Lula tentou 'tapar o sol com a peneira', diz FHC

Tucano diz que seu sucessor tenta, em vão, desmontar o escândalo do mensalão, mas evita comentar encontro do petista com o ministro Gilmar Mendes

CLÁUDIA TREVISAN, CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2012 | 03h22

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou "tapar o sol com a peneira", caso tenha realmente pressionado o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes a adiar o julgamento do mensalão, afirmou ontem seu antecessor, o tucano Fernando Henrique Cardoso.

"Tem a tese de que o mensalão foi uma farsa, desde aquela declaração que ele deu em Paris, com a qual tentou minimizar o mensalão. Se ele fez isso, e eu não posso afirmar porque não tenho dados, ele está insistindo na mesma tese", declarou FHC em Pequim, onde esteve para falar a empresários e investidores em encontro promovido pelo banco Itaú.

Ressaltando não saber o que ocorreu no encontro entre Lula e Gilmar Mendes, o tucano observou que "tentativas de tumultuar uma decisão dessas, de qualquer dos lados, não ajudam".

Segundo ele, "o Brasil avançou muito e chegou o momento em que essas coisas têm que ser encaradas com naturalidade, com normalidade". O ex-presidente tucano foi responsável pela nomeação de Gilmar Mendes para o STF, em 2002.

Na avaliação de FHC, a eventual pressão seria ainda mais "ilegítima" se Lula ainda fosse presidente. "Como cidadão, ele tem até mais liberdade. Ainda assim, acho que temos que guardar a distância necessária para que as instituições tenham sua respeitabilidade", afirmou FHC.

Para ele, é importante que haja um julgamento. "É o que o País todo espera, que haja um julgamento e que o julgamento seja correto, que o que está lá nos autos seja objeto de sanção", ressaltou o ex-presidente. "O País espera que o tribunal atue com independência e objetivamente nos diga, 'é verdade' ou 'não é verdade'. Acho que é importante manter a confiança nas instituições e o Supremo é uma instituição importante", disse.

"O resto, para mim, é secundário, se o Lula fez isso ou aquilo. Se fez, não deveria fazer. E, se fez, os ministros têm obrigação de atuar, independentemente de terem sido pressionados, se é que foram", afirmou FHC, em conversa com jornalistas durante um intervalo do evento.

Confiança. Fernando Henrique disse ainda acreditar que as instituições brasileiras se consolidaram bastante. "O próprio Supremo Tribunal mostrou independência nas últimas decisões que tomou, decisões difíceis, na questão do aborto, por exemplo, na questão da maconha", ponderou.

O ex-presidente apresentou uma visão positiva do Brasil, construída ao longo dos últimos anos e governos, e deu crédito a Lula pelo aumento dos investimentos na área social.

"O Brasil mudou muito e as razões da mudança são várias, desde a democratização, a abertura da economia, a estabilização da moeda, as reformas patrimoniais, a privatização, a mudança da cultura do Estado, a questão regulatória, até as medidas sociais, que começaram há muito tempo e foram se acelerando no meu governo e mais ainda no governo Lula", disse.

Mas FHC ressaltou que ainda há muito a ser feito e citou a educação, o respeito à lei, o acesso à Justiça, o fim da impunidade e a estrutura política. "Os partidos têm dificuldade de expressar a opinião do País. Eu sou confiante. Temos avançado, vamos avançar mais, sobretudo porque instalamos no Brasil a democracia. Seja qual for a ideia de quem manda, essa ideia não se pode implementar sem negociar."

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