Léo Martins/Estadão
Léo Martins/Estadão

Márcio França diz que seus oponentes 'estão amarrados na candidatura de presidente' em 2022

Ex-governador diz ainda que discutir a vacinação compulsória contra covid-19 é 'contar com o ovo antes da galinha'

Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2020 | 11h14

O ex-governador Márcio França (PSB) participou nesta quarta-feira, 21, da série de sabatinas da Rádio Eldorado com os candidatos à Prefeitura de São Paulo. Na conversa, o ex-governador disse que a discussão sobre a vacinação compulsória contra covid-19 é precipitada e acusou os seus oponentes de politizar a questão por estarem amarrados a eventuais candidaturas presidenciais de 2022. 

"Fica parecendo que é uma discussão ideológica porque dá a impressão de que é contra o Bolsonaro ou o Lula. Aqui em São Paulo, a eleição é de prefeito, não é eleição de presidente. Esses caras, cada um deles, os candidatos principais, estão amarrados na candidatura de presidente", afirmou França. "Um que apoia o presidente que quer voltar, outro que apoia o presidente que quer ficar e o terceiro que apoia o governador que quer ser presidente", disse, em referências ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva - cabo eleitoral de Jilmar Tatto (PT) e próximo de Guilherme Boulos (PSOL) -, ao presidente Jair Bolsonaro - que apoia Celso Russomanno (Republicanos) - e o governador João Doria (PSDB), aliado do atual prefeito tucano Bruno Covas.

"Isso é contar com o ovo antes da galinha", afirmou, sobre a discussão da vacina. "Chega a ser engraçado, é o quarto prazo que o governador da para fazer essa vacina. Se tem uma vacina, é bom que todo mundo tome. Mas você não consegue ir de casa em casa obrigando as pessoas a tomar", disse. França aproveitou a ocasião para defender a ideia de que famílias religiosas não podem ser obrigadas a tomar vacina, noção rechaçada por especialistas em saúde e que encontra decisões contrárias na Justiça. 

Ao longo da entrevista, o candidato também explicou a sua intenção de contratar pessoas para ocupar apenas 70 dos 7 mil cargos de livre nomeação disponíveis na Prefeitura, com o fim de poupar R$ 750 milhões da verba prevista no orçamento do ano que vem. Uma parte desse dinheiro seria então usada para abrir postos de saúde e escolas da rede pública aos finais de semana, feriados e férias. Ele afirmou que cada cargo de livre nomeação custa em torno de R$ 10 mil por mês à Prefeitura, que é o valor do salário, mais encargos. 

"Nomeando só 70 pessoas, no lugar das 7 mil possíveis de livre provimento, nós vamos ter aí uns R$ 750 milhões que vão estar disponíveis porque estavam previstos no orçamento para serem gastos. E aí, não sendo gasto, você usa esse recurso para fazer a outra parte, que é abrir as unidades", afirmou. "Aqui em São Paulo, nós estamos com 1,3 milhão de pessoas esperando exame, consultas e pequenas cirurgias. Só de traumatologia tem 130 mil pessoas esperando. E as crianças da rede pública não estão tendo aula remota."

França também alegou que o seu plano de pagar uma renda municipal a moradores da cidade "difere totalmente" de planos semelhantes propostos por outros seis candidatos. 

"Nós propomos uma grande frente de trabalho, que serve como uma renda básica", afirmou. "Em São Paulo estamos com 10 milhões de adultos e 2,7 milhões estavam recebendo os R$ 600, que agora são R$ 300."

Ele afirmou que, caso eleito, 150 mil adultos e que 40 mil jovens de 18 anos serão empregados pela Prefeitura para fazer serviços como limpeza, manutenção de praça, ajuda em creches. Eles trabalhariam seis horas por dia durante três dias da semana em troca de R$ 600 enquanto os jovens trabalhariam quatro horas por dia. Nos outros dois dias da semana, eles seriam treinados em cursos de qualificação.

"De onde vai sair esse dinheiro? Um pedaço vai sair da sobra do que é economizado com cargos em comissão", afirmou. Ele disse ainda que o "pedaço mais consistente" da verba sairá do R$ 1,7 bilhão que estão em contas de Organizações Sociais que fizeram convênios com a Prefeitura e que cujos contratos não foram auditados. "A Prefeitura não auditou e não requereu de volta o dinheiro", disse. 

Para Entender

Veja propostas de Márcio França

Confira quais são os principais pontos do plano de governo do candidato do PSB para a Prefeitura de São Paulo nas áreas da Saúde, Educação, Emprego, Transporte, Segurança, Meio Ambiente e Habitação

Perguntado se o nome do seu plano econômico - batizado de "Plano Márcio" em alusão ao Plano Marshall, de recuperação das economias após a Segunda Guerra Mundial - não poderia levar a uma acusação de autopromoção, França disse que ainda não é prefeito e o plano não terá o seu nome se for implementado em uma eventual gestão sua. 

O governador João Doria teve bens bloqueados nessa terça-feira, 20, em ação civil que aponta improbidade administrativa por propaganda de programa quando era prefeito.  

"O erro do Doria foi usar dinheiro público (para se autopromover)", afirmou França. "Eu não estou usando dinheiro público, eu estou dando a minha sugestão. No ano que vem (caso eu seja eleito), ele terá outro nome", prometeu.

Perguntado sobre a sua atuação na greve dos caminhoneiros e se passou a bola para o governo federal, ele disse que fez o contrário. "Eu trouxe a bola de Brasília. Se você perguntar para os caminhoneiros no Brasil todo qual a única conquista que eles tiveram naquele final daquela greve, quando ninguém teve coragem de se meter, foi exatamente o eixo levantado no pedágio que eu isentei aqui em São Paulo. Isso foi o motivo principal para a volta dos caminhoneiros. À época, o então presidente Michel Temer havia se comprometido a fazer tabelamento de frete, de fato depois ele tabelou. Mas você se recorda que tinha 13, 14 dias de greve quando eu entrei nesse assunto", afirmou.

França alegou que nenhum gestor público queria se responsabilizar pelo assunto na época porque a população era favorável à greve dos caminhoneiros, mas disse que seria uma irresponsabilidade se omitir, traçando paralelos com o que ele considera omissões na atual gestão da pandemia e no gerenciamento da Cracolândia.  

"Ninguém é obrigado a ser prefeito, mas saiba que, se você se candidatar, saiba que você vai ter que tomar decisões com pulso", afirmou.

No caso da pandemia do coronavírus, o Supremo Tribunal Federal reconheceu em abril, atendendo a um pedido do PDT, que Estados e municípios têm competência, assim como o governo federal, para adotar políticas de enfrentamento à crise. Na ocasião, a administração do presidente Bolsonaro tentava suprimir medidas de distanciamento social implementadas por cidades e Estados, inclusive pelas gestões de Covas e Doria. 

Ainda na sabatina, França disse que pretende manter a tarifa de ônibus e dar tarifa zero aos domingos com dinheiro que virá da autorização de publicidade no ônibus. Ele afirmou que a Prefeitura não consegue mudar o sistema de concessão das empresas de transporte porque teria que indenizar as companhias em caso de rescisão dos contratos.

Programação

As sabatinas da Rádio Eldorado tiveram início nesta segunda-feira, 19. Além de França, já foram entrevistados o candidato do PSOL à Prefeitura de São Paulo, Guilherme Boulos, e o prefeito Bruno Covas, que concorre à reeleição. As entrevistas duram 20 minutos, sempre a partir das 8h, e são comandadas por Carolina Ercolin, Haisem Abaki e jornalistas convidados do Estadão.

Todas as entrevistas são transmitidas em FM 107,3, no site radioleldorado.com.br e em facebook.com/radioeldorado.

Veja abaixo a lista dos entrevistados:

19.10 - Guilherme Boulos (PSOL) 

20.10 - Bruno Covas (PSDB)

21.10 - Márcio França (PSB)

22.10 - Arthur do Val (Patriota)

23.10 - Celso Russomanno (Republicanos)

26.10 - Filipe Sabará (Novo)

27.10 - Joice Hasselmann (PSL)

28.10 - Jilmar Tatto (PT)

29.10 - Orlando Silva (PC do B)

30.10 - Andrea Matarazzo (PSD)

02.11 - Vera Lúcia (PSTU)

03.11 - Marina Helou (Rede)

04.11 - Levy Fidelix (PRTB)

05.11 - Antonio Carlos (PCO)

 

 

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