Leleco no divã

Um dos melhores personagens de Avenida Brasil, o nelson-rodrigueano Leleco, vivido brilhantemente por Marcos Caruso, é um malandro da terceira idade e pai do craque Tufão, que, por graça do destino e do autor João Emanuel Carneiro, ganha o amor de Tessália (Débora Nascimento), um colosso de morena de vinte e poucos anos, a maior gata do bairro. Mas é aí que começam seus tormentos e desatinos.

Nelson Motta,

20 de julho de 2012 | 03h08

Marrento, viril e possessivo, com aquela deusa apaixonada por ele, Leleco não se torna o homem mais feliz do Divino, mas um ciumento patológico, que chega a contratar um jovem garanhão sarado e tatuado para tentar seduzi-la em bizarros testes de fidelidade. Mas, quando escolhe o sedutor, Leleco se guia pelo seu gosto pessoal, como homem (hummm), e não pelo de Tessália - que gosta dele mesmo. E fica frustrado e furioso cada vez que ela resiste a traí-lo e reafirma seu amor.

O ciúme nasceu com a humanidade. Foi por ciúme que Caim matou Abel, a primeira vítima do pior dos sentimentos que o Senhor impôs aos descendentes de Adão e Eva quando os expulsou do paraíso e os condenou à condição humana. Porque até o ódio, a inveja, o rancor vingativo, podem ser motivação para crescimento e conquistas legítimas, mas o ciúme é inútil: todos perdem, nada se cria e tudo se transforma - para pior.

Como um Otelo suburbano que nunca fez psicanálise nem leu Dom Casmurro, Leleco faz rir e dá pena, mas educa e ensina com seu comportamento tresloucado, em que o ridículo é o grande mestre. Quando Herivelto Martins e Dalva de Oliveira cantavam que "o amor é o ridículo da vida", na verdade estavam falando do ciúme, porque o verdadeiro amor nunca é ridículo - e o ciúme é sempre, ou quase. Pelo menos no caso, assim como na obra de Lupicínio Rodrigues, foi a inspiração para vários clássicos da música brasileira.

Em Medo de Amar, o poeta Vinicius de Moraes rimou com elegância: "O ciúme é o perfume do amor". Mas Leleco não tem essas sutilezas, só vai sossegar quando Tessália o abandonar e provar que ele estava certo. Coitado, não aprendeu com Ferreira Gullar que o importante não é ter razão: é ser feliz.

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