Lançamento de Moro tem discurso de ‘David contra Golias’, ataques ao PT e recados a Planalto

Com retórica à direita, ex-ministro é saudado pela plateia como ‘guerreiro do povo brasileiro’

Vera Rosa, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2021 | 17h15

Caro leitor,

A cerimônia de filiação do ex-ministro da Justiça Sérgio Moro ao Podemos acabou se transformando em um ato de lançamento de sua pré-candidatura ao Palácio do Planalto, com direito a palco decorado com as cores da Bandeira e gritos de “guerreiro do povo brasileiro”. Se alguém tinha alguma dúvida de que a intenção de Moro era disputar a sucessão de Jair Bolsonaro, tudo se dissipou ali. O ex-juiz da Lava Jato não apenas adotou a retórica de desafiante no pelotão da terceira via como respondeu ao ministro das Comunicações, Fábio Faria, que o acusou de “abandonar o País” no momento mais grave da  pandemia de covid-19, quando ele foi trabalhar nos Estados Unidos.

Moro não citou Faria, que partiu para a ofensiva em entrevista ao Estadão, dando a senha do mote a ser usado por Bolsonaro na campanha pelo segundo mandato, em 2022.  Mesmo assim, o ex-ministro não deixou dúvida sobre quem queria atingir, construindo o discurso com uma história na qual encaixou a reação aos disparos do governo.

Munido de um texto que foi lido por 45 minutos no telempropter e no qual vestiu o figurino da direita, Moro disse que a “gota d’água” para a decisão de deixar os EUA e retornar ao Brasil ocorreu quando um estudante brasileiro o abordou para uma conversa. De repente, o jovem tascou: “Moro, é verdade que você abandonou o Brasil?”  

Em nítido esforço para se apresentar como candidato que não é de uma nota só, com plano de governo que vai além do combate à corrupção, o ex-ministro comparou a pergunta do estudante a “um tiro” no coração. Foi aí que citou até mesmo a disputa entre o pastor de ovelhas e o guerreiro gigante.

“Eu não poderia e nunca vou abandonar o Brasil. Se necessário, eu lutaria sozinho pelo Brasil e pela Justiça. Seria David contra Golias”, resumiu ele.

Fábio Faria  é um dos nomes cotados para vice na chapa de Bolsonaro. Na semana passada, após o lucrativo leilão do 5G – que vai render R$ 4,8 bilhões ao governo –, o ministro disse ao Estadão que a habilidade política de Moro era equivalente a zero. “Onde ele estava nesse último ano, quando estávamos com pandemia, as pessoas morrendo? Foi para os Estados Unidos. Foi embora, abandonou o País. E volta agora para querer ser candidato?”, provocou Faria, que vai se filiar ao PP do presidente da Câmara, Arthur Lira (AL).

Sete meses após deixar o governo, em abril de 2020, Moro foi contratado como sócio-diretor da consultoria americana Alvarez & Marsal, que trabalha com gestão de empresas. Nesse período, também começou a preparar sua campanha, treinou impostação de voz e se reuniu com líderes de partidos que hoje buscam um nome de consenso para a terceira via. “Alguns até dizem que não sou eloquente e não gostam da minha voz”, afirmou ele, nesta quarta-feira, 10. “O Brasil não precisa de líderes que tenham voz bonita. O Brasil precisa de líderes que ouçam e atendam a voz do povo brasileiro.”

No momento da cerimônia que lançou Moro, Bolsonaro estava reunido no Planalto com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e outros dirigentes da legenda. Ignorou  “pendências” e insatisfações nos Estados e acertou sua filiação ao PL, no próximo dia 22. Em um passado não muito distante, o partido de Costa Neto – condenado e preso no escândalo do mensalão – era aliado de primeira hora do PT. E Bolsonaro, que criticava a “velha política”, agora afirma ser do Centrão.

No vídeo exibido pelo Podemos pouco antes de Moro assinar a ficha de filiação, o ex-ministro de Bolsonaro apareceu andando na Praça dos Três Poderes, diante do Planalto, do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF), exibido para a plateia com a inscrição “Justiça”. O Supremo anulou as condenações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Lava Jato e considerou Moro parcial no julgamento do processo referente ao tríplex do Guarujá. A suspeição do ex-juiz se estendeu depois para outros casos.

Faixas com dizeres “#BrasilJusto é Saúde para Todos, é Trabalho para todos” e assim por diante enfeitavam as paredes do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, onde Moro tentava encontrar um caminho para fugir da polarização entre Bolsonaro e Lula. Chegou a mencionar um bordão do ex-presidente ao dizer que “a Petrobras foi saqueada por interesses políticos como nunca antes na história deste País”.

Na plateia, muitos ostentavam o adesivo com a hashtag #VemMoro2022. O ex-ministro, porém, ainda está longe de unir os partidos que se espremem em busca de um lugar ao sol na congestionada terceira via.

“Uma aliança assim é necessária para acabar com a polarização entre dois extremos populistas”, pregou o general Carlos Alberto dos Santos Cruz. Ex-ministro da Secretaria de Governo, o militar rompeu com Bolsonaro, vai se filiar ao Podemos e, dependendo das negociações, poderá ser vice na chapa de Moro.

Ao ser questionado sobre as críticas de Fábio Faria, para quem o ex-juiz da Lava Jato abandonou o País e agora posa de candidato, Santos Cruz reagiu com irritação. “Isso é ridículo, uma palhaçada. Todos sabem que Moro estava trabalhando. O governo deveria se preocupar com coisa mais importante, como, por exemplo, não fazer orçamento paralelo”, rebateu o general.

Pré-candidato ao Planalto, o ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta também estava naquele auditório. Hoje no DEM e prestes a se tornar integrante do União Brasil após o casamento de papel passado com o PSL, Mandetta é outro nome que admite ser vice em alguma chapa. Além de Santos Cruz e Mandetta, outros ex-aliados de Bolsonaro, como o empresário Paulo Marinho (PSDB), os deputados Luís Miranda (DEM-DF), pivô da CPI da Covid, e Joice Hasselmann (PSL-SP), também apareceram na foto. “Os traíras estavam todos lá...”, escreveu no Twitter o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. E a campanha ainda nem começou.

Vera Rosa

Vera Rosa

Repórter especial em Brasília

Jornalista formada pela PUC-SP, sou repórter da Sucursal de Brasília desde 2003, sempre cobrindo Planalto e Congresso. Antes, trabalhei no Estadão e no Jornal da Tarde, em SP. Sou paulistana, adoro notícia, cinema e doces, mas até hoje não me acostumei a chamar “bolo” de “torta”, como em Brasília.

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