Lupi agora se declara: 'Dilma, eu te amo'

Após ter sido repreendido por declarações desastrosas, ministro pede desculpas a presidente em audiência na Câmara e nega corrupção na pasta

JOÃO DOMINGOS, TÂNIA MONTEIRO / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2011 | 03h04

O ministro do Trabalho, Carlos Lupi, admitiu ontem que podem existir falhas em alguns dos quase 500 convênios assinados com ONGs, mas negou a existência de um esquema de cobrança de propinas para favorecer o PDT. "Reafirmo: corrupção no Trabalho não há; corrupção no PDT não há", disse, durante audiência de cerca de quatro horas na Câmara dos Deputados em que acabou soltando um "eu te amo" à presidente Dilma Rousseff. Lupi foi convocado para explicar suspeitas de irregularidades nos convênios.

O ministro já havia se desculpado com a presidente por ter dito, em entrevista, na terça-feira, que só sairia do Trabalho se fosse "abatido à bala". Desculpou-se novamente ontem, na Câmara, incontáveis vezes. "Presidente Dilma, desculpas se fui agressivo. Não foi minha intenção. Eu te amo", disse Lupi. "Peço desculpas todo dia, porque todo dia eu erro. Quem trabalha muito erra", afirmou aos deputados. Na quarta-feira, a presidente determinou à ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) que advertisse Lupi pelas declarações, tidas como desafiadoras à autoridade dela.

Procurada pelos repórteres, ontem, a presidente Dilma negou que exista uma crise entre ela e o ministro Carlos Lupi ou no Ministério do Trabalho. "Que crise no Ministério do Trabalho?", perguntou. Ela não quis comentar as declarações do ministro, de que só sai à bala. "Vocês acham mesmo que vou responder sobre isso?". Depois, citou uma frase que deu a entender que não vai substituir Lupi pelos próximos dias.

"Passado é simplesmente passado", disse a presidente ao final da cerimônia de sanção da lei que amplia as faixas do Simples Nacional e do Empreendedor Individual.

Tensão. O depoimento de Lupi teve momentos de descontração, de alguma tensão, uma quase briga corporal entre dois deputados e muitas negativas sobre a existência de um esquema de corrupção. Igual a outros ministros que já prestaram esclarecimentos em audiências públicas na Câmara, Lupi criticou a cobertura da imprensa a respeito das notícias que envolvem seu ministério. "Me sinto num tribunal da inquisição, que condena sem provas, sem que tenha sido citado nem sequer por anônimos que fazem as denúncias." Lupi afirmou que, ao contrário do que muitos pensam, vai provar que os meios de comunicação erram.

Deputados da oposição defenderam novamente o afastamento de Lupi do cargo de ministro até que as denúncias sejam esclarecidas. "Não pode e não dá para negar que o senhor tem responsabilidade com o que está acontecendo no ministério. Se Dilma o escolheu, ela também tem responsabilidade", afirmou o deputado Vaz de Lima (PSDB-SP). Ao responder ao líder do PSDB, Duarte Nogueira (SP), Lupi perdeu a calma. Disse que Nogueira age com ódio. O tucano retrucou. "Eu ajo com serenidade. Ódio eu sinto no senhor."

Dois deputados de Pernambuco quase se estapearam durante a audiência.

Paulo Rubem Santiago (PDT) criticou Silvio Costa (PTB), que fazia interrupção quando outros falavam. Este último desdenhou: "Não conheço o senhor. O senhor é mesmo quem?". Paulo Rubem levantou-se e foi pra cima do colega, gritando: "O senhor me respeita. Não sou palhaço. Não venha fazer teatro às minhas custas". Foi contido.

Depois, mesmo tendo perdido a calma, disse que, como médico, aconselhava Lupi a cuidar da saúde. "O senhor está acima do peso, sua resposta sobre a questão da bala mostra que está estressado e nervoso. O senhor pode ter um AVC." Lupi, que havia se gabado de ser "pesadão" quando falou da necessidade de uma bala para tirá-lo do ministério, não disse se vai cuidar da saúde.

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