'Kit gay quer doutrinar, em vez de educar'

Tucano diz ter sido mais efetivo no combate à discriminação que PT e que é preconceito reprimir manifestação de religiosos

Entrevista com

BRUNO BOGHOSSIAN, IURI PITTA, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2012 | 03h05

Na semana em que o candidato a prefeito de São Paulo Fernando Haddad voltou a ser alvo de líderes religiosos, o tucano José Serra disse que o problema do material de combate à homofobia elaborado na gestão do petista no Ministério da Educação era "pedagógico". "O kit gay quer doutrinar, em vez de educar", afirmou. O material não chegou a ser distribuído, pois foi vetado pela presidente Dilma Rousseff.

Serra defendeu que religiosos possam manifestar opinião nas eleições e criticou o PT por "reprimir" as que não são favoráveis ao partido. O tucano reconheceu ainda que a renúncia à Prefeitura, em 2006, prejudicou sua votação este ano.

Como o sr. pretende reverter o quadro desfavorável indicado pelas pesquisas?

Pesquisas sempre são um retrato, e nesta campanha têm sido um retrato borrado. Poucas vezes as pesquisas desviaram tanto as análises. O 2.º turno tem uma característica de quantidade que muda a qualidade. Não tenho estratégia diferente, mas sei que tudo vai se intensificar. Eleição é escolha, comparação. Biografia, capacidade de realizar, de ter prioridades, fazer acontecer, com quem você anda, quem te cerca, tudo isso pesa.

A polarização PT-PSDB ainda dita os rumos da eleição?

Os fatos mostraram que se manteve. E pode estar certo de que, terminado o 2.º turno, ninguém vai lembrar disso, que a polarização tinha cansado.

O sr. tratou da questão da renúncia, mas ainda hoje é questionado sobre isso. Essa dúvida prejudicou sua votação no 1º turno?

Acho que sim. É uma dúvida que fica, embora na época não fosse uma dúvida. É um problema que surgiu na própria eleição municipal, e é natural que os adversários deem a isso uma ênfase imensa. Eu não deixo de conversar a respeito.

Seu plano de governo só vai ser divulgado agora. Por quê?

Não parei de apresentar propostas a cada dia, isso é que é importante. O programa (registrado) no TRE é para valer. Agora estamos organizando (áreas) temáticas, pegando contribuições dos partidos que estão entrando. Vamos criar um auxílio-creche, uma bolsa para as mães que estiverem na fila. É uma ideia que veio do PPS. Do PDT tem coisas importantes, como (corrigir) a diversidade das velocidades limites na mesma via.

No 1º turno, adversários trataram de projetos a fim de reduzir a tarifa de ônibus. O sr. tem proposta para reduzir o custo?

A proposta do bilhete mensal (de Fernando Haddad) não é redução de custo. Aí é que está a enganação. A outra (cobrança proporcional de tarifa, de Celso Russomanno) não tinha cabimento. Foi apresentada como grande ideia, a meu ver por estratégia eleitoral e porque não pensaram muito.

O ministro Gilberto Carvalho disse que o mensalão atrapalhou o PT na eleição. O sr. concorda?

Claro que atrapalha. O mensalão é processo em cima do PT e do governo. E não é só processo, agora é condenação. O empenho deles é para que passe desapercebido, mas não passa.

O sr. já tinha apoio do PR, que tem um réu condenado, e agora tem do PTB, que também tem...

O (Roberto) Jefferson foi quem denunciou o mensalão. Pode ter gente de outros partidos, mas o mensalão é do PT.

Em resposta, o PT já tem falado do chamado "mensalão mineiro".

É a reação tipicamente petista. Bate carteira e grita 'ladrão' para dispersar a atenção. O PT no governo foi um retrocesso em termos de moralidade pública.

O sr. se refere só ao governo Lula, ou inclui o governo Dilma?

A Dilma pegou essa herança. Ela é do PT, se comporta como petista. Começou fazendo gentilezas ao Fernando Henrique, mas na hora H satanizou o governo anterior sem hesitar.

O sr. acha que o material de combate à homofobia foi o ponto mais fraco da gestão de Fernando Haddad na Educação?

O pior foi a área educacional propriamente dita. Quem tem que se explicar sobre o kit é ele, a Dilma, que revogou (a distribuição), e o TCU, que está cobrando os R$ 800 mil gastos nisso. Quando eu era ministro, não saía peça publicitária ou educacional sem que antes eu tivesse revisado o conteúdo. Mas a questão é a gestão, que vai deixar marcas desastrosas para o futuro: a desmoralização do Enem, as maiores greves desde o governo Figueiredo.

Ainda sobre o kit, pastores evangélicos, em especial Silas Malafaia, fizeram críticas fortes ao conteúdo. O sr. concorda?

Malafaia apoiou o Eduardo Paes com vice do PT no Rio. Foi daquele conselho de desenvolvimento social do Lula. Declarando apoio a mim, virou inimigo do PT. Eu não vi a crítica mais aprofundada, mas tem erro incrível, inclusive de matemática, quando no fundo faz apologia do bissexualismo. Diz que é bom ser bissexual porque aumenta em 50% a chance de ter programa no fim de semana. Não é 50%, é 100%. Segundo, isso não é combater homofobia, é uma espécie de doutrina. O problema do kit gay é, acima de tudo, pedagógico. Quer doutrinar, em vez de educar.

Se assumir a Prefeitura, o sr. pretende criar programa de combate à intolerância nas escolas?

Homofobia, intolerância têm que ser combatidos sempre, de forma adequada. Fiz isso sempre: políticas para deficientes, mulheres, idosos. Meu currículo em matéria de enfrentamento da discriminação e do preconceito ganha de qualquer petista. Essa questão religião-política: os católicos e os evangélicos têm o direito de se manifestar. De repente isso fica proibido. No caso do PT, sempre que não é a favor deles. Eu não sou cristão de boca de urna.

O PT ameaça explorar o caso do ex-diretor do departamento de licenciamento da prefeitura acusado de corrupção. Ele foi nomeado em sua gestão.

Essa pessoa foi nomeada por sugestão do secretário de Habitação. Você, na chefia de um cargo do Executivo, assina milhares de nomeações, sempre. Isso não significa que você conheça cada pessoa. Isso é impossível.

Mas sua campanha exibiu uma propaganda que liga o ex-ministro José Dirceu ao candidato Fernando Haddad porque Dirceu havia assinado a nomeação de Haddad para um cargo no governo.

Isso é diferente, porque estamos falando da cúpula do governo. Não de um cargo de terceiro ou quarto escalão. E quando houve a denúncia em relação ao (Hussain) Aref, o Kassab mandou investigar.

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