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Candidatos à Prefeitura de São Paulo nas eleições 2020 Estadão e Divulgação

Leia perfis dos 13 candidatos a prefeito de São Paulo

Com o prefeito Bruno Covas em primeiro lugar na última pesquisa Ibope, Guilherme Boulos, Celso Russomanno e Márcio França disputam a vaga no segundo turno; confira lista completa dos candidatos

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Nas eleições 2020, 13 candidatos disputam a Prefeitura de São Paulo. A última pesquisa Ibope/Estadão/TV Globo, divulgada neste sábado, 14, indica que haverá segundo turno na capital com o prefeito Bruno Covas (PSDB), que tem 38% dos votos válidos. Guilherme Boulos (PSOL), Celso Russomanno (Republicanos) e Márcio França (PSB) buscam a vaga para disputar com o tucano no dia 29 de novembro. Abaixo, leia o perfil de cada candidato.

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Com DNA tucano, Covas se apresenta em voo solo

Neto de ex-governador, ele fez parte do Clube dos Tucaninhos quando jovem e prega o resgate das ideias social-democratas

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 04h00

Depois de encerrado o debate entre os candidatos à Prefeitura de São Paulo promovido pelo Estadão na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap) na terça-feira passada, o prefeito Bruno Covas (PSDB) saiu caminhando da universidade com o irmão Gustavo e dois auxiliares em busca de um restaurante para almoçar. No trajeto até a Praça Vilaboim, em Higienópolis, achou graça quando percebeu que algumas pessoas colocaram a máscara ao reconhecê-lo.

Sem reserva antecipada, escolheu um restaurante japonês com poucas mesas ocupadas e pediu um combinado de sushi. Aos 40 anos de idade, Covas tem um estilo oposto ao do antecessor, João Doria, que deixou o cargo para disputar o governo paulista em 2018. Avesso ao barulho político, o candidato do PSDB é discreto. Segundo amigos e correligionários, nunca foi um orador explosivo e é mais conhecido como articulador do que como líder de massa. Alvo principal dos adversários nos debates, raramente respondeu aos ataques e não alterou o semblante mesmo nos momentos mais tensos.

Covas foi um candidato previsível. Quando confrontado com perguntas difíceis ou potencialmente constrangedoras, recorreu a um arsenal fixo de clichês: “Não tenho problema de esconder o apoio do Doria, mas o candidato sou eu”; “Essa eleição não é o 3.° turno de 2018 ou uma antecipação de 2022”; “Adversário não se escolhe...” Seu entorno é o mesmo dos tempos em que liderava a juventude do PSDB. Filiado ao partido desde os 17 anos, mudou-se de Santos para São Paulo em 1995 para morar com o avô, o governador Mário Covas, na ala residencial do Palácio dos Bandeirantes.

Foi nessa época, quando era cabeludo, usava camisetas de rock (uma paixão até hoje) e estudava no colégio Bandeirantes, que começou a atuar na base jovem do partido e conheceu o grupo que o acompanha até hoje: o marqueteiro Felipe Soutello – que em 2018 coordenou a comunicação da campanha de Márcio França (PSB) contra Doria –, o secretário da Casa Civil, Orlando Faria, o coordenador de campanha, Wilson Pedroso, o assessor Fábio Lepique, o coordenador de mobilização Carlos Alberto Balotta, Alexandre Modonesi, secretário das subprefeituras e o presidente do PSDB da capital, Fernando Alfredo.

Desde criança, quando fez a carteira do Clube dos Tucaninhos, o objetivo de Covas sempre foi entrar na política, seguir os passos do avô e chegar ao Palácio do Planalto. “Quem começa como estagiário quer chegar a CEO. É o natural de qualquer carreira”, disse. Foi com esse foco que fez Direito na USP e Economia na PUC.

Quando era governador, Mário Covas nunca fez qualquer gesto para formar um herdeiro político na família, mas também não criou obstáculos quando percebeu que o neto deu sinais de que seguiria esse caminho. “Meu avô foi minha inspiração para fazer política, mas sempre colocava a necessidade de estudar. Nunca desencorajou”, afirmou o prefeito.

 

Consulta

Tio de Bruno, o vereador Mário Covas Neto (Podemos) conta que o sobrinho o consultou antes de tentar ser deputado estadual após disputar como candidato a vice-prefeito de Raul Cristiano (PSDB), em Santos, no ano de 2004. “Eu não tinha o projeto de ser candidato. Estava em um escritório de advocacia e era corredor (de Stock Car). Já o Bruno sempre pensou em política, desde do Clube dos Tucaninhos”, disse. Foi o tio que articulou um “estágio” de Covas na liderança do PSDB na Assembleia, em 2005, quando o cargo era ocupado pelo deputado Vanderlei Macris. No ano seguinte, Covas foi eleito deputado estadual.

Dois anos depois de o PSDB perder 25 deputados federais e registrar o pior desempenho de sua história em uma eleição presidencial, o prefeito desponta como principal aposta de redenção do partido nas eleições municipais deste ano. O candidato à reeleição é líder isolado em todas as pesquisas de intenção de voto. Enquanto Doria prega um “novo PSDB” – menos social-democrata e mais à direita –, o grupo de Covas fala em resgatar as raízes tucanas.

O prefeito abriu espaço para “exilados” da máquina partidária e da administração estadual como o ex-senador e ex-chanceler Aloysio Nunes Ferreira. Alvo da Lava Jato, Aloysio deixou a presidência da Investe SP, Agência Paulista de Promoção de Investimentos, e foi nomeado para a diretoria executiva da SP Negócios, da Prefeitura. O ex-governador Geraldo Alckmin, denunciado pelo Ministério Público de São Paulo na chamada Lava Jato Eleitoral, está na equipe de plano de governo, bem como o ex-senador José Aníbal, que é desafeto de Doria. 

A lista de tucanos demitidos por Doria e acolhidos na Prefeitura é extensa. Covas é diplomático ao falar das divergências com o grupo do governador. Ele nega que os dois tenham se desentendido durante o processo de enfrentamento da pandemia, o que é um fato conhecido de quem acompanha a rotina das duas máquinas. Enquanto o governador queria flexibilizar, o prefeito preferia manter o isolamento.

“Doria é uma das maiores lideranças do PSDB, mas é muito cedo para falar em candidatura presidencial. Quando se fala em novo PSDB ou reformulação, o fundamental é explicitar o que pensa o partido. Perdemos muitos apoios por não conseguir tornar clara nossa visão de mundo. Não tivemos a coragem de fazer a defesa das privatizações do governo FHC. Isso de novo é mais vontade na defesa das teses do PSDB do que reformulá-las”, disse.

Em conversas reservadas, aliados do prefeito dizem que sua ascensão favorece Doria no embate com Bolsonaro para 2022, mas também impõe limites ao projeto de poder do governador. A corrente do prefeito hoje coabita com o “dorismo” nas instâncias partidárias, mas tem um perfil de centro mais à esquerda: é liberal nos costumes, não recorre ao antipetismo exacerbado e rejeita pautas conservadoras.

Além disso, o grupo “covista” segue leal a Alckmin, que já está rodando o interior apoiando candidatos e construindo sua candidatura ao governo em 2022. Alckmin está integrado à campanha de Covas e tem apoio do prefeito para disputar o Palácio dos Bandeirantes, caso o PSDB vença a eleição na capital. Se perder, o candidato natural à sucessão de Doria será o próprio Covas. Ou seja: Doria não terá caminho livre para colocar o PSDB na aliança do vice, Rodrigo Garcia (DEM), em troca do apoio nacional do DEM, hoje um aliado muito próximo do governador.

Vice

Na articulação para a escolha do vice, Covas descartou todas as exigências impostas pela sigla e decidiu que só anunciaria o parceiro de chapa depois de formada a coalizão. O presidente do Solidariedade, Paulinho da Força, insistiu por Marta Suplicy, o DEM queria a ex-atleta olímpica Maurren Maggi, o Republicanos pressionou por Celso Russomanno, o PTB indicou Marcos da Costa, o Cidadania, Alê Yousseff, e o PSDB queria uma chapa com Mara Gabrilli ou Ricardo Tripoli. No final, prevaleceu a escolha do MDB, dono do maior tempo de TV, que emplacou o vereador Ricardo Nunes.

Divorciado desde 2014, Covas conta que leva a vida hoje como qualquer pessoa solteira de 40 anos. Tem a guarda compartilhada do filho, Thomaz, de 15 anos, que está em seu apartamento durante a campanha. Tirou 45 dias de férias em 4 anos, mas não deixa de viver a vida. “Levo uma vida como qualquer outro. Nunca furei fila, mas também não vou deixar de fazer o que todo mundo faz por ser político.”

Um ano depois de ser diagnosticado com um câncer com metástase, Covas voltou a fazer musculação duas vezes por semana e caminhadas sempre que a agenda permite. Registros das atividades físicas foram feitos no “stories” de sua conta no Instagram. Com uma trilha sonora de rock, o tucano aparece (sempre de máscara) levantando uma carga de 40 quilos na mesma academia onde faz fisioterapia.

FICHA TÉCNICA

Quem são?

Bruno Covas (PSDB), candidato a prefeito

Nascido em 7 de abril de 1980, Bruno Covas é formado em Direito e Economia. Foi eleito deputado estadual em 2010, deputado federal em 2014 e vice-prefeito em 2016 

Ricardo Nunes (MDB), candidato a vice-prefeito

Nascido em 13 de novembro de 1967, é empresário do ramo de controle de pragas. Foi eleito vereador pela primeira vez em 2012. É presidente municipal do MDB

 

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Boulos: O líder dos sem-teto e sem apoio da periferia

Liderança do MTST e candidato do PSOL arregimenta intenções de voto entre eleitores com mais renda e escolaridade

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Um dos fatos mais marcantes da vida de Guilherme Castro Boulos, de 38 anos, candidato do PSOL à Prefeitura de São Paulo, foi quando, aos 19 anos, decidiu trocar a casa dos pais em Pinheiros, bairro de classe média alta, para viver com os sem-teto em um acampamento em Osasco, Grande São Paulo. A mãe, Maria Ivete Castro Boulos, infectologista e professora da Faculdade de Medicina da USP, se recorda: “Guilherme levou uma cama dobrável, um lampião e o porta-malas cheio de livros. Dizia que, para lutar por aquelas pessoas, tinha de viver como elas”.

Passados quase 20 anos, ele pode conquistar duas façanhas hoje: chegar ao segundo turno – na pesquisa Ibope/Estadão/TV Globo de sábado, 14, ele aparecia com 16%, em segundo lugar, empatado com Celso Russomanno (Republicanos) e Márcio França (PSB) – e desbancar o PT da posição de líder da esquerda na maior cidade do País, abrindo possibilidades para uma recomposição deste espectro político.

As pesquisas, no entanto, mostram que, se Boulos saiu de Pinheiros, o bairro não abandonou o candidato, e o eleitorado da periferia não abraçou o líder do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). Seus votos se concentram entre os eleitores com mais renda e maior escolaridade, ou seja, na classe média alta, de onde veio. A inovadora campanha digital não foi suficiente, até agora, para torná-lo conhecido nas franjas da cidade, onde liderou o movimento por moradia.

Com apenas 17 segundos no horário eleitoral na TV, Boulos não conseguiu se tornar mais conhecido. Segundo o Ibope, a TV ainda é a principal fonte de informação sobre os candidatos para 49% do eleitorado. Entre os mais pobres, o número sobe para 55%. “Não dá para votar em quem você não conhece”, repete o candidato.

Antes de ir morar com os sem-teto, Boulos tomou outra decisão radical. Decidiu trocar o colégio Equipe, onde cursava o ensino médio, por uma escola pública perto da casa de seus pais, em Pinheiros. Ele questionava a orientação pedagógica do Equipe, voltada mais para preparar os alunos para o vestibular.

Quando souberam da decisão do aluno, diretores do colégio chamaram a família para uma reunião, fato comum para o casal Maria Ivete e Marcos Boulos, também infectologista e professor da USP. Na conversa, a escola argumentou que Guilherme sabia do projeto pedagógico desde o início do ano letivo. “Eu mudei, mas vocês não mudaram”, justificou Boulos, então com 16 anos. “Ele tinha uma argumentação muito coerente. Não houve uma revolta, não houve um destrato ou uma briga”, lembrou a mãe. 

Um mês depois da transferência, os pais de Boulos foram chamados pela direção da nova escola. O filho havia organizado um motim contra a obrigatoriedade do uso de uniforme. Tirou cópias do Estatuto da Criança e do Adolescente, que impede a proibição da entrada de alunos sem uniforme, e distribuiu entre os colegas. “Em um mês ele já tinha fundado um grêmio e feito um jornal”, disse Maria Ivete.

Marcos Boulos lembra que foi nas arquibancadas de estádios de futebol, em meio à torcida do Corinthians, que o filho começou a conhecer e se identificar com a periferia. “Ele fala que ali aprendeu a entender como se movimentavam aquelas pessoas.” 

Da escola pública, Boulos foi direto para o curso de Filosofia da USP. Depois especializou-se em Psicologia Clínica e fez mestrado em Psiquiatria. Segundo o pai, “ele queria entender o funcionamento da mente”. Sua tese de mestrado aborda a influência da participação em movimentos sociais na redução dos efeitos da depressão.

Militância

Àquela altura, dava cursos de alfabetização para adultos usando o método Paulo Freire e escolheu a luta pela moradia, por meio do MTST. Foi numa ocupação do grupo que conheceu Natalia Szermeta, de 33 anos, em setembro de 2005. Nascida e criada no Campo Limpo, distrito da zona sul, Natalia tinha 17 anos e militava no movimento estudantil secundarista quando foi conhecer a ocupação Chico Mendes, em Taboão da Serra. No meio do “mar de lona”, como ela recorda, Boulos falava em uma assembleia. O namoro e o casamento só vieram anos depois.

 

Mãe das duas filhas do candidato, Sofia e Laura, de 10 e 9 anos, Natalia foi balconista de farmácia, atendente em um instituto de pós-graduação, chegou a cursar Geografia na Unesp, em Presidente Prudente, interior paulista, mas abandonou o curso com o nascimento das filhas. Hoje, estuda Direito e é uma das coordenadoras nacionais do MTST. O movimento reúne ao menos 50 mil famílias em 14 Estados.

 

Recém-casados, eles foram morar próximo ao córrego Pirajuçara. O casal decidiu se mudar para o Campo Limpo e ficar mais perto da família de Natalia. Assim, poderiam trabalhar enquanto os pais dela cuidavam das meninas.

No MTST, Boulos começou a chamar a atenção da imprensa nacional, mas rejeitava a política partidária. O movimento, durante anos, proibia que seus dirigentes se candidatassem. A estratégia de promover ocupações de imóveis particulares ociosos para pressionar autoridades rendeu a Boulos a imagem de radical e algumas detenções.

 

Em 2012, foi preso ao se opor à ação da Polícia Militar na ocupação Pinheirinho, em São José dos Campos. As denúncias de violência policial renderam semanas de cobertura da imprensa e Boulos se tornou, enfim, um nome nacional.

Impeachment

Naquela época, Boulos fazia oposição ao governo Dilma Rousseff, mas, aos poucos, foi se aproximando de Lula. A mudança ocorreu durante o processo de impeachment da presidente, ao qual Boulos se opôs e mobilizou o MTST. Depois vieram a condenação e prisão de Lula, em 2018, quando os sem-teto liderados por Boulos eram a maioria dos manifestantes que foram à porta do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, em São Bernardo, para defender o ex-presidente. Imagens de aliados de Lula mostram Boulos chorando ao lado do petista poucas horas antes da prisão.

Neste mesmo período, o líder sem-teto passou a cogitar a entrada na política partidária. O primeiro passo foi a construção da Frente Povo Sem Medo, que passou a ser sua plataforma política. Natalia lembra que a transição foi discutida com a família e com o movimento. “A decisão não foi só do Guilherme. Houve um debate longo no movimento e também em casa.” 

Lula o convidou para entrar no PT, porém o partido escolhido foi o PSOL. “Não havia consenso no PSOL. Grupos que não gostavam só do engajamento dele contra o impeachment e a prisão do Lula se opuseram”, observou o sindicalista Edson Carneiro, o Índio, candidato a vereador pelo PSOL e coordenador da Frente Povo Sem Medo. Vencidas as resistências, Boulos se filiou ao partido e foi candidato a presidente da República em 2018. A chapa formada pelo líder do MTST e Sônia Guajajara obteve 617.122 votos, 0,58% do total. Foi o pior resultado do PSOL em eleições presidenciais.

Mas a candidatura ajudou a consolidar seu nome no cenário político. Neste ano, depois de se certificar que Fernando Haddad não disputaria a eleição municipal pelo PT, decidiu se candidatar à Prefeitura tendo a deputada Luiza Erundina, de 85 anos, como vice. Nas últimas semanas, os dois se dividem em agendas pela cidade. Segundo o publicitário Gabriel Gallindo, responsável pela campanha digital, antes do início da disputa o candidato nunca quis aparecer como “prefeitável”. “Queria ser ele mesmo”, disse. A campanha na internet explorou a imagem do “Celtinha”, único bem que ele tem declarado, ao lado de uma conta bancária, e iniciativas como o “Café com Boulos” e o “Se vira nos 50”, em que responde a uma pergunta em 50 segundos.

O mote da campanha é inverter a prioridade do poder público e colocar a população da periferia em primeiro plano, partindo do mesmo ponto onde o ex-radical e agora político começou sua trajetória. 

FICHA TÉCNICA

Quem são?

Guilherme Boulos (PSOL), candidato a prefeito

Nascido em 19 de junho de 1982, é formado em Filosofia e tem mestrado em Psiquiatria. Entrou no MTST em 2002 e concorreu à Presidência da República na última eleição.

Luiz Erundina (PSOL), candidata a vice-prefeita

Nascida em 30 de novembro de 1934, é assistente social. Foi prefeita de São Paulo entre 1989 e 1992. Foi vereadora e deputada estadual. É deputada federal desde 1999.

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Russomanno e a sombra do ‘cavalo paraguaio’

Deputado tenta evitar a repetição do desempenho de 2012 e 2016, quando largou como líder, mas não chegou ao 2º turno

Paula Reverbel e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 04h00

Em um dia de sol na última semana de campanha para a prefeitura de São Paulo, o deputado federal Celso Russomanno (Republicanos) se “dirigiu” a equipe de uma emissora de TV que foi cobrir sua agenda, a céu aberto, depois que um cinegrafista pediu para ele se posicionar em frente a um muro. “O fundo não é escuro, o fundo é claro. Pega aqui ó, pega de lá para cá”, afirmou. “Disso daqui eu entendo um pouco, vocês vão ficar contra a luz”, completou o candidato, que entrou na política após se tornar conhecido como apresentador de TV com enfoque na defesa do direito do consumidor.

 

Fora dos períodos eleitorais, Russomanno se divide entre seu programa de televisão, o Patrulha do Consumidor, exibido pela Rede Record, e o Congresso Nacional – onde, aos 64 anos, e no terceiro partido, exerce seu sexto mandato como deputado federal. É um ciclo que perdura desde 1995: ele usa a popularidade de apresentador para se eleger deputado e o mandato de deputado para reforçar a autoridade na TV. Curiosamente, quem o convidou para sua estreia na política foi o ex-governador tucano Mário Covas, avô do atual prefeito, Bruno Covas (PSDB).

Seus oponentes políticos costumam citar algumas gafes que compõem a biografia do apresentador, como o “vídeo da uvinha”, em que ele aparece apalpando mulheres na cobertura do carnaval de 1990, e aquele em que ele discute com uma caixa de supermercado – além de imbróglios jurídicos que envolvem sua atuação como empresário, como o Bar do Alemão de Brasília, que resultou no bloqueio de alguns de seus bens.

Enquanto atuava defendendo o consumidor na televisão, Russomanno sempre esteve, nos bastidores da política, atrelado a estruturas de governo das três esferas. No município, seu partido controlou o Serviço Funerário Municipal de São Paulo, a Secretaria de Habitação e quatro subprefeituras até agosto.

 

Além disso, pessoas diretamente ligadas a ele atuaram nas direções tanto do Procon municipal – na gestão Covas – quanto da versão estadual do órgão – no governo de Geraldo Alckmin (PSDB). No ambiente federal, Russomanno integra o bloco conhecido como Centrão, e chegou a bancar a indicação, em 2015, do então aliado George Hilton como ministro do Esporte do governo de Dilma Rousseff (PT).

Quando fala de suas propostas para a saúde pública nos atos de campanha e na propaganda eleitoral, costuma citar a morte da sua primeira mulher, Adriana Torres Russomanno, que ele alega ter ocorrido por “negligência médica”. O Hospital São Camilo, no entanto, foi absolvido pelo Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo. A mulher do deputado morreu em 1990, aos 29 anos, vítima de uma infecção generalizada causada por meningite. No dia, Russomanno gravou imagens de dentro do hospital em que acusava a equipe médica de descuidos.

Efeito TV

A TV dá ao político Russomanno alto grau de conhecimento entre os eleitores de São Paulo. Isso se reflete em votos quando ele se candidata ao Legislativo. Em 2014, foi o deputado mais votado do País, com mais de 1,5 milhão de votos. Nas últimas eleições gerais, foi o terceiro mais votado do Estado, atrás apenas de Eduardo Bolsonaro (PSL) e de Joice Hasselmann (PSL). 

Mas ele não consegue o mesmo resultado quando se candidata ao Executivo. Esta é a terceira vez que Russomanno tenta se eleger prefeito de São Paulo. Em 2012 e 2016, sustentado pelo recall de seu programa de TV, largou na frente nas pesquisas de intenção de voto, mas desidratou principalmente na reta fina da campanha e ficou fora da disputa pelo segundo turno. 

Nas duas ocasiões, o comunicador Russomanno começou a cair nas pesquisas quando abriu a boca. Em 2012, sua proposta de oferecer tarifa proporcional para quem circula pelos bairros chegou aos ouvidos dos eleitores com a seguinte mensagem: quem mora longe vai pagar mais. Foi fatal.

Em 2016, o início do declínio coincidiu com declarações sobre a ilegalidade do aplicativo Uber, a proposta de isolar a Cracolândia e a afirmação de que caso se posicionasse sobre a reforma trabalhista sua candidatura “naufragaria”, o que deixava subentendido que votaria contra os trabalhadores.

Neste ano, o candidato vem mantendo o padrão. Em outubro, pesquisa Ibope/Estadão/TV Globo o colocava na liderança com 26%, cinco a mais que Bruno Covas (PSDB). No mês seguinte já amargava a terceira colocação, com 12%, empatado tecnicamente com Guilherme Boulos (PSOL), com 13% – Covas tinha 32%. Ontem, no último levantamento Ibope/Estadão/TV Globo, ele aparecia empatado numericamente com Márcio França (PSB), com 13%.

O início do declínio coincidiu com declarações como a que fez em uma agenda de campanha, quando sugeriu que moradores de rua seriam mais resistentes ao novo coronavírus porque não conseguem tomar banho todos os dias. Em novembro, reclamou que a vacina contra covid-19 não era testada em pessoas já infectadas.

Russomanno é descrito por pessoas próximas como persistente, mas, diante da experiência de 2012 e 2016, custou a entrar na campanha neste ano. Só se lançou candidato na última hora, depois de receber a sinalização de apoio explícito do presidente da República, Jair Bolsonaro.

Para afastar a imagem de “cavalo paraguaio” das eleições municipais, a aposta desse ano é “surfar” na onda bolsonarista de 2018, mesmo que as pesquisas apontem que o presidente tem alta taxa de rejeição e baixa capacidade de “transferência” de votos. 

“Russomanno e Bolsonaro são duas pessoas que têm interesses comuns. O Bolsonaro (quer) ficar bem em São Paulo e disputar posição com o (governador do Estado, João) Doria. E o Celso que tem essa coisa de resgatar o que sempre foi o sonho dele, que é governar (a cidade de) São Paulo. E sentiu, na aproximação com o governo federal, a chance”, afirmou o marqueteiro da campanha, Elsinho Mouco.

O apoio de Bolsonaro foi além de pose para fotos juntos ou pedidos de votos na transmissão ao vivo das redes sociais do presidente. Auxiliares diretos do presidente, como o secretário executivo do Ministério da Comunicação, Fabio Wajngarten, desembarcaram em São Paulo e tiveram participação direta na campanha.

Explícito

Russomanno oscilou entre a associação explícita, a reticência e declarações que iam de encontro ao discurso do presidente. Logo no lançamento da candidatura, prometeu adotar o “auxílio paulistano”, proposta que replicaria na esfera municipal o auxílio emergencial pago pelo governo federal a profissionais autônomos para minorar os efeitos da pandemia do novo coronavírus – e foi fundamental para aumentar a popularidade do presidente. Também questionou testes para a covid-19 e dados de pesquisas eleitorais.

 

No fim de outubro, aliados de Bolsonaro passaram a criticar os rumos da campanha. Segundo eles, Russomanno se recusava a empunhar bandeiras do presidente como a não obrigatoriedade da vacina contra a covid-19 e a abertura geral da economia durante a pandemia, e resistia a adotar uma estratégia com ênfase na campanha digital, a exemplo do que Bolsonaro fez em 2018. As divergências levaram Wajngarten a se distanciar da campanha em São Paulo.

Outros aliados do presidente, no entanto, mantiveram apoio e organizaram uma ação ao amplificarem, na internet, uma suposta denúncia de que Boulos estaria usando empresa fantasma para justificar despesas de campanha. Era o último ataque ao adversário direto. A afirmação havia sido feita e replicada por bolsonaristas investigados em inquéritos de fake news e de atos antidemocráticos contra o Supremo Tribunal Federal. A Justiça Eleitoral ordenou a retirada do vídeo do ar.

FICHA TÉCNICA

Quem são?

Celso Russomanno (Republicanos), candidato a prefeito

Nascido em 20 de agosto de 1956, é bacharel em Direito. Apresentador de TV, está no sexto mandato na Câmara dos Deputados. Concorre à Prefeitura pela terceira vez.

Marcos da Costa (PTB), candidato a vice-prefeito

Nascido em 24 de junho de 1964 é advogado, especializado em Direito Empresarial. Foi presidente da OAB-SP de 2013 a 2018. Pretendia ser candidato a prefeito pelo PTB

 

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França e a estratégia do devagar e sempre

Ex-governador, que se vende como moderado, faz ataques calculados para tentar chegar ao segundo turno

Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Tratado como um político experiente, articulador, conciliador e formador de alianças, o ex-governador Márcio França (PSB), 57 anos, se diferencia da maioria dos adversários por ser menos atuante na internet e nas redes sociais. Para a disputa pela Prefeitura de São Paulo, ele traçou com seu marqueteiro, ainda na pré-campanha, a estratégia que iria se alicerçar em um tom propositivo - e menos conflituoso - visando ocupar espaço em um ambiente de alta polarização.

A projeção era de crescimento lento e foi o que aconteceu: França marcou 7% em levantamento de setembro, foi a 10% no começo deste mês e na véspera da eleição aparecia com 13%, na pesquisa Ibope/Estadão/TV Globo. Pela sondagem, ele está em empate técnico com dois candidatos na disputa por uma vaga do segundo turno: Guilherme Boulos (PSOL) e Celso Russomanno (Republicanos). 

O marqueteiro Raul Cruz Lima destaca o sangue frio do ex-governador paulista. “Eu avisei desde o começo que o crescimento seria devagar, ele apoiou.” Caio França, deputado estadual e filho do ex-governador, conta que, em alguns momentos, fez pressão para que a campanha adotasse um tom mais contundente contra os adversários. “Cheguei a imaginar que a gente teria de ir mais para o confronto. O meu pai foi mais do feeling dele, que é fundamental.”

França fechou um arco de alianças com PDT - sigla que indicou o vice, Antônio Neto -, Solidariedade, Avante e PMN, assegurando o segundo maior tempo de rádio e TV no horário eleitoral gratuito - um minuto e 37 segundos de programa, ficando atrás apenas do atual prefeito, Bruno Covas (PSDB), que teve 3 minutos e 29 segundos, além de 29 aparições. 

Na disputa de 2018, em que França tentou se reeleger governador, o estilo “devagar e sempre” o levou para o segundo turno depois de ultrapassar Paulo Skaf (MDB) por uma diferença de apenas 89 mil votos, de um total de mais de 15 milhões e chegar ao segundo turno. Era desconhecido por grande parte do eleitorado no início da disputa, pois assumiu o mandato de governador com a renúncia do antecessor, Geraldo Alckmin, de quem era vice - o tucano foi disputar a Presidência e amargou um quarto lugar. Ele começou a corrida com 5% das intenções de voto nas pesquisas e, no segundo turno, perdeu para o ex-aliado João Doria (PSDB) por 740 mil votos. E - como gosta de repetir - bateu o tucano na capital paulista. 

O tom anti-Doria é o mote da campanha mesmo tendo o advogado Anderson Pomini como coordenador jurídico da equipe e um dos principais estrategistas da campanha - ele foi secretário municipal de Justiça do atual governador, quando o tucano estava na Prefeitura paulistana. 

Os coordenadores políticos são o ex-deputado federal Beto Albuquerque e o ex-ministro da Defesa, dos Esportes, da Ciência e Tecnologia Aldo Rebelo. Ambos são conhecidos pelo perfil de esquerda moderada. A campanha conta ainda com a presença da Lúcia França, mulher do candidato há quase 40 anos. 

Crítica. A ideia do PSB paulista é a de tentar colher os frutos da rejeição ao atual governador, que é reprovado por 54% do eleitorado, de acordo com a pesquisa Ibope/TV Globo/Estadão do último dia 9. Trata-se de uma solução única para duas questões impostas pela disputa: além de levantar uma bandeira, evita a necessidade de ataques mais duros ao atual prefeito Bruno Covas (PSDB), que herdou o mandato do atual governador e que faz tratamento contra câncer. A campanha avalia que, se for muito áspera contra o atual detentor do cargo, corre o risco de ser avaliada como insensível.

“Acho que o Covas é um bom menino”, afirmou França inúmeras vezes ao longo da campanha, mencionando o respeito que tem pelo avô do prefeito, o governador Mário Covas (1930-2001), um dos quadros históricos do PSDB. 

Nas críticas, sugere apenas que o prefeito não tem pulso firme para se opor a Doria. Em suas investidas contra Covas, ele costuma dizer que a administração municipal se tornou uma secretaria do governo do Estado. França também aponta uma influência muito grande e indevida do ex-presidente da Câmara Milton Leite (DEM) na gestão. Segundo ele, o vereador é, na prática, “o prefeito mais longevo da cidade”.

Ao apontar falhas na gestão municipal, França evitar nomear um responsável. “Constrange a todos nós andar pelas ruas e ver essa quantidade de pessoas, crianças, enfim, nessa situação de moradores de rua e parece que há uma certa condescendência do poder público”, afirmou no debate realizado pelo Estadão, organizado em parceria a Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). Em todos os embates, o candidato só respondeu de maneira mais contundente com quem foi incisivo contra ele e, na reta final, fez até dobradinhas com adversários com quem disputa uma vaga no segundo turno.

Para convencer o eleitor pelo voto no ex-governador, a campanha de França apostou desde o começo na ideia de que, com a pandemia, a Prefeitura tinha de ir além de uma zeladoria de serviços públicos. Uma das propostas é a criação de um banco. França fala em ajudar a abrir até 250 mil microempresas de graça e emprestar até R$ 3 mil a cada uma, com juro zero, sem fiador. Esse é um dos pontos do que o candidato chama de “Plano Márcio”, uma alusão ao Plano Marshall de recuperação econômica dos Estados Unidos e da Europa depois da 2.ª Guerra Mundial.

Ao vender a imagem de moderado, França se comparou ao presidente eleito dos EUA, Joe Biden. O candidato tem repetido a importância do equilíbrio e chegou a falar, na propaganda eleitoral em que cedeu tempo de TV à candidata Marina Helou (Rede), que seus adversários não são os seus inimigos. Uma frase semelhante foi usada por Biden em seu discurso de vitória.

Trajetória. Ex-vereador, ex-deputado, ex-prefeito e ex-governador, França também sempre repete que nunca abandonou um mandato na metade. O discurso tem endereço: Doria, que deixou a Prefeitura para se eleger governador com menos de dois anos de mandato, Russomanno e até Luiza Erundina (PSOL), vice na chapa de Boulos, já que ambos terão de renunciar aos cargos na Câmara dos Deputados caso saiam vitoriosos na disputa municipal. 

Eleito vereador em São Vicente em 1988, foi reeleito e, em 1996, disputou a prefeitura da cidade da Baixada Santista, onde permaneceu por dois mandatos. Na reeleição para prefeito, em 2000, conseguiu 93,1% dos votos válidos - outro dado que gosta de divulgar quase todo dia na campanha.

Durante a corrida presidencial de 2014, quando era vice-governador de Alckmin, por pouco França não tomou o mesmo voo que seu correligionário, o governador de Pernambuco e candidato à Presidência da República Eduardo Campos (PSB). “O avião passou por cima do carro em que eu estava”, afirmou ao Estadão, relatando que só não embarcou por motivos circunstanciais de agenda e tripulação. Ambos eram caciques do PSB. 

Depois que ele e o partido se deram conta do que havia ocorrido no acidente aéreo, que matou outras seis pessoas além de Campos, França se dirigiu ao local da queda para falar com as equipes que inspecionam os destroços a fim de resgatar a aliança do governador de Pernambuco e devolvê-la à viúva, Renata. 

Atendendo a um pedido de França, um funcionário público da Prefeitura de Santos vasculhou os telhados das casas atingidas pelo avião atrás do objeto. A aliança não foi localizada, mas o servidor achou cinco medalhinhas que o governador de Pernambuco carregava penduradas no pescoço. Elas foram devolvidas à família. Hoje, elas estão com cada um dos cinco filhos do então presidenciável: o deputado federal João Campos - que é candidato do PSB à prefeitura do Recife -, Duda, Pedro, Zé e Miguel. 

QUEM SÃO

Márcio França (PSB).

Candidato a prefeito

Nascido em 23 de junho de 1963, é formado em Direito. Foi governador de São Paulo entre abril e dezembro de 2018. Foi deputado federal, prefeito e vereador de São Vicente

Antonio Neto (PDT)

Candidato a vice-prefeito

Nascido em 19 de dezembro de 1952, é analista de sistemas. Atua no movimento sindical desde os anos 1980. Há dois anos, concorreu ao Senado pelo PDT

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Arthur do Val teve de reviver o ‘Mamãe Falei'

Arthur do Val (Patriota) foi mais ‘Mamãe Falei’ do que nunca durante campanha a prefeito de São Paulo e colocou MBL na vitrine para 2022

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Seu filho provavelmente conhece Arthur do Val, o “Mamãe Falei” (e talvez até tenha tentado te convencer a votar nele). Quem acompanhou pelas redes sociais os debates e entrevistas com candidatos a prefeito de São Paulo não pôde deixar de reparar, nos formulários de comentários, a presença massiva de apoiadores do candidato do Patriota. Esse é o principal trunfo, mas também o maior desafio do deputado estadual, youtuber e empresário em sua primeira disputa pelo Executivo: há engajamento entre seus fãs, mas como transformar isso em voto?

A campanha fez apostas. A primeira delas partia da análise de que o candidato precisava de um reposicionamento de sua imagem pública. A postura provocativa e bélica de militante do MBL que o tornou conhecido não condizia com o que se espera de um candidato a prefeito, na avaliação de sua equipe. Ele precisava transmitir seriedade. Daí veio a ideia de usar só “Arthur do Val” na urna, e não o “Mamãe Falei” de seu canal no YouTube. Duas semanas de campanha depois, porém, veio a percepção de que a aposta foi um erro. “Foi um problema. As pessoas conheciam o ‘Mamãe Falei’, não o Arthur”, diz Rubinho Nunes, advogado do candidato. E então seu codinome das redes passou a ser sua marca de campanha.

Com esta identidade recuperada, foi como se Arthur tivesse sido autorizado a realmente começar a campanha: e então “Mamãe Falei” foi mais “Mamãe Falei” do que nunca. Arthur ganhou holofotes nos confrontos. Atirou para todos os lados. Procurou rivalizar sobretudo com a esquerda, tendo Guilherme Boulos (PSOL) como seu alvo favorito, mas também protagonizou embates com Orlando Silva (PCdoB) e Jilmar Tatto (PT). 

A campanha de Arthur bem que tentou conciliar os ataques aos adversários sempre com um contraponto propositivo, mas nas redes o resultado nunca foi diferente: o que fez sucesso não foi a “Escola 360” ou o “Plano Locomotiva”, por exemplo, mas sim as “jantadas” de Arthur, expressão que seus fãs gostam de usar quando acham que o candidato mandou bem em algum embate. Não difere muita coisa das “mitadas” bolsonaristas ou das “lacradas”, mais associadas à esquerda. Só não diga isso aos apoiadores de Arthur. 

“Mamãe Falei” tentou se mostrar diferente de tudo e de todos. Deixou claro que, apesar dos votos de confiança no passado, agora é um opositor do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e do governador João Doria (PSDB). Nisso, arranjou briga também com outros candidatos da direita, como Joice Hasselmann (PSL), que o mandou “lavar a boca”, e Celso Russomanno (Republicanos) que, no debate do Estadão, mandou Arthur “enfiar a cabeça embaixo do rabo” - sem dar detalhes de como seria isso. Sorte nossa.

Ainda que as pesquisas mais recentes indiquem uma possibilidade pequena de que Arthur chegue ao 2.º turno - ele aparecia com 7% no levantamento de ontem do Ibope/Estadão/TV Globo -, sua candidatura já é celebrada pelo MBL. A disputa pela Prefeitura foi a vitrine que o movimento buscava para começar a se preparar para disputas maiores: uma ala do grupo defende que o MBL tenha representantes nas disputas pelo governo do Estado e pela Presidência em 2022. “Vamos ver uma direita independente do bolsonarismo”, explica o deputado federal Kim Kataguiri (DEM), braço direito de Arthur na campanha. 

O canal de Arthur no YouTube tem hoje 2,7 milhões de inscritos. Mais de 90% dos que assistem aos vídeos são do sexo masculino e quase 70% têm entre 18 e 34 anos. Apesar de a militância online de Arthur estar distribuída por todo o País e, portanto, não representar apenas potenciais eleitores paulistanos, coordenadores da campanha apostaram no barulho do engajamento. “A audiência do Arthur é nacional, mas vimos uma capacidade grande de mobilização espontânea”, diz Rubinho.

Para Kim, Arthur deu atenção a grupos que não costumavam ter direcionamento político, como os gamers, e preencheu o espaço vago de uma candidatura competitiva de direita na cidade. “Não teve um candidato forte verdadeiramente direitista. É um eleitorado que ficou órfão. A gente não sabia que esse vácuo iria existir.

QUEM SÃO

Arthur do Val (Patriota)

Candidato a prefeito

Nascido em 21 de agosto de 1986, estudou Engenharia Química. É empresário dos ramos de reciclagem, combustível e construção civil. Foi eleito deputado estadual em 2018

Adelaide Oliveira (Patriota)

Candidata a vice-prefeita

Nascida em 5 de novembro de 1960, é formada em Letras, com pós em Ciências Econômicas. Foi porta-voz do Vem Pra Rua e participa pela primeira vez de uma eleição

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Petista coloca à prova a força da ‘Tattolândia'

Com lideranças nacionais pressionando para que ele apoiasse Boulos, petista precisa de virada histórica para seguir na disputa

Ricardo Galhardo, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Em 1982, o PT ainda se sustentava no tripé sindicatos/ex-resistentes da ditadura/Igreja Católica sobre o qual havia sido fundado dois anos antes. O partido que prometia lutar pelo povo não tinha base eleitoral na periferia das grandes cidades. Foi nessa época que o padre José Pegoraro, italiano representante do clero progressista da Teologia da Libertação, disse em uma reunião da comunidade eclesial de base (CEB) na Paróquia São Paulo Apóstolo e Nossa Senhora Aparecida, no Jardim das Imbuías, bairro afastado da zona sul de São Paulo, que o sindicalista chamado Lula estava construindo no ABC um partido de trabalhadores para disputar eleições.

Um dos jovens presentes no salão paroquial era o ex-seminarista Leonide Tatto, filho mais velho de uma família de dez irmãos vinda de Corbélia, norte do Paraná. Incentivados por Leonide, os irmãos Tatto eram frequentadores assíduos do salão paroquial, onde funcionava a CEB, entre eles o segundo mais novo, Jilmar. Com aval do padre Pegoraro, os irmãos Tatto começaram a arregimentar pessoas da vizinhança para fundar o primeiro (e até hoje o maior) diretório do PT na periferia de São Paulo. Assim nasceu o que hoje é chamada de “Tattolândia”, uma vasta região da zona sul onde a família Tatto exerce forte influência política ao ponto de ter quatro parlamentares - dois vereadores, um deputado estadual e um deputado federal -, e fonte do poder que levou Jilmar a ser escolhido candidato do PT à Prefeitura. 

Durante mais de duas décadas a influência dos Tatto na região era motivo de comemoração entre os cardeais petistas, por ter ajudado a abrir caminho para o que depois viria a ser chamado de “cinturão vermelho”, conjunto de bairros nas periferias da cidade que despejavam, eleição após eleição, caminhões de votos nos candidatos do partido. Mesmo assim, os Tatto permaneciam à margem da cúpula nacional do PT. A situação começou a mudar em 2005, quando o partido instituiu o Processo de Eleições Diretas (PED) para escolher seus dirigentes.

A força da “Tattolândia” ficou clara e Jilmar, já então o mais destacado dos irmãos, passou a ameaçar o poder interno petista. Os métodos de filiação em massa e denúncias de irregularidades no transporte de eleitores fizeram com que integrantes do próprio PT passassem a chamar a região de “curral eleitoral”. O deputado estadual Enio Tatto refuta. “Sempre defendemos um partido de massas e foi isso que fizemos.”

A primeira disputa eleitoral de Jilmar foi em 1994, quando se tornou suplente de deputado estadual, cargo para o qual foi eleito duas vezes depois, duas vezes federal e líder da bancada do PT na Câmara, mas suas maiores realizações foram como secretário nas gestões Marta Suplicy e Fernando Haddad, quando ajudou implantar o Bilhete Único, almoço e jantar nas escolas municipais e os corredores de ônibus.

Pelo fato de ter conseguido viabilizar seu nome graças à influência na máquina partidária - obtida, em grande parte, graças aos votos da “Tattolândia” -, sua candidatura foi contestada internamente antes mesmo de existir. Em junho do ano passado, a direção nacional do partido cogitou não lançar candidato caso Fernando Haddad mantivesse a decisão de não disputar a eleição. O partido pressionou Haddad, mas não conseguiu demover o ex-prefeito. Só então Tatto se colocou. Pouco antes do início da campanha, petistas como o ex-ministro Celso Amorim e intelectuais ligados ao PT declararam apoio a Guilherme Boulos (PSOL). 

Na segunda-feira, a presidente do partido, Gleisi Hoffman, veio a São Paulo e voltou a sugerir apoio a Boulos. Tatto resistiu. Agora, sua missão é impedir que o PT, partido que governou São Paulo três vezes e liderou a esquerda nas últimas quatro décadas, se torne um nanico na maior cidade do País - na pesquisa Ibope/Estadão/TV Globo de sábado, 14, ele aparecia com 6%.

QUEM SÃO

Jilmar Tatto (PT)

Candidato a prefeito

Nascido em 25 de junho de 1965, é formado em História e fez mestrado na Poli-USP. Foi secretário das gestões de Marta Suplicy e Fernando Haddad, deputado estadual e federal

Carlos Zarattini (PT)

Candidato a vice-prefeito

Nascido em 8 de junho de 1959, é formado em Economia, com especialização em Transportes. Foi vereador, deputado e secretário na gestão Marta Suplicy

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Joice não emplaca ‘direita raiz’, mas reposiciona PSL

Após sigla romper com Bolsonaro, candidata se reinventa e segue voo próprio na política sem retaguarda do clã presidencial

Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Eleita deputada federal em 2018 em com mais de 1 milhão de votos na onda bolsonarista, a jornalista Joice Hasselmann, 42, costuma dizer que sua candidatura à Prefeitura de São Paulo faz parte de uma estratégia de reposicionamento do PSL após o rompimento da legenda com o Palácio do Planalto.

Com um teto 3% nas pesquisas de intenção de voto divulgadas até agora, Joice não conseguiu emplacar o mote de que representa a “direita raiz”, mas chega na reta final do primeiro turno com pelo menos uma missão cumprida: conseguiu se reinventar e ganhou musculatura para seguir voo próprio na política sem a retaguarda do clã Bolsonaro.

“A Joice sai dessa campanha como um nome nacional e maior protagonista do PSL. O maior partido de direita do País não podia ficar fora da disputa na capital”, disse o deputado federal Junior Bozella, presidente do PSL paulista e coordenador político da campanha. O parlamentar lembra que os outros dois nomes da legenda que poderiam ocupar espaço declinaram: o senador Major Olímpio e a deputada estadual Janaina Paschoal.

O dirigente do PSL avalia que o bolsonarismo saiu menor da campanha municipal e acredita que a ala do partido que prega a reaproximação com o presidente da República perdeu força. Com uma campanha que custou R$ 5,9 milhões, dinheiro 100% oriundo do Fundo Eleitoral, Joice acionou uma metralhadora giratória na campanha.

Atacou o prefeito Bruno Covas (PSDB), o clã Bolsonaro, o ex-governador Márcio França (PSB) e até mesmo o amigo e aliado João Doria (PSDB), que não guarda mágoas. “Nós nos damos muito bem. Tenho estima e amizade pessoal por ela”, disse o governador ao Estado.

Em entrevista ao Estadão feita em seu apartamento em Higienópolis, bairro nobre da capital, a deputada federal falou sobre os movimentos que precederam o lançamento de sua candidatura e disse que houve uma forte articulação encabeçada por Doria para que ela fosse vice na chapa de Bruno Covas.

“Foram 9 reuniões com o João (Doria) para tratar do assunto. Tentaram me convencer a ser vice do Bruno e me ofereceram todo o espaço que eu quisesse na administração. O PSDB começou conversar comigo antes do Bruno ser candidato. Estava aquela dúvida por causa do tratamento. Falei para eles com toda franqueza: não acredito no projeto do PSDB para São Paulo, embora goste do Bruno. A gente já foi para a balada junto”, disse a candidata do PSL.

Ela disse, ainda, que sofreu pressão “até do partido” para ser companheira de chapa de Bruno Covas.

A campanha de Covas confirma as conversas, mas nega que ela tenha sido convidada para ser vice do tucano. O maior entusiasta da tese de unir Covas e Joice foi Doria, mas a ideia não prosperou. “Nos encontramos no apartamento do Wilsinho (Wilson Pedroso, coordenador da campanha de Covas e chefe de gabinete de Doria). A conversa foi amistosa. Bruno disse: “Seria um tiro de canhão a nossa chapa. Me fala o que você quer pra ficar com a gente. Tomei três cafés”, disse Joice. 

A deputada tornou-se uma referência entre os ativistas de direita quando assumiu um discurso raivoso antipetista quando era jornalista da revista Veja em São Paulo. Sua posição chamou atenção dos grupos que lideraram o movimento pelo impeachment de Dilma Rousseff (PT). Ao abraçar o ativismo, começou a frequentar os carros de som do MBL, Vem Pra Rua e Nas Ruas na Avenida Paulista.

Foi assim que caiu nas graças dos Bolsonaro e foi convidada a entrar na política. A ideia inicial era que disputasse o Senado, mas acabou tentando uma vaga na Câmara para acomodar interesses internos do partido. Depois de eleita assumiu a liderança do governo na Câmara e tornou-se uma das vozes mais influentes do Congresso Nacional, até entrar em rota de colisão com os filhos do presidente. 

“O ego do Bolsonaro foi crescendo. Hoje ele só escuta os filhos. Ele queria que eu defendesse 'o meu menino” todos os dias”, disse a deputada.

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O sonho de Matarazzo de chefiar a cidade continua

Experiência ao longo de gestões Serra e Kassab não foi páreo para a falta de tempo de TV e de apoiadores de peso na campanha

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Sentado em uma mesa em uma doceria judaica no Bom Retiro, na região central da cidade, Andrea Matarazzo (PSD) é o centro de uma roda que reúne líderes comunitários do bairro e do vizinho Canindé, além de donos de confecções da região e empresários de origem sul-coreana. Traz diagnósticos que vão ao encontro das reclamações do pequeno público e aponta soluções recebidas com entusiasmo. Cenas parecidas se repetem em outras regiões da cidade, com outros públicos. Quem observa a reunião, uma conversa política tradicional, fica com a impressão de que, antes do fim da campanha, a candidatura irá decolar.

Mas a experiência adquirida ao longo das gestões José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (PSD) não foi páreo para o pouco tempo de TV, a falta de apoiadores de peso e uma presença morna nas redes sociais para o descendente político do clã de industriários na campanha para a Prefeitura neste ano: por mais que tivesse habilidade para mostrar seu conhecimento dos problemas da cidade e acesso a interlocutores capazes de formar opinião dentro de seus redutos locais, Matarazzo não saiu da casa do 1% das intenções de voto.

A participação como mero figurante na sua primeira tentativa de eleição para o Executivo foi como o terceiro capítulo de uma jornada que começou na gestão Fernando Haddad (PT), quando o ex-embaixador do Brasil na Itália, ex-secretário de diversas gestões tucanas e ex-ministro de FHC obteve seu primeiro mandato na cidade, se elegendo vereador.

A eleição se deu após o candidato chefiar os serviços de zeladoria de Serra e Kassab, onde ganhou fama por parte da imprensa de ser um “xerife”. O mandato de parlamentar, quando assumiu a voz da oposição, serviria para pavimentar o caminho que o levaria ao 5º andar do Edifício Matarazzo, a sede da Prefeitura que leva o nome de sua família. Nunca escondeu: “Meu sonho é ser prefeito.” Dizia almejar uma gestão histórica, queria ver seu nome ao lado dos prefeitos históricos, como Prestes Maia e Faria Lima. “Uma gestão para revolucionar a cidade.”

O que ficou fora do radar até ser tarde demais foi a blitzkrieg organizada por João Doria, que dominou o diretório municipal do PSDB na cidade em 2016 e lhe tomou a chance de disputar o cargo. Muito contrariado após ser preterido na decisão do partido sobre quem seria o próximo candidato à Prefeitura, um dos tucanos símbolos do partido na cidade deixou a legenda atirando. “João Doria é uma piada pronta”.

A proximidade de Kassab lhe garantiu abrigo para se manter na política e, ainda naquele ano, ele protagonizou uma improvável chapa encabeçada com a ex-adversária Marta Suplicy, que havia deixado o PT após também ter sido sacada do posto de candidata a prefeita pela legenda de Lula. A dupla lançou uma candidatura com os dois nomes contra seus ex-partidos para ver João Doria levar a disputa no primeiro turno.

Nos três anos seguintes, Matarazzo recebeu o compromisso de Kassab de que sairia candidato. Parte dos vereadores da cidade chegou a advogar que o partido se sairia melhor se unir à chapa com 11 legendas aglutinadas ao redor de Bruno Covas. A candidatura do PSD foi oficializada no dia 31 de agosto, primeiro dia autorizado para tal pela Justiça Eleitoral, para afastar esses rumores.

Matarazzo testou a temperatura de adotar um discurso conservador e se aproximar de Jair Bolsonaro. O PSD de Kassab é essencialmente governista, e teve cargos nos governos Dilma, Temer e é a legenda que simbolizou a aproximação do atual presidente com o centrão, quando assumiu o ministério das Comunicações com Fabio Faria. Nesse espírito, a vice do candidato foi oferecida à deputada estadual Marta Costa, da Assembleia de Deus. Mas quando Celso Russomanno (Republicanos) se lançou candidato, com o apoio explícito do presidente, o candidato corrigiu rumos e se focou nas críticas ao prefeito Bruno Covas.

Ele discorda da leitura. Segundo informa sua assessoria, Matarazzo "nunca quis se aproximar do presidente" e o único encontro que tiveram, na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), se deu pelo fato de o candidato ser diretor da instituição. "A candidata a vice-prefeita Marta Costa foi escolhida por sua competência e por ter três mandatos de vereadora e dois de deputada estadual", complementa sua equipe. 

O PSD tem quatro vereadores na Câmara Municipal e um deles (Rodrigo Goulart) deu apoio explícito a Covas na disputa. A divergência foi respeitada por Kassab, que garantiu ao divergente espaço na campanha de TV.

Matarazzo tem 64 anos e aparenta vigor para permanecer na vida pública. Ele conta com o respeito dos dirigentes do antigo partido e do atual. São requisitos básicos para continuar perseguindo o sonho de chefiar a cidade. O próximo gesto já deve ser dado na semana que vem, quando se posicionar (caso o faça) sobre quem apoiará em um eventual segundo turno.

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A mais frustrante campanha de Levy Fidelix

Candidato do PRTB esperava apoio de Bolsonaro – e não teve. ‘Em 2018, entregamos o vice a ele’, afirma; na quinta tentativa de disputar à Prefeitura, insistiu no ‘aerotrem’

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

A quinta tentativa de Levy Fidelix (PRTB) tentar se eleger prefeito de São Paulo é também a mais frustrante. Dois anos depois de ceder o vice Hamilton Mourão para a chapa presidencial, ele esperava apoio de Jair Bolsonaro: não teve. Esperava que a figura de Mourão atraísse votos e o fizesse aparecer como um candidato competitivo pela primeira vez: não aconteceu. Contava que a onda conservadora que mostrou força no Brasil em 2018 ainda estivesse imperante nas redes sociais em 2020: também não deu certo.

O clima era de otimismo em agosto, quando Levy foi lançado pelo partido para sua 15ª disputa eleitoral – sem nenhum resultado positivo para os diferentes cargos que concorreu até aqui. “Mourão será um diferencial excepcional. É um dos grandes diferenciais que no passado não tínhamos”, disse. Três meses depois, culpou os institutos de pesquisa por seu desempenho ruim e alta rejeição e afirmou que se viu “entrando num jogo de futebol perdendo de 100 a 0” para os adversários com mais recursos.

A grande decepção de Levy foi que Bolsonaro o ignorou. O presidente chegou a afirmar que não se envolveria nas eleições municipais, mas decidiu usar sua influência em prol do candidato do Republicanos, Celso Russomanno. Levy se chateou: “Em 2018, entregamos o vice a ele. Eu esperava reciprocidade sem dúvida nenhuma, mas não posso falar por ele”.

A mágoa com o presidente ficou perceptível no discurso de Levy, que mudou de tom da pré-campanha para cá. Antes, dizia ter muita sinergia com o bolsonarismo. Chegou a prometeu fazer o PRTB “caminhar junto” com o partido que Bolsonaro tenta criar, o Aliança Pelo Brasil. Depois, até criticou a política econômica do presidente, que classificou como monetarista e disse que não é “gado”, como são chamados pejorativamente apoiadores do presidente nas redes sociais. “Podemos ter ideias similares de defesa da Pátria, contra o comunismo, mas não sou gado. Tenho meu livre pensamento. Não sou conduzido.”

Mourão apareceu na campanha de Levy dizendo que o PRTB tinha “um homem certo” para a cidade. “Um homem que sempre esteve comprometido com a direita, com as causas boas do nosso País e com boa administração de recursos públicos”, diz Mourão ao lado de Levy no vídeo.

Conhecido por insistir na ideia do “aerotrem” – um monotrilho suspenso – como solução para o transporte público em São Paulo, Levy voltou a defender a proposta que o transformou em uma figura folclórica na política paulista e nacional. Também falou em criar um boulevard com quadras e áreas verdes em cima dos rios Tietê e Pinheiros e propôs ações relacionadas a patriotismo, como tornar obrigatório o Hino Nacional nas escolas. Na saúde, o candidato prometeu contratar “motomédicos” para agilizar atendimentos de emergência e introduzir o delivery de remédios no setor público. Ele falou ainda em construir o novo paço municipal na região da cracolândia e em erguer na Rua Santa Ifigênia o “maior shopping de tecnologia da América Latina”.

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Candidata ‘sonhática’ ficou dentro da própria bolha

Sem tempo de TV, Marina Helou, candidata mais jovem da disputa, fez campanha com candidatos a vereador na mesma faixa etária e com grupos de renovação

Bruno Ribeiro, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

A deputada estadual Marina Helou (Rede) está com alguns assessores enquanto caminha em uma feira livre no Paraíso, zona sul de São Paulo. Ela está fazendo uma live, um vídeo ao vivo transmitido na internet. É a última quarta-feira antes da eleição e ela distribui panfletos acompanhada de uma candidata a vereadora, que olha para o celular e diz que a campanha está plantando árvores para compensar as emissões de carbono gerada pelos santinhos. Mais alguns passos e uma mulher se aproxima da dupla. Ela diz que votará em Marina, que sorri em resposta e dá um abraço com os rostos distantes, por causa da pandemia. Na hora, perto da hora do almoço, há 11 pessoas assistindo.

A campanha “sonhática” voltada à primeira infância e à defesa do meio ambiente, que prometia uma São Paulo antirracista, não saiu de dentro da bolha de Marina, composta por apoiadores de seu partido, a Rede, e por egressos de movimentos de renovação política. Sem nenhum segundo de TV e uma verba de campanha de menos de R$ 1 milhão, Marina se disse surpresa, ao Estadão, no começo de setembro, por ter pontuado em uma pesquisa eleitoral que acabara de ser divulgada. Teve 1% das intenções e falou que iria crescer. Mas estacionou naquele porcentual ao longo da campanha

Marina Helou, egressa de uma família de classe média alta, que estudou em colégio Waldorf, fez faculdade de gestão pública e se engajou em movimentos de renovação política. Se lançou deputada pela Rede em 2018 e venceu. Sua candidatura à Prefeitura foi um voo solo de seu partido após algumas conversas com o PV, partido que terminou apoiando Bruno Covas. A aposta foi viável porque a candidatura contou com cerca de R$ 850 mil em recursos públicos, vindo das cotas que a Rede tem do fundo eleitoral (a campanha ao todo custou R$ 970 mil, segundo informações do Tribunal Superior Eleitoral).

Com 31 anos, foi a candidata mais jovem da disputa, e foi vista frequentemente com candidatos a vereador na mesma faixa etária. Abusou das redes sociais para divulgar propostas e chegou a ter bordões, dizendo sempre que possível que iria “governar a partir de evidências” e que mostraria “que sim, é possível fazer de outra maneira”. Mulher e jovem, foi alvo de uma série de comentários de homens nas redes sociais que classificou como machistas: pedidos de beijos e frases menos educadas. Chegou a prestar uma queixa policial.

Passou boa parte da campanha explicando propostas do plano de governo, sem deixar de comentar temas que considerava “polêmicos” mas corretos, como a volta da inspeção veicular na cidade. “A gente tinha uns alertas para esses temas”, disse Marina, em entrevista ao Estadão. Mas não se furtou de tentar convencer que eram propostas adequadas. Falou sobre elas com um tom professoral, com sobrancelhas torcidas para o centro e sempre olhando para a câmera, fosse em lives, sabatinas e outros eventos online, que protagonizaram a eleição em ano de pandemia.

As propostas mais ligadas à centro-esquerda não foram suficientes para fazer a candidata virar alvo de nenhum adversário entre as candidaturas nanicas, mas como deputada Marina já havia tido atritos com o colega de Assembleia Arthur do Val (Patriota). Márcio França (PSB), cuja campanha quis se posicionar no centro, chegou a oferecer parte do seu tempo de TV a ela, mas advogados do candidato depois disseram que não seria possível. Na última semana, então, ele leu uma carta dela em seu programa. O texto convidava o espectador para entrar em seu site.

Chegada a reta final, a campanha poderá ter ajudado na eleição de ao menos uma cadeira para a Rede na Câmara Municipal, ou mesmo garantido uma vida parlamentar mais duradoura à deputada. Mas não foi capaz de fazer o plano de governo, do qual ela dizia ter orgulho, virar realidade.

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Orlando Silva adotou o antirracismo como tema de campanha e sofreu preconceito

Candidato do PCdoB recebeu ataques e ofensas nas redes e chegou a registrar um Boletim de Ocorrência em uma delegacia; ex-ministro se frustrou com os poucos debates na TV

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Minutos antes de iniciar um discurso na tarde da última quarta-feira, o candidato Orlando Silva (PCdoB) olhou para o céu e viu uma nuvem carregada de chuva sobre sua cabeça. Estava em frente ao centro de distribuição dos Correios na Vila Leopoldina ao lado de cinco colegas do movimento sindical e uma equipe de campanha que, juntos, somavam cerca de 12 pessoas na calçada enquanto o movimento da portaria seguia normalmente. Em voz baixa, perguntou-se sobre a chance da água cair ali mesmo, enquanto falava. 

Orlando e os sindicalistas discursavam com duas caixas de som durante o horário de almoço em meio à entrada e saída dos funcionários, a maioria sem reconhecer a presença do candidato. Um grupo de auxiliares de limpeza acomodava-se distraído em bancos de madeira ao lado do ato, com a atenção voltada para telas de celular. Em altos decibéis, ouviam-se críticas à terceirização de serviços, à precarização das condições de trabalho, promessas para melhorar as oportunidades de emprego na cidade, e pedidos de voto. O tempo ficou firme durante os dez minutos de discurso do candidato e as horas seguintes: a nuvem anunciava um temporal que caiu apenas no fim do dia. 

Aos 49 anos, escolhido para a primeira candidatura do PCdoB à Prefeitura de São Paulo em seis décadas, Orlando Silva teve uma campanha eleitoral que contrasta com sua projeção em Brasília. Durante a existência do Ministério do Esporte, que se encerrou em janeiro de 2019, Orlando foi seu ocupante mais longevo. Assumiu a pasta interinamente aos 34, como ministro mais jovem da esplanada, e atravessou os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff no cargo. 

Depois de ser suplente de vereador na Câmara Municipal de São Paulo, elegeu-se deputado federal por duas vezes consecutivas, em 2014 e 2018. Foi relator de alguns projetos com visibilidade neste ano, como a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) e o programa emergencial de manutenção do emprego, que garantiu o pagamento de benefícios a trabalhadores que tiveram reduções salariais em meio à pandemia. 

Nas pesquisas eleitorais à Prefeitura, no entanto, Orlando marca entre zero e 1% das intenções de voto. Ele tem dito a colegas nas últimas semanas que sua maior frustração na campanha foi a participação em poucos debates, uma de suas apostas para melhorar o desempenho. 

“É quando você tem um ‘nivelamento de oportunidades’, e isso para mim foi uma coisa meio frustrante”, conta o candidato. “Nós somos ‘lisos’, não ia ter muito dinheiro, a gente sabia disso. Que não ia ter tempo de TV, a gente sabia. Agora, não ter tido debates na TV acabou prejudicando um pouco.” 

A pandemia do novo coronavírus fez com que ele se sentisse obrigado a ser um candidato distante – até nos raros momentos de celebridade. Há duas semanas, em uma visita ao Mercado Municipal de São Miguel Paulista, na zona leste, eleitoras tentaram abraçá-lo e tirar fotos ao seu lado. Nos corredores estreitos e lotados do mercado, ele se afastou num susto e fez o alerta: “olha o distanciamento, gente”. Cumprimentou todos, mas de forma “responsável”. 

Dois dias depois, veio um susto maior e a paralisação forçada das atividades. Seu coordenador de campanha e a esposa foram diagnosticados com covid-19, levando-o a brecar o ritmo da corrida eleitoral e cancelar compromissos. Entre 14 integrantes da equipe, sete testaram positivo. 

“Ali talvez tenha me assustado um pouco mais, então eu ‘tirei o pé’”, conta. “Eu suspendi a agenda, porque é muito grave. Imagina eu virar um ‘agente’ de contaminação?”

Como dois testes apontaram resultado negativo nele próprio, Orlando retomou as agendas com um time reduzido, parcialmente em trabalho remoto. As agendas esvaziadas foram uma constante, ele diz, inclusive pela insistência em seguir protocolos de segurança e não entrar em contradição. Em locais fechados, o número de pessoas presentes era, no máximo, a metade da capacidade total. 

Se escapou por pouco de um encerramento precoce da campanha, o candidato também saiu às ruas com atraso. Suas primeiras agendas externas ocorreram no fim de setembro, quando outros candidatos mais bem colocados já visitavam diariamente vários bairros da cidade há semanas. “Jogo é jogo, e treino é treino”, brincou em seu primeiro evento presencial, para justificar a espera. 

Com um dos poucos negros na disputa eleitoral, o PCdoB escolheu o antirracismo como principal tema de campanha. Em um clipe, Orlando apareceu na favela vestindo o lema “vidas negras importam” na camiseta e o punho fechado erguido no ar, o símbolo de resistência dos Panteras Negras contra o racismo a partir da década de 1960. Seu jingle foi um samba com o título Prefeito Preto Preparado e participação de Leci Brandão, sambista e deputada estadual pelo PCdoB, que exaltava “um Silva como nós”. Ela também narrou peças de propaganda sobre a desigualdade entre negros e brancos no mercado de trabalho, numa comparação com o cargo de prefeito. 

Uma mensagem forte e o peso histórico do partido atraíram apoio de artistas, ativistas do movimento negro e integrantes de centrais sindicais mas, na terra que já foi chamada de “túmulo do samba”, não conseguiu provocar crescimento nas pesquisas. 

A campanha não saiu ilesa do preconceito que abordou nas próprias peças de propaganda. A página do candidato nas redes sociais passou receber ataques com ofensas racistas e referências à sua aparência e sua pele. Ele chegou a registrar um Boletim de Ocorrência em uma delegacia, em que identifica autores e pede uma investigação do crime de injúria racial. 

Apesar das nuvens carregadas que se formaram sobre as agendas de campanha, Orlando diz que se divertiu nas últimas semanas. Foi sua primeira eleição a um cargo majoritário, mas a tarefa de tirar aprendizados da experiência, ele diz, foi complicada pelo momento extraordinário da pandemia. 

“Estou fazendo com alegria e me divertindo, para falar a verdade, conhecendo muita gente”, conta o candidato para, em seguida, voltar às dificuldades, com as mãos no ar e com o olhar no vazio. “Agora é isso, o distanciamento: você não pode abraçar as pessoas.”

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Candidato do PCO é crítico de Boulos e apoia Lula

Antônio Carlos descartou abandonar candidatura para apoiar nome do PSOL

Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

Professor da rede pública do Estado há quase 30 anos, Antônio Carlos Silva (PCO) manteve sua a candidatura à Prefeitura de São Paulo mesmo com poucos recursos e sem espaço na propaganda eleitoral da televisão. A campanha, segundo ele, é uma oportunidade para apresentar o programa do partido, que inclui pautas como a defesa pela educação gratuita e pelo direito das mulheres. 

Defensor da união das esquerdas em torno do ex-presidente Lula para enfrentar Jair Bolsonaro, Antônio Carlos é crítico de Guilherme Boulos e descartou abandonar sua candidatura para apoiar o candidato do PSOL, como fizeram os nanicos PCB e UP. “Somos contrários a essa política, porque ela mostra que os partidos estão perdendo a razão de ser”, disse em entrevista à Rádio Eldorado.

Nas pesquisas de intenção de voto do Ibope, o candidato do PCO tem menos de 1% das menções. Essa foi a sua quarta participação em eleições majoritárias. Carlos já disputou a prefeitura de Piracicaba, do Rio de Janeiro e tentou uma vaga no Senado e na Câmara. Hoje, além de professor de matemática, é o responsável pela Corrente Sindical Nacional Causa Operária, da Central Única de Trabalhadores (CUT).

Seu plano de governo para as eleições de 2020 traz propostas como o cancelamento do ano letivo e auxílio emergencial com aumento de 100% do valor do governo, além da extensão do benefício para todos os inscritos sem emprego e sem renda.

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Na 11ª eleição, Vera Lúcia transformou casa em comitê de campanha

Em meio à pandemia, candidata do PSTU cumpriu maior parte dos compromissos em lives e seminários na frente do computador

Tulio Kruse, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2020 | 05h00

A casa onde mora a candidata Vera Lúcia Salgado no bairro do Ipiranga, na zona sul de São Paulo, é onde a maior parte dos compromissos de campanha se cumpriram nos últimos meses. Sentada em frente ao computador e com o celular a tiracolo, Vera passou a maior parte do tempo na sala de estar, que se tornou comitê de campanha e cenário para lives, seminários online, entrevistas em vídeo e reuniões virtuais.

Em meio à pandemia do novo coronavírus, ela compareceu a menos de dez eventos presenciais. A agenda na internet, por outro lado, teve de duas a três transmissões por dia. Vera estima que tem passado de dez a 12 horas de trabalho em casa dedicada às eleições, a maior parte conectada a sessões virtuais. 

“Foram poucas agendas presenciais mesmo, (a ponto) de passar uma semana inteira sem colocar o pé na rua”, conta Vera, para quem a campanha foi “desafiadora, trabalhosa em todos os sentidos porque isso não diminui a agenda, ao contrário: nós continuamos tendo uma agenda bastante concorrida”.

Aos 53 anos, Vera Lúcia está em sua 11ª eleição. Ela disputa cargos há mais de duas décadas, concorreu quatro vezes a prefeita de Aracaju, uma vez ao governo estadual de Sergipe e, em 2018, foi a candidata do partido à Presidência. É uma das fundadoras do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), que surgiu em 1994 como dissidência do PT e prega a revolução para atingir um ideal de sociedade socialista, com comitês de trabalhadores no poder.

Neste ano, o foco nas agendas digitais foi tão grande que Vera atribui ao tempo excessivo em frente às telas uma consulta ao oftalmologista, no início de outubro, para ajustar o grau dos óculos. Foi enquanto aguardava o atendimento que a candidata recebeu a notícia de seu melhor resultado eleitoral na campanha: havia pontuado 2% nas intenções de voto.

Naquele momento, isso significava ocupar o quinto lugar entre 14 concorrentes e estar à frente de candidaturas muito mais caras e de partidos maiores, como PT, PSL, PSD e PCdoB. Durou pouco. Nas pesquisas seguintes, os resultados do PSTU voltaram a recuar e hoje vão de zero a um ponto porcentual.

A mais velha de dez irmãos, Vera começou a trabalhar aos 14 anos fora de casa. Foi datilógrafa, faxineira e garçonete. Aos 19, contratada como costureira em uma fábrica de sapatos em Aracaju, conheceu sua porta de entrada para a política: o movimento sindical.

“As condições de trabalho eram terríveis”, ela diz. “Nunca tive uma vida fácil, não conheço a facilidade que a vida oferece.”

Sua mudança para São Paulo ocorreu há dois anos, meses antes de sua candidatura à Presidência. Na casa no Ipiranga, transformado em “quartel-general” do comitê de campanha nos últimos meses, também a filha e o marido, que vieram de Alagoas em seguida. O motivo da mudança, ela diz, não foi a política e sim as oportunidades de trabalho, ela diz. Vera hoje trabalha como educadora sindical no Instituto Latino-Americano de Estudos Socioeconômicos (Ilaese)

Ela costuma dizer que sua radicalidade está no conteúdo do programa que o partido propõe, não no tom de voz. Ela tenta quebrar com o estereótipo do ativista revolucionário tido como bruto e mal-educado. “Sou uma pessoa brava, sim, enérgica, sim. Estúpida, não.”

O PSTU não tem representação na Câmara Municipal, na Assembleia Legislativa de São Paulo ou no Congresso Nacional. As eleições, segundo a candidata, não estão entre as prioridades do partido. Quem se orienta com esse objetivo, inclusive, é constantemente criticado pelo partido, e uma aliança com as principais siglas da esquerda nas eleições, impensável. 

“O PSTU não se organiza para disputar eleições, e sim para difundir junto com a classe trabalhadora, os mais pobres e a juventude, do campo e da cidade, sobre a necessidade de construir uma nova sociedade”, diz Vera. “É diferente dos partidos de esquerda que se movem em torno das eleições, muito embora tenham lá para um futuro, como última tarefa, o socialismo.”

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