Lula aposta alto e obtém vitória pessoal

Decisão de lançar Haddad foi do ex-presidente, que impôs o nome ao partido; eleição muda jogo de forças e terá forte impacto em 2014

VERA ROSA, O Estado de S.Paulo

29 de outubro de 2012 | 03h01

A vitória de Fernando Haddad na eleição para a Prefeitura de São Paulo fortalece o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, dá musculatura ao projeto político do PT para 2014 e deve provocar rearranjos na base de sustentação do Palácio do Planalto. Em conversas reservadas, Lula disse que o triunfo de seu afilhado político representa uma resposta das urnas ao julgamento do mensalão pelo Supremo Tribunal Federal, que condenou a antiga cúpula petista.

"Estamos de alma lavada", afirmou o ex-presidente a amigos, na noite de ontem. A frase foi repetida pela ministra da Cultura, Marta Suplicy (PT).

Haddad foi uma aposta pessoal de Lula, que impôs a candidatura do pupilo contra tudo e contra todos. Nessa empreitada, prometeu até mesmo "morder a canela dos adversários" para eleger o ex-ministro da Educação.

A retomada da maior cidade do País pelo PT, após oito anos, desarruma o PSDB de José Serra para o confronto de 2014 e reforça a possibilidade de Michel Temer (PMDB) ser novamente candidato a vice na provável chapa liderada pela presidente Dilma Rousseff à reeleição. Foi Lula quem articulou com Temer, no 2.º turno da disputa em São Paulo, a adesão de Gabriel Chalita (PMDB), derrotado na primeira etapa, à candidatura de Haddad.

O movimento não parou aí. Ampliado para outras cidades, principalmente no Estado de São Paulo, foi o ensaio para mais um casamento entre o PT e o PMDB, daqui a dois anos. "O pano de fundo das alianças é o apoio a Dilma, em 2014", admitiu o presidente do PT paulista, Edinho Silva.

Nesse jogo, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) - que sonha com o Palácio dos Bandeirantes ou mesmo com uma cadeira no Senado - terá papel relevante. Com uma bancada de 47 deputados federais, o PSD de Kassab deve se incorporar à base de Dilma e ganhar um ministério na reforma que ela promoverá na equipe, no início de 2013. A expectativa é que o flerte com Kassab, hoje aliado de Serra, resulte em palanque para Dilma.

Calouros. As maiores preocupações do PT, agora, residem nas idas e vindas do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, que comanda o PSB e está de olho no Planalto. Em São Paulo, o PSB de Campos fez dobradinha com Haddad, mas em outras capitais, como Recife e Belo Horizonte, deu surra nos petistas. A deputada Luiza Erundina (PSB) chegou a ser vice de Haddad por 72 horas, mas desistiu do acordo após a entrada de Paulo Maluf (PP) na coligação, com direito a foto.

A estratégia planejada por Lula nesta eleição, para cativar a classe média e ultrapassar a tradicional barreira de 30% dos votos em São Paulo, também joga luz sobre a tese da renovação de quadros petistas na corrida ao governo do Estado, em 2014. Até agora, os pré-candidatos do PT são os ministros Alexandre Padilha (Saúde), Aloizio Mercadante (Educação) e Marta Suplicy (Cultura), além do prefeito de Osasco, Emídio de Souza. O único calouro, nessa lista, é o ministro Padilha.

Com o argumento de que era preciso apresentar caras novas no PT, após o escândalo do mensalão, Lula ungiu Haddad - um outsider na política - da mesma forma que escolheu Dilma para a Presidência. Pragmático, abortou as prévias e tratou de procurar aliados.

Barrada. Nem mesmo petistas acreditavam na vitória de Haddad até ele cruzar a linha de chegada para o 2.º turno. Muito menos Marta, então senadora, que se considerava a única capaz de derrotar Serra e foi barrada por Lula.

Na manhã de ontem, porém, ela disse ter cometido um erro de avaliação. "Lula teve tino político e acertou na estratégia. Foi extremamente arriscado o que ele fez, mas sua intuição foi certeira. Serra se enforcou sozinho", afirmou Marta. No ano passado, na conversa decisiva com Lula, em 3 de novembro, ela chegou a chorar. "Eu não sei o que você tem contra mim", afirmou. Depois, boicotou a campanha por quase dez meses.

O prefeito eleito foi chamado de "técnico", "mauricinho" e "poste" dentro e fora do PT.

Nessa toada, o partido tomou um susto no 1.º turno, quando eleitores identificaram Celso Russomanno (PRB) como novidade. Tudo mudou, porém, no segundo round da luta. "Haddad só não venceria Serra se houvesse uma hecatombe ou caísse uma bomba atômica em São Paulo", disse Lula.

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