Livro contesta o 'mito da política do café com leite'

Estudo sobre o papel do café na República Velha reduz peso da aliança de paulistas e mineiros para controlar o poder

GABRIEL MANZANO, O Estado de S.Paulo

01 Dezembro 2013 | 02h11

Por longas décadas, no século passado, a República Velha ficou conhecida como o tempo da "política do café com leite" - uma aliança entre São Paulo e Minas Gerais para controlar o governo e o País. "As coisas não eram exatamente assim", contesta o historiador paulista José Alfredo Vidigal Pontes, que acaba de dedicar um livro de 150 páginas à tarefa de desmontar essa tese. A Política do Café com Leite: Mito ou História? cruza a força do café com a dos caciques regionais e sepulta essa imagem de um feliz casamento entre fazendeiros paulistas e pecuaristas mineiros entre 1889 e 1930.

Para começar, Pontes lembra que, das doze sucessões presidenciais desse período, só em duas aconteceu o rodízio entre vizinhos. Uma em 1906, quando o paulista Rodrigues Alves deu lugar ao mineiro Afonso Pena, e outra em 1926, quando o mineiro Artur Bernardes foi sucedido por Washington Luiz. Além disso, a grande riqueza de Minas também era o café - que chegou a garantir mais da metade de sua receita. Ou seja, a tal política teria "bastante café e um pouquinho de leite, mais para um 'pingado' bem escuro", brinca o autor. Um olhar mais próximo ainda revelará que, em 1906, quem fez de Afonso Pena o presidente foi o gaúcho Pinheiro Machado, poderosa liderança política do período. O casamento São Paulo-Minas seria, portanto, um falso retrato proclamado por historiadores desatentos.

Ascensão e queda. Esclarecida a polêmica, Pontes - autor de outros quatro livros, entre os quais 1932: o Brasil se Revolta - passa a narrar, em capítulos curtos e didáticos, a ascensão e queda do café na vida brasileira. Sua chegada ao Pará em 1727, as lavouras em larga escala no Vale do Paraíba, a pressão dos fazendeiros para manter a mão de obra escrava, o fervilhar de imigrantes chegando da Europa - quase 4,2 milhões, de 1884 a 1940. Nesse cenário, o Partido Republicano Paulista ia às ruas e às tribunas, em defesa das metas dos cafeicultores.

Mas o século 20 trouxe o crescimento acelerado e a superprodução desorganizou os mercados. "O Brasil estava mudando e as oligarquias não percebiam a profundidade da transformação que se operava", escreve Pontes. O Convênio de Taubaté, feito em 1906 para segurar os preços, foi um marco dos novos tempos, a par com as gigantescas queimadas e a feroz competição com os importadores de Nova York. O que fica claro, ao final, é que muito além do "café com leite", o País inteiro precisava do café para progredir - e ele deu conta do recado até começar a industrialização, nos anos 60.

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