Lula diz a Dilma que Valério 'blefa' ao citar seu nome

Ex-presidente diz não haver motivo para se preocupar com novo depoimento de empresário e que eleição foi 'resposta' a julgamento

VERA ROSA / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

08 de novembro de 2012 | 02h10

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse à presidente Dilma Rousseff que o empresário Marcos Valério Fernandes de Souza está "blefando" ao ameaçar envolvê-lo no escândalo do mensalão e o desafiou a apresentar provas. Para Lula, o relator do processo do mensalão, Joaquim Barbosa, tem razão quando diz que Marcos Valério é um "jogador" e quer atrapalhar o julgamento.

"Eu nunca estive com esse cidadão", afirmou Lula. Na conversa com a presidente, pouco antes do jantar de confraternização promovido por Dilma com ministros, senadores e deputados do PT e do PMDB, no Palácio da Alvorada, o ex-presidente garantiu não haver motivo para preocupação com as ameaças de Marcos Valério.

Condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 40 anos de prisão pelos crimes de formação de quadrilha, corrupção ativa, peculato, lavagem de dinheiro e evasão de divisas, o empresário prestou depoimento em setembro ao Ministério Público, como revelou o Estado.

Disse que recursos do mensalão foram enviados a Santo André após o assassinato do prefeito Celso Daniel (PT), ocorrido em janeiro de 2002, para estancar ameaças a petistas.

Investigadores que acompanharam o depoimento, mantido em sigilo, contaram que Valério mencionou Lula, o chefe da Secretaria-Geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, e o ex-ministro da Casa Civil Antonio Palocci, além de falar de outras remessas de recursos para o exterior além daquela julgada incluída no processo do mensalão. Apontado como operador do esquema, ele prometeu dar detalhes da acusação se for incluído no programa de proteção à testemunha, que poderia livrá-lo da cadeia.

"Marcos Valério está fazendo chantagem. Se ele tem algo a exibir, que exiba. Se não mostra nada, é porque não tem", afirmou o advogado Sigmaringa Seixas, ex-deputado do PT.

Ele também conversou com Lula na terça-feira, quando o ex-presidente esteve em Brasília para se encontrar com Dilma. "As próprias pessoas a quem Marcos Valério diz que vai procurar já devem ter compreendido que ele é um blefador. O que ele diz é absolutamente inverídico", insistiu o ex-parlamentar.

Apesar de minimizar as acusações de Valério, Lula avalia que o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu e o ex-presidente do PT José Genoino devem se preservar. No seu diagnóstico, o STF tende a aplicar penas muito duras contra os petistas e qualquer declaração pode prejudicá-los. Foi por esse motivo que Lula pediu à cúpula do PT que não divulgasse, na semana passada, um manifesto de apoio aos réus do mensalão.

Investigação. Na esteira das denúncias de Valério, integrantes da oposição pediram à Procuradoria-Geral da República, na terça-feira, a abertura de inquérito para investigar se Lula participou do mensalão. Assinada pelo PPS e por alguns tucanos, a representação rachou a oposição e não teve aval do DEM nem da cúpula do PSDB.

"Nós estamos diante de um mensalão 2 e cumprimos nosso dever ao encaminhar essa representação ao Ministério Público, uma vez que há fatos novos", argumentou o presidente do PPS, deputado Roberto Freire (PE).

Nas conversas mantidas nos últimos dias, Lula tem afirmado que a população deu a resposta contra o julgamento do mensalão nas urnas, elegendo 633 prefeitos do PT no País. A maior vitória do partido foi em São Paulo, com a eleição do ex-ministro Fernando Haddad. Em nota divulgada na semana passada, Gilberto Carvalho disse nunca ter tido contato com Valério "nem pessoalmente, nem por e-mail, telefone ou qualquer outro meio". Palocci não foi localizado para comentar as denúncias.

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