Lula quer atrair Kassab para palanque com Alckmin

Ex-presidente, que dá como certa aliança com ex-governador para vice, busca frente ampla contra o bolsonarismo já no primeiro turno da eleição

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2022 | 15h47
Atualizado 27 de janeiro de 2022 | 18h01

Caro leitor,

Disposto a formar uma frente ampla contra o bolsonarismo ainda no primeiro turno da eleição, Luiz Inácio Lula da Silva terá uma reunião com o presidente do PSD, Gilberto Kassab, nos próximos dias, e vai insistir no pedido de apoio à sua campanha. Em conversa com aliados, Lula dá como certa a aliança com o ex-governador Geraldo Alckmin para vice na chapa à Presidência, mas está à procura de um partido que possa ajudar nessa empreitada, caso as negociações com o PSB emperrem.

Kassab ainda diz que pretende lançar o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (MG), ao Palácio do Planalto. Pacheco, porém, aparece com apenas 1% na maioria das pesquisas de intenção de voto e “mergulhou” durante o recesso parlamentar. Na prática, embora tenha se filiado ao PSD há exatos três meses, em cerimônia na qual vestiu o figurino de “novo JK”, o senador mineiro não assumiu a campanha. “Nós combinamos de fazer uma avaliação final em março”, disse Kassab ao Estadão, numa referência ao cenário eleitoral. “Mas tenho certeza de que ele será candidato.”

Com o discurso de que é preciso união nacional para derrotar o presidente Jair Bolsonaro e, depois, um “mutirão” para conseguir governar, Lula vê na apatia de Pacheco a nova oportunidade para atrair Kassab, ex-ministro das Cidades no governo Dilma Rousseff. Kassab deixou a gestão petista em abril de 2016, após o PSD ter decidido apoiar o impeachment de Dilma, e em seguida comandou o Ministério das Comunicações no governo de Michel Temer.

No fim do ano passado, diante da falta de acordo com o PSB sobre candidaturas e palanques estaduais, Lula chegou a sugerir que o ex-ministro convidasse Alckmin, mais uma vez, para se filiar ao PSD. Kassab não gostou e respondeu que o ex-tucano não se decidia nunca.

Apesar de resistências no próprio PT, a dobradinha entre Lula e Alckmin é vista como favas contadas pela cúpula do partido, mesmo que esse casamento seja selado por outra legenda. “Espero que o Alckmin escolha o partido político adequado, que faça aliança com o PT”, disse Lula, nesta quarta-feira, 26, em entrevista à rádio CBN Vale, de São José dos Campos. “Espero que o PT compreenda a necessidade de fazer aliança.”

São Paulo é, hoje, o principal entrave nas negociações, uma vez que o PT não abre mão da candidatura do ex-prefeito Fernando Haddad ao Palácio dos Bandeirantes. Os petistas propõem que o ex-governador Márcio França (PSB) concorra ao Senado, e não à sucessão do governador João Doria (PSDB). Em contrapartida, o PT já concordou em aderir à campanha do deputado Marcelo Freixo (PSB) ao governo do Rio. Além disso, em Pernambuco, tudo indica que pode ceder e retirar a pré-candidatura do senador Humberto Costa para apoiar o nome indicado pelo governador Paulo Câmara (PSB).

Alckmin prefere ser vice de Lula pelo PSB, mas tem convites de outros partidos, como o Solidariedade e o PV. As duas siglas, porém, são pequenas e não contam com a estrutura considerada necessária para a campanha.

Ao mesmo tempo em que o imbróglio para formação de palanques e federações partidárias não se resolve, Lula vai chamando potenciais aliados para conversar, muitos da velha guarda do PSDB, como o ex-chanceler Aloysio Nunes e o senador Tasso Jereissati (CE). Ele também aguarda novo encontro com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que, para não enfrentar outra crise de ciúmes no tucanato, tratou de reiterar no Twitter seu aval a Doria na disputa pela cadeira de Bolsonaro.

“Eu apoiei o Doria para tirar o PSDB dessa letargia”, afirmou Aloysio ao Estadão, argumentando que o governador ainda pode crescer na campanha. “Além de tudo, não estou mais na idade de entrar na linha de dissidência”, emendou ele, rindo.

Para o ex-chanceler, o principal problema da terceira via, até agora, é que todos ganham os holofotes em torno de negações. “É o ‘nem um, nem outro’”, criticou Aloysio, numa alusão a Lula e a Bolsonaro. No seu diagnóstico, se Lula quer mesmo uma convergência política, precisa fazer isso com base em um programa claro de governo.

Enquanto o programa não sai, Alckmin tem caprichado no estilo “gente como a gente” nas redes sociais. Já disse que, em casa, é vice de dona Lu “há muito tempo” e , recentemente, apareceu capinando um lote de seu sítio, no interior paulista. A amigos, o ex-governador afirma que capinar é como “estar perto de Deus”. Será mesmo?

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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