'Kit gay era doutrina, não pedagogia'

Tucano diz ter combatido preconceito mais que PT e anuncia bolsa para mães que esperam vaga em creches da Prefeitura

Entrevista com

BRUNO BOGHOSSIAN, IURI PITTA, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2012 | 03h10

Após Fernando Haddad (PT) repetir que o Supremo Tribunal Federal precisa julgar o "mensalão tucano", em referência ao suposto esquema de financiamento ilegal para a campanha a reeleição do então governador Eduardo Azeredo (PSDB) em 1998, o candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo, José Serra, afirma que o adversário tem uma "reação tipicamente petista". "É do pega ladrão: bate carteira e sai gritando 'ladrão' para dispersar a atenção. O que eles têm de fazer é autocrítica do que aprontaram", diz.

Serra também criticou o "kit gay", material didático de combate à homofobia idealizado - mas não distribuído - na gestão de Haddad no Ministério da Educação. "O problema do kit gay é acima de tudo pedagógico", afirma. "Quer doutrinar, em vez de educar."

O sr. diz que pesquisas não necessariamente captam o que o eleitor vai escolher na urna, mas o cenário hoje é desfavorável ao sr. Como reverter esse quadro?

As pesquisas sempre são um retrato, e nesta campanha têm sido um retrato borrado. Poucas vezes as pesquisas desviaram tanto as análises quanto nessa eleição.

Como o sr. pretende se apresentar nesse 2º turno?

O segundo turno tem uma característica de quantidade que muda a qualidade. É mais intenso. Não tenho estratégia diferente, mas tenho consciência de que tudo vai se intensificar. Eleição é escolha, é comparação. Biografia, capacidade de realizar, de ter prioridades, fazer acontecer, com quem você anda, quem te cerca, tudo isso pesa.

A avaliação de que a polarização PT-PSDB estaria desgastada foi precipitada?

Os fatos mostraram que se manteve. E pode estar certo de que, terminado o segundo turno, ninguém vai lembrar disso, que a polarização tinha cansado. Tinha opções de voto, mas o índice de abstenção, nulos e brancos foi alto. Se fosse só a polarização, no 1.º turno haveria um índice de participação maior.

O sr. tratou da questão da renúncia na campanha, mas ainda hoje é questionado pelos eleitores sobre isso. Essa dúvida prejudicou sua votação no 1º turno?

Acho que sim, embora na época não fosse uma dúvida. É um problema que surgiu na própria eleição municipal, e é natural que seja assim. Dentro do que me é permitido fazer, eu fiz e vou continuar fazendo, eu não deixo de conversar a respeito.

O plano de governo só vai ser divulgado agora. Por quê?

Eu não parei de apresentar propostas a cada dia, isso que é importante. Agora estamos organizando as temáticas, pegando contribuições dos partidos que estão entrando. Por exemplo, a questão das creches. Vamos criar um auxílio-creche, uma bolsa para as mães que estiverem na fila. É uma ideia que veio do PPS. Do PDT tem coisas importantes, como a diversidade das velocidades limites numa mesma via.

No primeiro turno, seus dois principais adversários trataram de propostas a fim de reduzir a tarifa de ônibus. O sr. tem proposta para reduzir o custo?

A proposta da carta mensal (bilhete único mensal) não é redução de custo. Aí é que está a enganação. A outra não tinha cabimento. Não é que cause dano, só não tem relevância, e foi apresentado como grande ideia, a meu ver por estratégia eleitoral e porque não pensaram muito.

O ministro Gilberto Carvalho disse que o mensalão atrapalhou o PT na eleição. O sr. concorda?

Claro que atrapalha. O mensalão é um processo em cima do PT e do seu governo. E não é só processo, agora é condenação. O empenho deles é que passe desapercebido, mas não passa.

O sr. já tinha apoio do PR, que tem um réu condenado, e agora tem do PTB, que também tem...

O (Roberto) Jefferson foi quem denunciou o mensalão. Pode ter gente de outros partidos, mas o mensalão é do PT.

Em reação, o PT diz que vai levar para a campanha o chamado mensalão mineiro.

É uma reação tipicamente petista. Bate carteira e sai gritando 'ladrão' para dispersar a atenção. O PT no governo foi um retrocesso em de moralidade pública.

Isso é uma característica só do governo Lula, ou também do governo Dilma?

A Dilma pegou essa herança. Ela é do PT, se comporta como petista. Começou fazendo gentilezas ao Fernando Henrique, mas na hora H voltou as coisas anteriores, satanizando o governo anterior sem hesitar.

O sr. falou sobre a gestão de Fernando Haddad no Ministério da Educação. O sr. acha que o material de combate à homofobia foi o ponto mais fraco?

O pior foi a área educacional propriamente dita. Quem tem que se explicar sobre o kit é ele, a Dilma, que revogou (a distribuição), e o TCU, que está cobrando os R$ 800 mil gastos nisso. Quando eu era ministro, não saia uma peça publicitária ou educacional sem que antes eu tivesse revisado o conteúdo. É inadmissível. Mas a questão é a gestão, que vai deixar marcas desastrosas para o futuro.

Ainda sobre o kit, pastores evangélicos, em especial Silas Malafaia, fez críticas fortes ao conteúdo do material. O sr. concorda com essas críticas?

O Silas Malafaia apoiou o Eduardo Paes com vice do PT no Rio. Ele foi do conselhão do Lula, aquele conselho de desenvolvimento social. O problema é que, declarando apoio a mim, passou a ser inimigo do PT. Eu não vi a crítica mais aprofundada, mas tem um erro incrível, inclusive de matemática, quando no fundo faz apologia do bissexualismo. Diz é bom ser bissexual porque você aumenta em 50% a chance de ter programa no fim de semana. Não é 50%, é 100%. Segundo, isso não é combater homofobia, é uma espécie de doutrina. O problema do kit gay é acima de tudo pedagógico. Quer doutrinar, em vez de educar.

Se assumir a Prefeitura, o sr. pretende criar programa de combate à intolerância nas escolas?

Homofobia, intolerância, tem que ser combatidos sempre, de forma adequada. Eu fiz isso sempre na vida pública. Meu currículo em matéria de enfrentamento da discriminação e do preconceito ganha de qualquer petista, falando do ponto de vista do governo. Essa questão religião-política: os católicos e os evangélicos têm o direito de se manifestar. De repente isso fica proibido. No caso do PT, sempre que não é a favor deles. Eu não sou cristão de boca de urna. O PT quer sempre repimir isso quando não é do lado deles. Isso é antidemocrático e preconceituoso.

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