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Mãos livres

A recusa do PSD a assumir um ministério deixa o partido livre para fazer o jogo político que lhe for mais conveniente. Sem assento na Esplanada, Gilberto Kassab tem um problema a menos: não precisará passar pela etapa da cobrança pelo "abandono dos cargos" nem construir um discurso para, se for o caso, contrariar a promessa de ficar com Dilma Rousseff em 2014.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h07

Oficialmente ele diz que é "cedo" para discutir a próxima eleição, mas em verdade o gesto tem tudo a ver com a próxima eleição. Uma decisão cautelosa e, sobretudo, calculada.

O ex-prefeito de São Paulo anunciou o recuo (que obviamente não classifica assim) ressalvando que ainda apoia a presidente na disputa pela reeleição.

Palavras que não necessariamente se escrevem. Até outro dia mesmo o governador Eduardo Campos também dizia isso, mas parou de dizer na proporção direta em que o PSB e simpatizantes falam cada vez mais frequente e abertamente na candidatura dele para presidente.

O governo abriu a temporada eleitoral antes do tempo a fim de mudar a agenda que estava cheia de assuntos desagradáveis (mensalão, possibilidade de investigação sobre atos de Lula, críticas à condução da economia, caso Rosemary etc.) e agora precisa administrar a antecipação que teve seu efeito bumerangue ao animar outros blocos a saírem a campo.

De onde um esperto como Gilberto Kassab não ia imobilizar suas fichas numa aposta só. Embora por enquanto nada indique que poderia apoiar Aécio Neves, também não interessa a ele brigar com o PSDB que ainda está no controle político do Estado mais forte da federação e seu reduto.

Os tucanos já vinham avisando: era só o PSD assumir um ministério para o partido oficializar o rompimento com ele.

Fora isso, de Kassab pode-se dizer que foi um dos primeiros a farejar as possibilidades de Eduardo Campos.

Há pouco mais de dois anos o então prefeito tentou articular a fusão do DEM com o PSB. Não deu certo, mas o governador de Pernambuco ajudou a criar o PSD e pode ser uma opção para Kassab em 2014.

À medida que aparecem alternativas, menos sólida vai parecendo a fortaleza governista, mais movimentado fica o ambiente e com maior vigor as mariposas voam em busca de outros focos de luz.

O governo quis assim, liberou geral, mas não levou em conta o dito que aconselha a ter cuidado para que os desejos não se transformem em armadilhas.

Só tem tamanho. De reformadora a chamada reforma do ministério não tem nada. Na sexta-feira, a Folha de S. Paulo publicou uma entrevista com o empresário Jorge Gerdau, presidente da Câmara de Políticas de Gestão da Presidência da República, em que pela segunda vez (a primeira foi ao Valor Econômico) ele faz severas críticas à quantidade de ministérios.

Antes Gerdau havia dito que era impossível administrar quatro dezenas (39, para ser precisa) de pastas. Agora foi mais incisivo: acha que o Brasil chega ao limite da "burrice, da loucura ou da irresponsabilidade" ao se render à lógica do gigantismo.

Segundo ele, a presidente trabalha com "meia dúzia" de ministérios realmente importantes. "O resto anda com delegações de menos peso."

Nessa perspectiva é que se enquadram as mudanças que equivocadamente são chamadas de reforma. Não mudam coisa alguma, não visam à melhoria de desempenho, não atendem a um projeto delineado de País e a maioria das pastas não tem importância. Quando fala em "delegações de menos peso", Gerdau é elegante. Evita dar à coisa a vulgar, porém real, definição de "penduricalhos".

Todo mundo sabe disso: a presidente, os ministros e os partidos participantes da partilha, que fingem dar duro na administração e ela faz de conta que compartilha de fato o poder.

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