Lula virou 'presidente adjunto', afirma FHC

Em evento no Rio, tucano chama de 'caso de psicanálise' crítica do PT a seu governo

VINICIUS NEDER / RIO , O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2013 | 02h05

Fernando Henrique Cardoso afirmou ontem que seu sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva, que deixou o Palácio do Planalto há mais de dois anos, "está inaugurando uma espécie de Presidência adjunta" no País.

A declaração do ex-presidente tucano foi dada ontem no Rio de Janeiro, durante uma série de seminários na Casa das Garças, em evento no qual seu ex-ministro da Fazenda Pedro Malan foi homenageado por causa dos seus 70 anos.

Ela ocorre num momento em que Lula assume informalmente a articulação política do governo da sua afilhada política e sucessora, Dilma Rousseff, e dá o tom do discurso petista para as eleições de 2014. Na quarta-feira, Lula "lançou" a candidatura de Dilma à reeleição e defendeu que o partido faça comparações sobre o desempenho dos governos petistas com o governo de FHC.

Na festa de Malan, o ex-presidente tucano voltou a comentar as comparações feitas pelos adversários políticos. "A relação do PT comigo é de psicanálise. Tem que tirar o pai da frente! Eles sabem que quem fez a estabilização fomos nós. Não sou psicanalista. Não opino, mas não caio na conversa", disse FHC.

Ele já havia divulgado um vídeo na internet no qual chamou as comparações dos petistas - a mais recente feita em uma cartilha sobre economia distribuída à militância - de "picuinhas".

Tanto FHC quanto Malan afirmaram ontem que os petistas têm uma "visão maniqueísta".

"Para o bem do Brasil, é preciso que as pessoas respeitem as regras e entendam que não devem tratar o adversário como inimigo. Infelizmente, a tática de toda a vida do PT tem sido o oposto a isso", afirmou FHC, cujas declarações foram dadas em entrevista a jornalistas depois de discursar em seminário no Instituto de Estudos de Política Econômica Casa das Garças, um tradicional reduto de economistas tucanos do Rio de Janeiro.

Na cartilha distribuída à militância nesta semana - na festa de comemoração dos dez anos do PT no comando do Planalto -, a direção do partido chama o governo FHC (1995-2002) de "neoliberal" e o período petista, com os governos Lula (2003-2010) e Dilma (desde 2011), de "desenvolvimentista". O material petista usa números da economia para fazer as comparações, todas favoráveis a Lula e Dilma.

Média. "Sempre me criticaram porque o crescimento era baixo. No meu período, o Brasil crescia mais do que a média do mundo e em geral mais do que a média da América Latina. Agora ele está ao contrário, está crescendo menos. Mas o que regula o crescimento são os ciclos do capitalismo", disse FHC. Em sua avaliação, o governo petista abusa do lançamento de pacotes. "É o Cabo Canaveral: lança o foguete, mas o foguete cai", afirmou o tucano.

FHC também ressaltou a importância do seu governo no combate à inflação. "Inflação faz mal, especialmente ao povo. Quando fiz o Plano Real, esse pessoal que está no governo era contra. E muitos achavam que um pouquinho de inflação não faz mal", disse o ex-presidente.

Transição. O primeiro a criticar o que chamou de visão maniqueísta na comparação entre os governos do PT e do PSDB foi Malan, em discurso de agradecimento pela homenagem. Ele citou como exemplo contrário a esse "maniqueísmo" a transição política de 2002, último ano de FHC, e o início de 2003, primeiro ano de Lula no Palácio do Planalto. O processo de transição de um governo para outro foi elogiado tanto por tucanos quanto por petistas.

O evento no qual Malan foi homenageado reuniu a nata do pensamento econômico liberal e muitos ex-colaboradores do governo do PSDB, como Edmar Bacha, Pérsio Arida e Gustavo Franco. Economistas famosos internacionalmente, como o ex-secretário do Tesouro dos EUA Larry Summers e o presidente do Banco Central de Israel, Stanley Fischer, também participaram do seminário.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.