Tiago Queiroz|Estadão
Tiago Queiroz|Estadão

Lulinha chega lá com o tucano João Doria

Marqueteiro, que iniciou a carreira na campanha de rádio de Lula em 1989, comandou a estratégia do prefeito eleito pelo PSDB neste ano

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2016 | 05h00

Luiz Flávio Guimarães, ou Lula para os amigos, tinha 22 anos quando participou como voluntário de sua primeira campanha política. O ano era 1989 e o candidato era outro Lula, o azarão Luiz Inácio Lula da Silva, do PT. Recém-formado em jornalismo pela PUC-SP, “Lulinha” era um faz-tudo dedicado na equipe de rádio da campanha.

Na primeira eleição após a redemocratização, o ex-sindicalista furou a fila e chegou ao segundo turno com uma campanha memorável, que ficou marcada pelo slogan “Lula Lá”. No final, porém, acabou perdendo para Fernando Collor, o caçador de marajás.

Pegou gosto pela coisa e nunca mais largou. Depois de trabalhar como produtor dos apresentadores Faustão e Gugu Liberato, trabalhou nos bastidores de campanhas do PSDB ao PCdoB, passando pelo PMDB, mas quase sempre em posições intermediárias. Foi em 2014 que se tornou um player nacional ao atuar na campanha de Eduardo Campos/Marina Silva, que naufragou depois de experimentar a liderança após a morte do candidato do PSB.

Em 2016, 27 anos depois do “Lula Lá”, foi Lulinha, de 49 anos, quem chegou lá. Terceira (e mais barata) opção do então candidato à Prefeitura de São Paulo João Doria, o jornalista comandou a bem-sucedida estratégia de comunicação que levou o tucano a ser a sensação do primeiro turno.

Com orçamento de R$ 8 milhões, pegou o candidato desacreditado pelo próprio PSDB, sem nenhuma experiência eleitoral no currículo e com 5% nas pesquisas de intenção de voto.

Xadrez. Com um tempo de TV generoso e mais dinheiro que os rivais, Lulinha e seu sócio, o diretor de criação Átila Francucci, de 51 anos, subverteram a lógica recorrente nas estratégias para capitalizar o desencanto do eleitorado com a política e, principalmente, com o PT.

“Campanha eleitoral é como xadrez. Ganha quem erra menos. Fomos favorecidos pela conjuntura, que soubemos interpretar bem”, diz o marqueteiro ao Estado. Três dias depois da vitória de Doria, ele recebeu a reportagem no espaçoso estúdio de sua produtora, em Perdizes, na zona oeste.

Aparentava cansaço e alívio. Sem as amarras da agenda alucinante de campanha, sentiu-se à vontade para avaliar o processo e revelar o que estava programado para o segundo turno. “A conjuntura era muito favorável ao cara que se coloca como não político e antipetista. Esse campo era ocupado pelo Celso Russomanno. Ninguém sabia que existia alguém que ocupava a área azul. João, então, passou a ser a figura antipetista em contraponto ao candidato do PRB.

As pesquisas apresentadas pelo sociólogo Antonio Lavareda mostravam que o perfil de Russomanno era frágil. Além de acumular problemas nas pessoas física e jurídica, o que poderia fornecer farta munição de ataque, os eleitores não viam nele um perfil executivo.

No fim de agosto, quando Doria começou a subir nas pesquisas, Lavareda fez uma apresentação dos resultados dos últimos levantamentos ao comando da campanha e concluiu: havia chegado a hora de desconstruir o deputado do PRB.

Lulinha e o candidato rejeitaram a ideia. Se ataques costumam ter efeitos colaterais ruins para quem já é conhecido, no caso de um estreante na política poderia ser desastroso. Poucos dias depois, porém, Marta Suplicy tomou a iniciativa de atacar Russomanno, enquanto Fernando Haddad atacava a candidata do PMDB. 

Três dias antes do primeiro turno, as pesquisas internas apresentaram dois cenários. Ou Doria venceria no primeiro turno, ou enfrentaria Russomanno no segundo. “O Haddad seria o adversário mais difícil. Ele é o mais preparado. É um bom quadro, tem consistência”, diz Lulinha.

Nesse cenário, a eleição se transformaria mais uma vez num grande plebiscito. No caso de Marta, alta rejeição e erros políticos a tornavam uma adversária frágil. “O desafio dos colegas era muito grande com a Marta. Ela saiu do PT, onde fez sua carreira. E foi para o PMDB, que foi o algoz do ‘golpe’. Outro problema foi fazer um vice que falava mal da gestão dela e trazer o PSD, do Kassab.

Se houvesse um segundo turno, entretanto, era no antipetismo que residiria a força de Doria. “O eleitorado da capital é mais conservador que progressista”, pontua o marqueteiro.

Gesto. Quando a conversava caminhava para o final, o fotógrafo flagrou Lula fazendo de forma involuntária o gesto com os dedos que foi a marca da campanha: os dedos indicativo e médio na forma de “v” em posição horizontal. “Detesto esse símbolo. Foi o (publicitário) Nizan Guanaes que criou, nas prévias. Acho bobo. Coisa de político velho.

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