Ele foi indicado para outra função do mesmo nível que exercia", afirmou ontem Omar Barreto Lopes, gerente executivo da assessoria de imprensa do BB.

Em reunião do Colégio de Líderes da Câmara, na última terça-feira, ficou acertado que o projeto de criação do Fundo de Previdência Complementar para os Servidores entraria na pauta da Câmara após o Carnaval. Mas o governo pressionou para que a proposta fosse votada anteontem à noite.

Rebelde. "Não sou obrigado a estar acatando a opinião do governo a todo o momento", disse ontem Maia. Ele observou que tem conduzindo os trabalhos de forma aberta e democrática, ouvindo os líderes, governo, oposição e setores organizados, mas que isso não significa que ele é obrigado a acatar essas opiniões. "A definição da pauta é do presidente da Câmara, que eu tomo de acordo com as minhas convicções. O fato de ouvir as opiniões não significa que tenho de acatar, muito menos do governo."

Maia foi escolhido para o carto de presidente da Câmara dos Deputados no ano passado, contra a vontade da cúpula petista, que preferia o então líder do governo, Cândido Vaccarezza (SP). Mas o apoio de aliados acabou lhe garantindo a vitória.

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