Mágoa dos aliados com as demissões preocupa Planalto

Líderes da base de Dilma acham que tratamento especial ao PT aumenta insatisfação de partidos dos ministros que saíram

CHRISTIANE SAMARCO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

06 de fevereiro de 2012 | 03h04

As demissões em série de sete ministros de Estado e dezenas de funcionários do segundo escalão federal envolvidos em denúncias de irregularidade deixaram um rastro de mágoa na base governista que ameaça a tranquilidade da presidente Dilma Rousseff no Congresso. Em conversas reservadas, líderes dos vários partidos da base, inclusive o PT, avaliam que o governo terá muito trabalho para administrar os insatisfeitos - que ameaçam dar o troco na hora de votar temas de interesse do Planalto.

Embora o governo tenha ampla maioria na Câmara e folga de votos no Senado, o clima predominante entre os aliados é de insatisfação com o Planalto e de má vontade com o PT. A queixa mais frequente em todas as legendas da base é a de tratamento diferenciado a ministros petistas envolvidos em denúncias.

O processo de fritura política dos ministros e as trocas no segundo escalão atingiram vários parlamentares que também se julgam vítimas e engrossam a lista dos descontentes. Não foi à toa que o deputado Nelson Meurer (PP-PR) disse que a troca nas Cidades - de onde saiu Mário Negromonte, merecia "pêsames, e não para parabéns". Até o novo líder do PT no Senado, Walter Pinheiro (BA), preocupou-se com a demora presidencial em consumar a demissão do conterrâneo, já decidida e anunciada.

O petista admite que a sequência de demissões consumiu parte do capital político do governo no Congresso, sobretudo por conta da demora em concretizar algumas trocas.

"Além de fritar pessoas, isso vai dinamitando pontes, eliminando interlocutores e minando a relação entre o governo e sua base", diz Pinheiro.

Preocupado com a situação de Negromonte, o líder do PT chegou a confessar, às vésperas da demissão, que a despeito da torcida da bancada baiana pela permanência do conterrâneo, estavam todos "angustiados por um desfecho rápido para não verem um companheiro sofrendo". Pinheiro reconhecia que "um ministro na alça de mira o tempo todo não tem como trabalhar".

Até no episódio da demissão do ex-ministro dos Transportes e senador Alfredo Nascimento (PR-AM), fulminado há seis meses em pleno final de semana e sem aviso prévio, o número de vítimas convertidas em dúvidas no Congresso se multiplicou. Como a degola atingiu o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit), o padrinho do diretor-geral demitido, senador Blairo Maggi (PR-MT), saiu tão magoado quanto Nascimento. Isto, sem contabilizar a repercussão na bancada da dispensa de mais de 20 funcionários do ministério, todos ligados ao PR.

O líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR), adverte que, desde então, o PR está fora da base do governo e diz que é importante trazer de volta o aliado o quanto antes. "Temos que trabalhar para dirimir as mágoas porque o PR não se sente representado no ministério", sugere Jucá. Desde a saída de Nascimento, a pasta ficou sob o comando do antigo secretário executivo, Paulo Sérgio Passos, e, para desespero da bancada, o Planalto não fala em trocar o ministro. "Hoje o PR tem oito senadores", alerta o líder do governo.

Desconfiança. Uma bancada que soma 10% dos 81 senadores parece pequena, mas não em um ambiente de desconfiança e insatisfação generalizadas. Que o dia o PMDB. Ao resumir o sentimento do partido na relação com o governo, um dirigente nacional afirmou que "o PMDB terminou o ano com raiva e começou 2012 com ódio do governo".

A cúpula do partido está convencida de que a Controladoria-Geral da União (CGU) só funciona para os aliados. Os peemedebistas entendem que, em se tratando de PT, as irregularidades apuradas nunca vazam. No Ministério do Turismo, acham que pagaram a conta dos malfeitos da administração anterior do PT. Um dirigente da sigla lembra que o ex-ministro e deputado Pedro Novais (PMDB-MA) só caiu após a denúncia de que sua governanta havia sido paga com dinheiro da Câmara e completa: "Do escândalo das prisões de funcionários, que resvalaria no PT, ele escapou".

Também é grande o desconforto no PSB do ministro da Integração, Fernando Bezerra. A queixa geral é a de que o governo demorou demais para defendê-lo - ele era acusado de favorecer suas bases na distribuição de verbas para enchentes. Os socialistas também reclamaram do tratamento diferenciado ao PT, uma vez que Bezerra teve de se explicar no Congresso e o ministro petista do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, não.

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