Lula repete com ministro script da campanha de 1998

Bastidores: Vera Rosa

O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2011 | 03h05

A pressão exercida pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para que a senadora Marta Suplicy desistisse de disputar a Prefeitura de São Paulo reflete o desfecho de uma relação desgastada entre criador e criatura. Foi Lula que, em 1998, inventou a candidatura de Marta ao governo de São Paulo, mas agora a descartou com o mesmo argumento lançado naquele ano: o de que o PT precisa de uma "cara nova" na política.

Em maio, num sinal de que sua investida em prol do ministro da Educação, Fernando Haddad, era para valer, Lula desmarcou na última hora um almoço na casa de Marta, em Brasília. O encontro, em meio à crise política, foi para o ex-presidente dar voz de comando aos senadores do PT, apelando para que eles não baixassem a guarda na defesa do então ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci.

Estava tudo pronto para a conversa no apartamento de Marta, mas, a pedido de Lula, a reunião foi transferida para a casa de Gleisi Hoffmann, que lá perguntou a ele se valia a pena o PT "queimar gordura" por um projeto pessoal de Palocci. Menos de um mês depois, Gleisi ocupou a cadeira do titular na Casa Civil.

O cenário político que une Lula, Marta e Palocci é marcado por uma relação de obediência, devoção e mágoas. Há 13 anos, quando ainda tentava chegar ao Palácio do Planalto, Lula impôs o nome de Marta ao partido, na disputa contra o então governador Mário Covas (PSDB).

Convencido de que a deputada federal de primeiro mandato poderia atrair os votos das classes média e alta para o PT, Lula pediu a Palocci que renunciasse à pré-candidatura ao Palácio dos Bandeirantes. Palocci desistiu e, desde então, tornou-se um dos melhores amigos de Marta.

A desistência de Palocci, porém, não evitou a prévia no PT, em 1998. A então deputada foi obrigada a bater chapa com Renato Simões, que não tinha a menor chance, mas representava as correntes xiitas do PT que resistiam à mão de ferro de Lula.

A eleição ao governo de São Paulo foi vencida naquele ano por Covas, mas o trabalho de Lula para a "construção" de Marta tinha meta mais ambiciosa. Dois anos depois, na sucessão municipal de 2000, ela conquistou a Prefeitura de São Paulo, derrotando Paulo Maluf, hoje aliado do PT, e superando a marca dos 30% que o partido sempre manteve na capital.

O isolamento de Marta no PT agravou-se depois da corrida de 2008, quando ela perdeu pela segunda vez a Prefeitura. Logo depois, rompeu com seu grupo e comprou muitas brigas. Agora, Lula quer emplacar Haddad com a bandeira da "cara nova" para enfrentar o PSDB. Foi com esse argumento que ele ungiu Dilma Rousseff ao Planalto, em 2010. Tudo depende, no entanto, das conveniências políticas. No ano passado, Lula também disse que o PT errava ao não repetir nomes para ultrapassar a marca de 30% em São Paulo e, mais uma vez, pediu apoio a Aloizio Mercadante ao governo paulista.

O discurso da "cara nova" deve ser retomado em 2014, quando o ex-presidente pretende "tourear" amigos petistas e lançar ao Bandeirantes o prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT). Marta e Aloizio Mercadante, hoje ministro da Ciência e Tecnologia, certamente estarão de novo nessa fila. Coisas da política.

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