Lições de 2012

Não importa o resultado do segundo turno, esta eleição deixará lições valiosas. Não é obrigatório prestar atenção, mas permite cometer erros novos, em vez de repetir os mesmos de sempre.

José roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2012 | 07h02

Lição dos partidos: quanto mais candidatos, mais prefeitos eleitos.

Parece óbvio e é, mas poucos partidos seguiram essa regra. PSB e PT cresceram em prefeituras porque lançaram mais candidatos a prefeito do que no pleito anterior. Já PMDB e PSDB começaram a encolher sua base municipal quando deixaram de lançar tantos candidatos em 2012 quanto em 2008. Os avanços petista e socialista não foram acaso, mas investimento.

O PT tem a menor eficiência entre os grandes partidos na eleição de candidatos a prefeito. Elege 1 a cada 3, enquanto o PMDB quase chega à relação de 1 para 2. Porém, a maior taxa de sucesso peemedebista tem a ver com o tamanho dos municípios onde disputa a eleição: em pequenas cidades, é mais comum haver apenas dois candidatos, aumentando a probabilidade de vitória.

Isso significa que o PMDB é mais eficiente em quantidade de prefeituras conquistadas, mas não em eleitorado a governar. O PT conquistou cidades cujo porte médio é duas vezes maior que o dos municípios onde o PMDB elegeu seus prefeitos. O PSB está no meio do caminho. Vai governar prefeituras de cidades que são, em média, 1/3 maiores do que as peemedebistas e 1/3 menores do que as petistas. Os tucanos estão entre PSB e PT.

O tamanho médio das cidades que o PSDB governará é 22% maior que o das do PSB e 21% menor que o das do PT. Os tucanos elegeram 43% de seus candidatos a prefeito. Tudo isso seria ótimo, se o partido não tivesse conquistado menos prefeituras que em 2008. Para ser atraente, um partido precisa, acima de tudo, ter perspectiva de poder. O PSB saiu ganhando das urnas pois está em ascensão e, ao contrário do PSD, não só nos cafundós.

Lição dos candidatos: conhecimento alto importa menos que rejeição alta.

Candidatos muito conhecidos tendem a sair na frente nas pesquisas de intenção de voto graças ao que os pesquisadores chamam de recall bias, ou viés de memória. Indagados muito tempo antes da eleição sobre em quem pretendem votar, os eleitores, em grande parte, tendem a apontar o nome que lhes é mais familiar - não porque de fato estejam pensando em votar nele, mas para não se mostrarem desinformados sobre a eleição. Esse candidatos podem cansar cedo. Foram os casos de Moroni Torgan (DEM), em Fortaleza, e Humberto Costa (PT), no Recife. Saíram disparados na frente, mas nem pagaram placê no final.

Altas taxas de intenção de voto em pesquisas na fase pré-eleitoral não indicam necessariamente o candidato mais competitivo para um partido. Se o mesmo candidato aparecer nas mesmas pesquisas com porcentuais altos de rejeição, é provável que a taxa de intenção de voto dele seja, na prática, o teto do candidato. Dali é mais fácil ir para baixo do que para cima.

Quanto mais um partido se deixa levar pelo recall bias das pesquisas pré-eleitorais, menos ele areja seus quadros. Candidatos novos, mas desconhecidos, nunca têm vez. No curto prazo, o partido pode até ganhar, mas só quando o adversário é ainda mais rejeitado. No longo prazo, tende à extinção.

Lição das pesquisas: a tendência vale mais que o retrato.

A primeira reação da mídia ao resultado das urnas foi destacar os erros reais e imaginários das pesquisas de intenção de voto. E a segunda reação foi perguntar quando sairiam as primeiras pesquisas do segundo turno. Essa relação bipolar entre jornalistas e pesquisadores se deve, em grande parte, à fixação com o número estático e a dificuldade de identificar tendências.

Se o líder está caindo na reta final e, ao mesmo tempo, dois adversários estão subindo, em algum ponto os três estarão empatados. Mas só por um momento. No instante seguinte o ex-líder prosseguirá em sua rota rumo ao esquecimento e os adversários assumirão a liderança. Quem olha as curvas de tendência identifica os movimentos. Quem olha só as fotos, não.

Nos EUA, a tendência é as pesquisas eleitorais serem cada vez mais frequentes e menos precisas. Porque é do movimento que vem a boa análise, não do retrato estático de um momento específico. Quanto mais pesquisas num intervalo menor de tempo, maior a chance de assistirmos ao filme todo e antevermos o seu final. E isso é mais fácil de fazer com pesquisas online.

O instituto Ipsos, um dos maiores do mundo, começou a fazer pesquisas eleitorais 100% pela internet nesta eleição presidencial dos EUA. É uma revolução, porque explode os conceitos de amostra probabilística, de intervalo de confiança e de margem de erro. Se fossem feitas no Brasil, estariam proibidas de ser publicadas porque não se adequariam à lei. "É o futuro", diz o CEO mundial da divisão de pesquisas de opinião do Ipsos, Darrell Bricker. "Pode demorar, 5, 10 ou 15 anos, mas virá", prevê a CEO do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari. Enquanto isso, no Brasil, os institutos ainda são obrigados a fazer pesquisas eleitorais usando questionários de papel só para os partidos poderem contá-los se quiserem.

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